A youtuber Jout Jout, o ‘pessoal que tem útero’ e o manual do Facebook para não ser linchada. Por Nathalí Macedo

Jout Jout

O tribunal do facebook costuma ter nomes intocáveis – incondenáveis, em melhor colocação: aquelas pessoas que são influentes demais para que você se atreva a discordar delas.

Tipo a Djamila Ribeiro. Quem discorda da Djamila é ser expulso tacitamente de qualquer grupo social que concorde com Djamila. Por que é preciso concordar com ela?

A youtuber e jornalista Júlia Tolezano – Jout Jout – também vinha, há um tempo, sendo esse nome intocável na internet, especialmente para mulheres identificadas como feministas moderadas.

Eis que Jout Jout – que, como disse em seu livro Tá todo mundo mal (2016) (nota: um excelente livro) – costuma ter um cuidado ético com o tipo de publicidade que vai atrelar ao seu nome – decide fazer o comercial de um coletor menstrual – a última moda nos arredores do tribunal do facebook – com a chamada: “Oi, pessoal que tem útero!”

Foi o que bastou para que Jout Jout caísse no famigerado tribunal do facebook – e, convenhamos, demorou até demais.

Tento explicar o que parece ininteligível: o estardalhaço foi porque pessoas que têm útero chamam-se mulheres e o comercial não citou a palavra “mulheres”. Um absurdo. Parem o mundo. Iniciem uma revolução feminista.

Aproveitem e me poupem.

Não só porque há, vejamos, milhares de coisas mais importantes para serem discutidas no que concerne ao gênero no momento. Não porque mulheres têm útero e isso é óbvio demais para que se exija menção. Não porque exigir coisas – menções, em especial – em comerciais é chato e inútil.

Mas porque a Jout Jout, o experiente nome inatacável da internet, foi vítima de um patético mal entendido – como a maioria dos estardalhaços internetescos: mulheres não são apenas pessoas que têm útero. Transexuais não têm útero e são mulheres.

Pegadinha do malandro.

Acontece que Jout Jout sabia disso quando gravou o comercial. A marca que contratou-a para o trabalho sabe disso. Os chiques problematizadores da internet, não.

Estamos mal no quesito problematizadores da internet (não que isso importe).

Aparentemente, a solução mais adequada aos problematizadores chiques é que o Danilo Gentili fale mais alguma merda na internet para mantê-los ocupados enquanto procrastinam o dever de pensarem sobre coisas realmente importantes. Compartilhar memes também deve servir.

Por ora, Jout Jout decerto será absolvida (risos. Porque é impossível escrever isto sem rir).

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