
A análise técnica do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro será determinante para esclarecer se houve troca de mensagens com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo avaliação do jurista Marcelo Crespo, coordenador de Direito da ESPM. Em entrevista ao UOL, o especialista afirmou que a nota divulgada pelo gabinete do ministro não seria suficiente para descartar a existência de comunicação caso a perícia identifique que o número registrado no aparelho corresponde ao do magistrado.
A discussão surgiu após a divulgação de prints e mensagens de visualização única supostamente trocadas entre Vorcaro e Moraes. O ministro negou ter recebido mensagens do ex-banqueiro, afirmando que os arquivos encontrados estariam associados a pastas de outros contatos.
Para Crespo, no entanto, a análise precisa se concentrar nos dados técnicos do aplicativo de mensagens e não na forma como os arquivos aparecem organizados no aparelho.
“O que a gente precisa, no final das contas, analisar é o seguinte: se no celular do Vorcaro foi possível identificar que o número é o do ministro Alexandre, esse argumento acaba não sendo juridicamente válido para afastar ter existido essa conversa, porque ou o número exibido não corresponde ao número do ministro, e aí, então, de fato, dá pra dizer que não teve essa conversa, ou o nome do contato salvo é diferente, mas o nome do contato não impede que o número telefônico seja o mesmo”, disse Marcelo Crespo ao UOL.

Segundo o especialista, cada mensagem enviada pelo WhatsApp fica vinculada a um número de telefone e a identificadores técnicos, como horário de envio e ID da mensagem. Mesmo quando o conteúdo da conversa não está mais disponível, esses registros podem indicar quem enviou e quem recebeu a mensagem.
“Existe a criptografia, que impede que terceiros interceptem e vejam o conteúdo da conversa. Mas isso não impede de você identificar quem é o remetente, quem é o destinatário e o status da mensagem”, afirmou Marcelo Crespo.
Ele também explicou que mensagens de visualização única podem apagar a mídia após a abertura, mas ainda deixam registros no sistema do aplicativo. Esses dados podem ser identificados em uma análise forense realizada diretamente no aparelho.
“Por isso que quando a gente faz uma análise forense por peritos dentro do aparelho, eles conseguem identificar que houve uma troca de mensagens entre duas contas, ainda que o conteúdo não esteja mais disponível”, disse Marcelo Crespo.
O jurista destacou ainda que prints de tela possuem valor probatório limitado, já que podem ser manipulados. Por isso, investigações digitais buscam examinar diretamente os dados armazenados no dispositivo.
“Essa organização dos arquivos acaba sendo feita em pastas dentro do celular ou no computador, e não é um elemento técnico confiável pra determinar com quem aconteceu a conversa”, explicou Marcelo Crespo.
Segundo ele, caso a perícia identifique que o número vinculado ao chat corresponde ao do ministro, isso indicaria que houve comunicação entre as linhas telefônicas. A eventual responsabilização jurídica, contudo, dependeria de uma apuração mais ampla e da análise do conteúdo das mensagens.