“Zema é mesquinho e bufão”, diz Reinaldo Azevedo após ataques ao STF

Atualizado em 22 de abril de 2026 às 7:51
Gilmar Mendes e Romeu Zema. Foto: reprodução

O jornalista Reinaldo Azevedo comentou a notícia-crime do ministro Gilmar Mendes a Alexandre de Moraes contra Romeu Zema por um vídeo produzido com IA e fantoches, no qual o ex-governador acusa Gilmar de vender decisões judiciais em troca de vantagens pessoais (como estadia em resort e jogatina). O colunista do Metrópoles defende que não se trata de crítica política, mas de calúnia e difamação, e critica setores da imprensa que normalizam ataques criminosos ao STF:

O decano do STF, Gilmar Mendes, enviou a Alexandre de Moraes, relator do Inquérito das Fake News, uma notícia-crime contra Romeu Zema, ex-governador de Minas e sedizente pré-candidato à Presidência da República pelo Novo. Não restava alternativa. O delito cometido pelo buliçoso Zema, que costuma preencher com ofensas ao tribunal e a seus integrantes o deserto de ideias em que transita, é de tal sorte escancarado que nada fazer implicaria condescender com a delinquência em favor do oportunismo e do vale-tudo.

Como se noticiou neste Metrópoles e em toda parte, Zema levou ao ar no mês passado um vídeo em que fantoches representando Gilmar e Dias Toffoli conversam ao telefone. Apelou à IA para criar vozes muito semelhantes às dos respectivos ministros, que urdem, na sua fantasia, uma trama criminosa. […]

Gilmar escreve: “[Zema] vilipendia não apenas a honra e a imagem deste Supremo Tribunal Federal, como também da minha própria pessoa”. E acrescenta: “Valendo-se de sofisticada edição profissional e de avançados mecanismos de ‘deep fake’, o vídeo emula vozes de ministros da Suprema Corte para travar diálogo que, além de inexistente, tem como claro intuito vulnerar a higidez desta instituição da República, com objetivo de realizar promoção pessoal”.

Não há a menor dúvida a respeito. Mais: o conjunto é injurioso aos dois ministros e, no que respeita a Gilmar, a calúnia é explícita: Zema vale-se de um ardil para acusar o ministro de vender uma decisão em troca de facilidades.

[…] Vivemos dias de “se Deus não existe, tudo é permitido”. Ivan Karamazov não diz a frase assim, com essa crueza, mas a corruptela que se consolidou a partir de seu pessimismo destrutivo é autorizada pelas consequências. Pergunta-se: a calúnia, a injúria, a difamação e a manipulação do processo legal devem integrar, como um novo norte conceitual, o cotidiano de todas as relações sociais, políticas e econômicas do Brasil, inclusive para os assuntos de imprensa, ou se vai criar uma escolástica segundo a qual apenas os ministros do tribunal devem ser suas vítimas passivas?

Sentindo-se bem-sucedido na sua investida e, em muitos aspectos, acolhido em sua empreitada criminosa, Zema já reagiu à notícia-crime apresentada por Gilmar: “Esse processo é político. Se querem me intimidar, estão conseguindo o contrário. Me sinto mais indignado, mais inconformado e com ainda mais energia para criticá-los [aos ministros].” […]

Tivesse o ex-mandatário mineiro um pouquinho mais de, sei lá como dizer, formação intelectual ou mesmo complexidade psicológica, estaria para a política como a personagem Edmund, na peça “Rei Lear”, de Shakespeare, estava para a vida.

Filho ilegítimo do Conde de Gloucester, tomado pelo sentimento da exclusão e ressentimento — assim como o ex-ocupante do Palácio da Liberdade se apresenta um “outsider” da política —, julga que todos os procedimentos lhe são lícitos porque toda a baixeza de que era capaz serviria apenas a uma espécie de lei da natureza, como se lê no monólogo que abre a Cena II do Primeiro Ato. […]

Zema é um bufão e não tem a dimensão destruidora de um Edmund, a não ser contra a gramática. […]

O mesquinho Zema, por si, é só um pequeno passo regressivo. A personagem que realmente conta nesta nossa tragédia é outra: refiro-me ao mau espírito que toma conta da vida pública. Nestes dias, a vileza contra uma instituição é vista como trilha da virtude. E, nesse caso, trata-se de um grande salto civilizatório para trás.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.