Yokohama às vésperas da grande final pelo colunista inglês Scott Moore

Nada preparou Scott para o espetáculo de fé e paixão oferecido pela torcida corintiana

Treino do Corinthians

DE YOKOHAMA

Ladies & Gentlemen

Pensei que ninguém fosse tão louco quanto nós, ingleses, por futebol. Vivi nesta crença até chegar a Yokohama, a serviço do Diário e por gentileza do Boss.

Nada do que vi, em minha vida, se compara ao espetáculo ao mesmo tempo grandioso e patético que a torcida do Corinthians – o Almighty Big Team do Boss – oferece aqui no Japão.

Pelo lado patético, raras vezes vi uma concentração tão grande de torcedores feios  e barulhentos num só local. Não que a torcida de meu City seja um exemplo de beleza, mas perto da do Big Team somos todos Beckhams e sua Spicy Girl.

Eles não falam inglês, e suspeito que nem mesmo português, em muitos casos. Um amigo jornalista de Londres, ex-correspondente da BBC na América do Sul, fluente em português, me contou algumas histórias para mim inacreditáveis. Um torcedor que ele entrevistou simplesmente largou o emprego para ver seu time. Outro tinha apenas o dinheiro das passagens, e então se transformou no primeiro homeless de Yokohama. Dorme num shopping.

Todas as minhas longas conversas com o Boss no nosso pub em Parsons Green não me prepararam para o que estou vendo em Yokohama. Confesso – sorry, Boss — que não me sinto confortável em andar pelas ruas da cidade com muito dinheiro no bolso.

Pelo lado grandioso, os 20 mil torcedores mostram um amor, uma paixão, uma obsessão pelo Corinthians que duvido que alguém possa encontrar em qualquer outra equipe no mundo.

O Corinthians dá a essa massa sofrida talvez uma das raras alegrias que ela tem em sua vida, e isso é extraordinariamente comovente. Meu amigo Steve, colunista político do Standard, talvez dissesse, em seu intelectualismo empedernido, que se a massa não transferisse tanta energia para um time estaria nas ruas protestando por melhores condições de vida. Mas a mim o amor dos corintianos pelo seu time comove, fascina, inspira.

Ladies & Gentlemen.

Acabo de colocar mais 200 libras na Ladbrooks no Corinthians. Os bookmakers londrinos estão dando todo o favoritismo ao Chelsea. O Corinthians paga 7 por 2, e isso significa que vou levar 1400 libras com a vitória do Big Team.

Confio no time. Se não bastasse, como o Boss gosta de dizer, Supernatural Jones, ou para os brasileiros Sobrenatural de Almeida, está em Yokohama. Já o vi diversas vezes nas ruas, no meio da torcida corintiana, gritando com a multidão músicas incompreensíveis e desafinadas de louvor pelo Corinthians.

Sincerely.

Scott

TRADUÇÃO: ERIKA K NAKAMURA

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Aos 53 anos, o jornalista inglês Scott Moore passou toda a sua vida adulta amargurado com o jejum do Manchester City, seu amado time, na Premier League. Para piorar o ressentimento, ele ainda precisou assistir ao rival United conquistando 12 títulos neste período de seca. Revigorado com a vitória dos Blues nesta temporada, depois de 44 anos na fila, Scott voltou a acreditar no futebol e agora traz sua paixão às páginas do Diário.