Wall Street Journal chama PCC de “potência global da cocaína” e “risco internacional”

Atualizado em 21 de abril de 2026 às 9:22
Wall Street Journal fala do PCC

A movimentação do governo dos Estados Unidos para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas vem acompanhada de uma campanha na mídia americana.

O tema já foi levado diretamente ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em reunião com autoridades norte-americanas, que indicaram que a medida deve avançar mesmo diante da oposição do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que vê na proposta uma abertura para interferência externa.

A justificativa oficial do Departamento de Estado é o combate ao financiamento de organizações criminosas. Na prática, a classificação como grupo terrorista amplia instrumentos de sanção, permite bloqueio de ativos, restrições financeiras globais e abre margem para ações mais agressivas fora do território dos Estados Unidos.

Esse movimento não surge isolado: ele vem sendo sustentado por reportagens de grandes veículos como The New York Times e The Wall Street Journal.

Na semana passada, o New York Times apontou que a discussão sobre o PCC ganhou força dentro do governo Donald Trump sob influência direta de Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, que atuam politicamente para inserir o tema no centro da agenda bilateral.

Na segunda (20), o Wall Street Journal chamou atenção para a estrutura empresarial global do PCC. Segundo a publicação, a facção deixou de ser uma organização restrita ao sistema prisional paulista para operar como uma rede internacional comparável a uma corporação, com atuação em diversos continentes.

Um dos pilares dessa expansão, segundo o jornal, é o controle logístico do tráfico. O Porto de Santos, o maior da América Latina, é o principal ponto de saída de cocaína para a Europa. A droga é inserida em contêineres de cargas legítimas, como soja, café ou suco de laranja, muitas vezes sem o conhecimento das empresas exportadoras. Técnicas como o “rip-on/rip-off” e o uso de compartimentos ocultos em sistemas de refrigeração ou até em couro tratado quimicamente dificultam a detecção.

O PCC também diversificou suas rotas, utilizando portos no Nordeste e em Paranaguá, além de explorar caminhos que passam pela América Central e México antes de chegar aos Estados Unidos. Ainda assim, a própria imprensa americana reconhece que a maior parte da cocaína produzida na América do Sul — especialmente na Colômbia, Bolívia e Peru — tem como destino final a Europa, Ásia e Austrália, e não o território norte-americano.

A cobertura do New York Times detalha que o tráfico opera em escala global e com enorme capacidade financeira, enfrentando autoridades que, mesmo com tecnologia avançada e apoio militar, têm dificuldade para conter o fluxo. O jornal relata que agentes alfandegários descrevem a tarefa como “procurar uma agulha no palheiro”, diante do volume de cargas que passam diariamente por portos comerciais.

O grupo mantém uma parceria com a máfia italiana ’Ndrangheta, em um modelo no qual a facção brasileira atua como fornecedora em larga escala e os europeus cuidam da distribuição. A diferença de preços sustenta o negócio: um quilo de cocaína comprado por até US$ 3 mil na América do Sul pode alcançar cerca de € 30 mil no mercado europeu.

Internamente, o PCC opera por meio de departamentos chamados “sintonias”, responsáveis por áreas como expansão territorial, coordenação global e gestão financeira. A facção também passou a incorporar especialistas, como mergulhadores para fixar drogas em cascos de navios e hackers para manipular sistemas portuários, o que reforça o nível de profissionalização descrito pela imprensa.

Paralelamente, o governo Trump intensificou ações militares no combate ao tráfico. Segundo o New York Times, embarcações suspeitas foram atacadas na costa da América do Sul, com pelo menos 177 mortos desde o ano passado. O presidente norte-americano também tem pressionado países da região a interromper o fluxo de drogas, sob risco de intervenção direta.

Esse padrão já foi observado em outros países. No Equador, por exemplo, operações conjuntas com os Estados Unidos foram realizadas após grupos locais serem classificados como terroristas. Numa delas, o governo americano bombardeou, juntamente com o Exército do Equador, o que chamou de complexo do narcotráfico, divulgando um vídeo triunfalista nas redes sociais. Era uma fazenda de gado para produção de laticínios.  

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.