
Wagner Moura, indicado ao Oscar de melhor ator por “O Agente Secreto”, afirmou que vive um momento de tensão política nos Estados Unidos e comparou o cenário ao período recente do Brasil. Morando em Los Angeles com a esposa, a fotógrafa Sandra Delgado, e os três filhos, ele disse que a fase é delicada.
“Atravessamos um momento muito feio, até eu tenho medo de encontrar o ICE. Digo isso porque reajo de forma explosiva quando vejo injustiça ou autoritarismo. E agora não sei se conseguiria, porque aqueles caras podem matar, como todos nós já vimos”, afirmou em entrevista ao El País.
Conhecido internacionalmente por “Narcos”, Moura apontou que o novo filme, dirigido por Kleber Mendonça Filho, retrata a ditadura brasileira dos anos 1970 e a importância da resistência cotidiana. “Criamos arte política”, afirmou, ao lembrar que ele e o diretor se aproximaram durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, período em que seu filme “Marighella” sofreu censura.
Sobre o personagem, que não é um líder revolucionário, mas um homem comum, explicou: “Eles são as vítimas mais numerosas das ditaduras”. Para ele, regimes autoritários perseguem pessoas “pela cor da pele, pelo fenótipo, pelo sotaque, pela religiosidade e pelas ideias políticas”. E completou: “Não precisa ser um Che Guevara, só resistir à maldade”.
O ator afirmou que vê paralelos claros entre Brasil e Estados Unidos. “É óbvio como as histórias recentes se parecem”, disse. Segundo ele, a experiência brasileira com a ditadura militar criou uma memória coletiva que ajudou o país a reagir a ameaças institucionais. Já os americanos, avalia, “nunca sofreram uma ditadura” e muitos acreditam que a democracia é garantida.

Ao comentar o clima de tensão política nos EUA, afirmou que conhece latinos que estão “escondidos em casa, sem levar os filhos à escola”. Também criticou a demonização de artistas e jornalistas pela extrema-direita. “Nós progressistas perdemos a batalha das redes sociais”, declarou, ao apontar a aliança entre big techs e grupos radicais.
Ele ainda avaliou que a era digital alterou a percepção da realidade. “A verdade como a conhecemos acabou. Já não importam os fatos. O que você vê é diferente do que vê um MAGA ou um bolsonarista. E pode ser que essa pessoa não seja má, mas vive num mundo paralelo, mentiroso, desconectado do real”, prosseguiu.
Apesar do cenário, Moura diz acreditar na solidariedade e na memória histórica como caminhos. “Sim, há esperança, e se chama solidariedade”, afirmou. Sobre a campanha ao Oscar, resumiu: “É bonito, mas a realidade me alcança quando volto para casa e meus filhos estão me esperando”.
Ele encerrou a entrevista com humor: “Minha vida é uma luta constante contra a melancolia e a calvície.”