Vorcaro negociou venda de testes da Covid-19 com o governo Bolsonaro; entenda

Atualizado em 2 de abril de 2026 às 9:29
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

O banqueiro Daniel Vorcaro, hoje conhecido nacionalmente pelo caso Banco Master, tentou vender testes de Covid-19 ao governo federal no início da pandemia, quando ainda era um empresário longe dos holofotes políticos e financeiros. Mensagens obtidas pela CPMI do INSS mostram que o então controlador do antigo Banco Máxima conversou, em março de 2020, com um integrante da Casa Civil da Presidência sobre a importação do produto, em um momento de forte corrida global por insumos médicos e de colapso no abastecimento internacional.

Na época, a Casa Civil era chefiada por Walter Braga Netto, general preso pela trama golpista. O diálogo, obtido pela Folha, aparece em uma captura de tela armazenada no celular de Vorcaro e revela o interesse do empresário em viabilizar a operação. Na conversa, o interlocutor ligado ao governo pergunta de que forma a administração federal poderia ajudá-lo.

Em resposta, Vorcaro relata dificuldades para concluir a compra dos testes. Segundo ele, houve um “empecilho” provocado por uma “intervenção” do governo da Coreia do Sul, o que teria travado a negociação naquele momento. Na sequência, afirma que estava trabalhando para “fechar com outro fornecedor”.

As mensagens, porém, não permitem concluir se a operação foi adiante, se houve de fato aquisição dos testes ou se a intenção era vender diretamente ao governo Jair Bolsonaro (PL). Também não há, no material citado, referência ao nome de empresas envolvidas nem ao modelo exato dos exames ofertados.

Walter Braga Nettto e Jair Bolsonaro. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Integrantes da Casa Civil e do Ministério da Saúde que atuaram no comitê de crise da pandemia disseram que diversos empresários procuraram o governo na época tentando intermediar importações de testes, mas poucas tratativas avançaram. Segundo esses relatos, vários países, entre eles a Coreia do Sul, restringiram exportações para proteger seus próprios estoques.

Naquele momento, Vorcaro atuava principalmente no setor imobiliário e havia assumido o controle do Banco Máxima em 2019, pouco antes do diálogo. A instituição só seria rebatizada como Banco Master em 2021.

Documentos de Imposto de Renda enviados à CPI mostram a velocidade de sua ascensão patrimonial: os bens declarados por ele somavam R$ 469,7 milhões em 2020 e chegaram a R$ 2,64 bilhões em 2024.

O episódio se conecta a um período de forte desorganização na política pública de testagem no Brasil. Nos primeiros meses da pandemia, o governo distribuiu principalmente testes rápidos recebidos por doações de empresas. O Ministério da Saúde chegou a pedir ofertas de companhias interessadas em fornecer exames para diagnóstico rápido, mas cancelou a compra.

Mais tarde, adquiriu testes RT-PCR de uma farmacêutica coreana por meio da Organização Pan-Americana da Saúde. Parte expressiva desses exames, no entanto, ficou estocada por meses por falta do kit completo de diagnóstico, e ao menos 1,2 milhão perdeu a validade ainda no armazém da pasta.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.