“Vou lutar com todas as forças para que ela responda pelo que fez”: empresário vítima de homofobia em Vitória (ES) fala ao DCM

Fabrício e Caio (foto: reprodução)

Um casal de empresários de Vitória, Espírito Santo, foi vítima de homofobia no dia 07. Após uma discussão iniciada por um problema de trânsito. Fabrício Costa e Caio Cruz são donos de um restaurante no centro da cidade. E estavam trabalhando quando uma idosa da vizinhança os procurou para reclamar de um veículo que estaria atrapalhando o trânsito.

Transtornada, ela proferiu xingamentos e ameaças contra o casal, que acionou a polícia. A idosa, de 64, foi conduzida para a delegacia de plantão e de lá chegou a ser encaminhada ao presídio, de onde foi liberada após passar pela audiência de custódia. Ela responderá por homofobia

“Todo ‘viado’ é odiado”, “eu vou fechar seu restaurante e colocar ele no inferno”, “minha vontade é de encher vocês de porrada”, gritava. O ato é caracterizado como homofobia

Ainda abalado física e emocionalmente pela agressão sofrida, Fabrício Costa, de 34 anos, concedeu uma entrevista ao DCM. Vítima de homofobia, ele da ocorrência recente, dos desafios de ser gay e empreendedor. Ele mora em uma capital bolsonarista e da importância de levar adiante as denúncias de violências sofridas pela população LGBT.

“Vou lutar com todas as minhas forças para que ela responda pelo que fez”, disse o empresário.

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Você se sentiu fisicamente ameaçado ou foram só ofensas verbais no caso da homofobia?

Sim, me senti e foi muito estranho, porque quando eu cheguei para conversar. Ela veio para me atacar de alguma forma, para me dar um tapa, me empurrar, mas o amigo dela a segurou e ficou só no insulto. Eu percebi que era uma pessoa que sabia quem eu era, sabia quem era o Caio.

Nós nunca tínhamos visto essa mulher na vida, mas ela sabia que nós somos donos do restaurante. Ela odeia o restaurante sem nunca ter ido nele. É vizinha daqui e odeia porque o restaurante acolhe pessoas de todos os tipos, de todas as tribos. De todas as tribos do amor, do respeito, LGBTs, pessoas negras, de todos os nichos.

Aqui na Oca (nome do restaurante), se a pessoa é bolsonarista e respeita, eu não vou nem saber que ela é bolsonarista, né. A nossa casa é um ambiente de muito carinho, de muito amor, criada para ser de todas as tribos. Ser um lugar do amor e do respeito, então é muito esquisito você ser odiado e quase ser agredido por ter esse tipo de comportamento.

Homofobia: Entrevista

Você disse que nunca tinha visto a agressora, mas que ela conhecia o seu restaurante. Você tem a sensação de ser “monitorado” pela vizinhança por ser um empreendedor gay bem-sucedido em uma região conservadora?

Tenho sim a sensação de estar sendo monitorado pela vizinhança. Inclusive, pessoas que moram perto de nós já entraram no Google Maps, nos avaliaram com uma estrela e deixaram comentários negativos. Também tivemos uma série de denúncias anônimas com o mesmo perfil de pessoas, com o mesmo tipo de denúncia. De texto, de tudo.

A gente respeita as regras da pandemia, respeita o volume do som, respeita os clientes, respeita os vizinhos. Mas tem uma ou duas pessoas que são as que sempre denunciam, com o mesmo padrão de denúncia. Uma ou duas pessoas que estão incomodadas. Essa mulher já conhece o meu restaurante, um lugar que está sendo luz em um local cheio de abandono.

Essa pessoa está do lado oposto à luz, é daquelas que estacionaram lá no regime militar, saudosistas, que querem ver um centro de Vitória morto, sem vida, sem cultura e alegria. Por mais que eu saiba que existam pessoas com esse pensamento. Eu nunca imaginei que eu fosse me deparar cara a cara com uma delas tão exaltada, tão surtada, tão pronta para atacar como essa mulher estava. Isso foi assustador.

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Na sua vida, você já teve algum episódio parecido de homofobia ou mais grave, no sentido da intensidade da agressão?

Se eu contar pra você todas as situações de homofobia que vivi na minha vida, daria uma matéria só sobre isso. Quando eu era adolescente sofri várias. Duas me marcaram demais. Uma delas foi relacionada ao motorista do ônibus escolar, na cidade de Barra de São Francisco, interior do estado. Todos os dias ele me ofendia quando eu entrava no ônibus, chamava de mocinha, veadinho.

Um dia eu levantei, botei o dedo na cara dele e disse para ele não me tratar daquela forma. A outra, em que não tive nem reação, foi no mesmo ônibus, quando um adolescente mobilizou todos os alunos para me xingar. Agora, depois de adulto, essa situação do fim de semana foi a pior de todas. Nunca passei por uma situação como essa, porque mesmo a situação do ônibus envolvia uma realidade de crianças, um motorista que foi escroto, mas não foi em frente à minha casa.

O que aconteceu sábado foi em frente à minha empresa e casa, ao meu trabalho, na frente de funcionários, clientes, dos meus vizinhos. Foi uma exposição, uma coisa horrorosa. Já ouvi muito, mas nunca presenciei da forma que presenciei agora. Enquanto homem de 34 anos, com maturidade, com uma carreira bem-sucedida, com um diploma de graduado na universidade federal, com mestrado, com toda uma vida de conquistas.

Como você ficou depois da agressão?

Com essa agressão de sábado, fiquei com minha ansiedade agravada, a imunidade caiu, estou tomando antibióticos e antialérgico. Porque de sábado pra cá meu corpo sentiu muito os danos do estresse físico e psicológico que essa pessoa me causou. Por mais que eu tenha tentado manter a frieza, ela me tirou do eixo.

Homofobia

 Você sente medo, no dia a dia, de sofrer agressões físicas?

Todos os dias ando na rua com medo de sofrer agressão física. Quando ando na rua de mãos dadas ou abraçado ao Caio, tenho medo de ser atacado pelas costas, de alguém nos afrontar, nos xingar. É uma sensação horrível. Tive a oportunidade de viajar duas vezes à Europa e foi incrível. Na época eu tinha um namorado e vivemos uma experiência romântica, andamos de mãos dadas, nos beijamos.

Trocamos carícias em público e ninguém nos olhou com olhar de julgamento, não senti um grama de preconceito. Infelizmente aqui em Vitória, quando ando com Caio de mãos dadas, em um trecho de uns 200 metros. Se dez pessoas passarem, por mim, sete vão olhar com olhar de julgamento. Meu medo é que uma dessas resolva atacar a gente com palavras ou agressões físicas. Ser LGBT no Brasil é muito complicado, você vive em estado de medo.

As poucas políticas voltadas para o combate à homofobia, ao racismo, ao machismo foram interrompidas, desencorajadas, atacadas e combatidas, isso é muito complicado. A gente vive em constante medo, esperando que volte a ter de novo um estado que eduque mais e fomente o amor. Combatendo essas atitudes de ódio.

Você vai dar andamento ao processo ou tem intenção de retirar a queixa, caso ela entre com um pedido de desculpas?

Acho que não existe a possibilidade dela se desculpar. Mesmo na delegacia e na frente dos policiais ela continuava nos insultando. Ela foi falar com o delegado e continuou nos insultando no depoimento dela. Nos chamou de gente imunda, de sujo, dizia que todo veado é odiado, chamava de cracudo. Vamos dar continuidade ao processo, nosso advogado vai cuidar de tudo. Vou lutar com todas as minhas forças para que ela responda pelo que fez. Espero de coração que ela perceba o que fez e esse processo seja didático, educativo e pedagógico para ela. Ela profanou o meu sagrado, entrou na minha empresa, no meu lar. No lugar que criei para que não ocorram esses tipos de atitude.

Homofobia é crime

Você tem esperança de dias melhores no futuro, em relação a ser gay? Acha que futuramente vocês poderão viver tranquilamente sem correr o risco de uma simples reclamação de trânsito ser gatilho para homofobia?

É claro que tenho esperança, por isso que luto. O mundo em que vivo hoje é melhor do que o mundo que vivi quando era criança. Eu não tinha a quem recorrer, não tinha com quem contar, o que podia fazer era chegar em casa e chorar. Minha mãe me abraçava e eu tinha vergonha de dizer porque estava chorando.

Hoje tenho uma rede gigante de clientes, amigos, familiares, pessoas incríveis que nos defenderam dos ataques que sofremos quando saiu a notícia da agressão. Estou vendo uma garotada nova, com uma nova mentalidade, uma cabeça boa, oxigenada, que está dando mesmo a cara a tapa.

Botando a boca no trombone. Você sofreu racismo, denuncia, você sofreu preconceito, vai pra delegacia. “Ah, mas a polícia é fascista” … Ok se você acha a polícia fascista e infelizmente muitos policiais são, mas eles são obrigados a cumprir a lei.

Por falar nisso, como vocês foram atendidos pela polícia?

Um dos policiais que levou a gente não estava muito feliz não, tá? Ele fez de tudo para a gente não dar sequência ao caso, ele tentou convencer a gente a não dar prosseguimento, a deixar como estava. Nosso advogado falou com eles para conduzir. O policial foi resistente, mas foi para a delegacia, porque existe uma legislação e ele tem que cumprir. Então, se eu não tivesse advogado, se não tivesse uma defesa.

Se não tivesse uma postura firme e forte de falar “nós vamos levar sim”, teria ficado tudo por baixo e ela teria saído impune. Enquanto houver gente dando a cara a tapa, enfrentando, sendo forte, sendo firme e lutando, enquanto tiver gente assim. Eu vou ter esperança. No dia em que as pessoas desistirem de lutar, de falar, de ter voz, se posicionar, aí nesse dia eu vou perder as esperanças, mas enquanto tiver gente potente lutando, eu terei fé.