Xeique de Abu Dhabi fechou negócio bilionário com família Trump antes da posse

Atualizado em 1 de fevereiro de 2026 às 10:10
O presidente dos EUA Donald Trump e o Xeique Tahnoon bin Zayed Al Nahyan

Quatro dias antes da posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em 2025, representantes de um membro da família real de Abu Dhabi firmaram um acordo para adquirir 49% de participação em um empreendimento de criptomoedas ligado à família Trump por US$ 500 milhões. A informação consta em um novo relatório baseado em documentos empresariais e relatos de pessoas a par das negociações.

Segundo o The Wall Street Journal, o contrato com a empresa World Liberty Financial previa o pagamento de metade do valor de forma antecipada. Desse montante inicial, US$ 187 milhões teriam sido direcionados a entidades vinculadas à família Trump. O acordo foi assinado por Eric Trump, filho do presidente. Um dos pontos que mais chamam atenção é o fato de um alto funcionário de um governo estrangeiro ter assumido uma fatia expressiva em um negócio de um presidente prestes a assumir o cargo.

Quem é o “xeique espião”

O integrante da realeza por trás da operação é o xeique Tahnoon bin Zayed Al Nahyan. Ele é irmão do presidente dos Emirados Árabes Unidos, atua como conselheiro de segurança nacional do país e também lidera o maior fundo soberano dos Emirados.

Tahnoon, por vezes apelidado de “xeique espião”, vinha pressionando os Estados Unidos por acesso a chips avançados de inteligência artificial, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. Ele supervisiona um império financeiro estimado em mais de US$ 1,3 trilhão, formado por recursos próprios e fundos estatais, e é considerado um dos investidores individuais mais poderosos do planeta.

Como o acordo se conectou à política de chips de IA

O retorno de Trump à Casa Branca abriu caminho para que Tahnoon buscasse obter hardware de inteligência artificial que não conseguiu durante o governo de Joe Biden.

Após a eleição, o xeque se reuniu diversas vezes com Trump e com o enviado americano Steve Witkoff, inclusive em uma visita à Casa Branca. Nessa ocasião, ele manifestou interesse em cooperar com Washington nas áreas de inteligência artificial e outros setores estratégicos.

Dois meses depois de um encontro realizado em março, o governo americano concordou em conceder ao país do Golfo acesso a cerca de 500 mil chips avançados de IA por ano — volume suficiente para estruturar uma das maiores redes de data centers de IA do mundo. Pelo acordo, cerca de um quinto dos chips seria destinado à G42, empresa de tecnologia ligada a Tahnoon.

O xeique Tahnoon bin Zayed Al Nahyan

Para onde foi o dinheiro

Dos primeiros US$ 250 milhões pagos pela empresa Aryam Investment 1, apoiada por Tahnoon, US$ 187 milhões foram para companhias associadas à família Trump: DT Marks DEFI LLC e DT Marks SC LLC, segundo os documentos. Outros US$ 31 milhões teriam sido enviados a uma empresa ligada aos cofundadores Zak Folkman e Chase Herro.

O negócio transformaria a Aryam na maior acionista da World Liberty e na única investidora conhecida de fora do grupo fundador. Dois executivos da Aryam, que ocupavam cargos seniores na G42, passaram a integrar o conselho de cinco membros da World Liberty. Na época, o conselho incluía Eric Trump e Zach Witkoff, filho de Steve Witkoff.

O contrato de US$ 500 milhões foi assinado em 16 de janeiro de 2025 entre representantes da Aryam e a World Liberty, empresa ligada a Trump e Witkoff.

Desdobramentos posteriores

No primeiro dia completo de Trump de volta ao cargo, cinco dias após a conclusão do acordo com a Aryam, o presidente anunciou na Casa Branca um projeto de US$ 500 bilhões voltado a data centers de inteligência artificial, com participação da OpenAI e do SoftBank. A MGX, empresa associada a Tahnoon, foi citada como uma das investidoras adicionais.

Em 8 de maio, o Departamento do Tesouro informou que iniciaria um programa piloto de análise acelerada para investimentos estrangeiros — um modelo de avaliação mais rápido, que os Emirados vinham defendendo.

Durante visita de Trump a Abu Dhabi naquele mês, o presidente declarou que os dois países haviam fechado um “contrato muito grande” para a compra, pelos Emirados, de chips de IA fabricados nos EUA. Mais tarde, o governo autorizou a venda de 35 mil chips à G42, número inferior ao desejado pelo país árabe.

O que dizem os envolvidos

Uma pessoa próxima ao investimento de Tahnoon afirmou ao Journal que o xeque e sua equipe analisaram os planos da World Liberty por vários meses antes de concluir o aporte, junto com “alguns co-investidores”. Segundo essa fonte, os recursos não vieram da G42. Ela também declarou que, em nenhum momento, o investimento foi discutido com o presidente Trump durante o processo de avaliação.

A mesma fonte acrescentou que Tahnoon é um investidor relevante no setor de criptomoedas.

A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, disse que “o presidente Trump age apenas no melhor interesse do público americano”. Ela afirmou que os bens de Trump estão em um trust administrado por seus filhos e que não há conflito de interesses. Kelly também declarou que Witkoff trabalha para “avançar os objetivos de paz do presidente Trump ao redor do mundo”.

Um porta-voz da Trump Organization afirmou que a empresa leva suas obrigações éticas “extremamente a sério”, busca evitar conflitos de interesse e cumpre todas as leis aplicáveis.