Vorcaro invadiu sistemas do FBI, Ministério Público e Interpol para intimidar adversários; entenda

Atualizado em 4 de março de 2026 às 11:52
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

A Polícia Federal identificou que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria acessado de forma indevida sistemas sigilosos de órgãos de investigação no Brasil e no exterior enquanto planejava ações de intimidação contra adversários. Segundo as investigações, o grupo ligado a Vorcaro teria obtido acesso a bases de dados internas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal, do FBI e também da Interpol.

O objetivo, de acordo com os investigadores, seria obter informações sigilosas para monitorar ou pressionar concorrentes, ex-funcionários, jornalistas e outras pessoas consideradas adversárias. A informação consta na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça que autorizou a prisão preventiva do executivo durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta-feira (4).

A decisão do ministro relata que o responsável por realizar as consultas aos sistemas era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, funcionário de Vorcaro conhecido pelo apelido de “Sicário”. De acordo com o documento, ele utilizava credenciais pertencentes a terceiros para acessar plataformas restritas de investigação.

Sede da FBI na Pensilvânia. Foto: reprodução

Segundo Mendonça, Mourão “realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial”. Os dados coletados seriam repassados diretamente ao banqueiro e utilizados para orientar ações do grupo investigado.

As apurações indicam ainda que Mourão receberia cerca de R$ 1 milhão por mês para realizar essas atividades. De acordo com a Polícia Federal, ele também atuava na coordenação de outras ações do grupo e na organização de estratégias para monitoramento de adversários.

Além disso, os investigadores apontaram que Mourão participava de tentativas de remoção de conteúdos e perfis em plataformas digitais. Para isso, ele simulava solicitações oficiais de órgãos públicos e acionava canais de atendimento destinados a autoridades.

“Essa atuação envolvia o envio de comunicações institucionais ou documentos sem validação formal, com o objetivo de obter dados de usuários ou promover a retirada de conteúdos considerados prejudiciais aos interesses do grupo”, escreveu o ministro na decisão.

As investigações também revelaram a existência de um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”, onde seriam discutidas estratégias envolvendo desde monitoramento de adversários até pagamentos a influenciadores digitais e possíveis interlocuções com autoridades do sistema financeiro.

Além de Mourão, participavam do grupo o policial aposentado Marilson Roseno da Silva e Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Todos tiveram a prisão preventiva decretada pelo ministro André Mendonça no âmbito da operação.

Entre os episódios citados pela investigação está uma conversa em que Vorcaro comenta sobre o colunista do jornal O Globo, Lauro Jardim, após publicações sobre o Banco Master. Nas mensagens, o banqueiro sugere um ataque físico contra o jornalista.

“Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.

Na sequência, Mourão questiona: “Pode? Vou olhar isso”. E Vorcaro responde: sim.

Para os investigadores, as conversas indicam que o grupo não apenas monitorava adversários como também discutia possíveis ações de retaliação. Essas práticas foram enquadradas nas investigações como possíveis crimes de ameaça e organização criminosa.

A terceira fase da Operação Compliance Zero busca esclarecer a atuação da estrutura supostamente comandada por Vorcaro, que envolveria invasão de dispositivos informáticos, acesso indevido a dados sigilosos e planejamento de ações de intimidação.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.