
O Washington Post comunicou nesta quarta-feira (4) uma ampla rodada de demissões como parte de um “reposicionamento estratégico” que vai alterar profundamente a estrutura do jornal.
A medida deve atingir cerca de 300 profissionais, o equivalente a aproximadamente um terço da redação, hoje estimada em cerca de 800 jornalistas. Funcionários descrevem o processo como um verdadeiro “banho de sangue” interno.
O plano inclui o encerramento da editoria de esportes, cortes severos na cobertura internacional e uma reformulação profunda do noticiário local. O podcast Post Reports, um dos principais produtos da casa, também será suspenso. O anúncio foi feito pelo editor-executivo Matt Murray durante uma chamada com a equipe, horas depois de uma mobilização interna que pedia ao proprietário do jornal, Jeff Bezos, que recuasse da decisão.
Ex-editor-executivo do Post, Marty Baron classificou o dia como um dos mais sombrios da história do veículo. Segundo ele, as demissões reduzem drasticamente a ambição editorial do jornal e privam o público de reportagens factuais e de base local e internacional em um momento em que esse tipo de jornalismo seria ainda mais necessário.
Em nota oficial, o Washington Post afirmou que as mudanças são “difíceis, mas decisivas” e teriam como objetivo garantir a sustentabilidade do jornal no longo prazo. Murray declarou que o veículo precisa deixar de tentar “ser tudo para todos” e concentrar esforços onde pode ser indispensável para o público.
Funcionários foram informados de que receberiam comunicações individuais ainda nesta quarta-feira confirmando se estavam entre os dispensados, com manutenção de benefícios até meados de abril.
Desde que foi comprado por Bezos há mais de uma década, o Post viveu um período inicial de crescimento, mas passou a registrar prejuízos nos últimos anos. Em 2023, mais de 200 funcionários deixaram o jornal por meio de programas de desligamento voluntário, seguidos por novas saídas em 2024.
Parte dessas mudanças ocorreu paralelamente a uma guinada conservadora da seção de opinião, adotada com o objetivo declarado de atrair leitores alinhados a Donald Trump.
Essa reorientação editorial, somada à decisão de Bezos de vetar um endosso presidencial a Kamala Harris às vésperas da eleição de 2024, provocou a saída de centenas de milhares de assinantes pagos, segundo ex-jornalistas da casa. Glenn Kessler, ex-responsável pela checagem de fatos do Post, afirmou que Bezos estaria mais preocupado em “sobreviver politicamente a Trump” do que em preservar a missão histórica do jornal.
A insatisfação interna também se manifestou por meio da redação, que declarou que as demissões não são inevitáveis e que o esvaziamento do jornalismo profissional compromete a credibilidade, o alcance e o futuro do veículo. O grupo planeja um protesto em frente à sede do Post e afirmou que, se Bezos não estiver disposto a investir na missão do jornal, o veículo “merece outro guardião”.
Diversos jornalistas dispensados relataram publicamente perplexidade com os critérios adotados. Correspondentes do Oriente Médio, repórteres especializados e editores confirmaram as demissões e questionaram a lógica de cortes que atingem áreas consideradas estratégicas. Entidades como o National Press Club alertaram que o esvaziamento das redações corrói o direito do público à informação e enfraquece a fiscalização de instituições de poder, com impactos diretos sobre a democracia.