A blackface da youtuber e a dificuldade do brasileiro em pedir desculpas por ser racista. Por Sacramento

Renata Meins é loira
Renata Meins é loira

 

 

A reação de uma youtuber depois de ser criticada por fazer uma “blackface” no Instagram leva ao questionamento: por que poucas pessoas admitem o erro quando cometem insultos ou gafes racistas?

Com mais de 300 mil assinantes no Youtube e 95 mil seguidores no Instagram, Renata Meins postou uma foto caracterizada de negra após gravar uma paródia do clipe da música “Hello”, de Adele.

A foto, com a legenda “Neguinha do Paraguai”, provocou uma série de comentários acusando-a de racismo. Para se defender, a youtuber argumentou que tem pai negro e “cabelo afro”.

Mais tarde, ela gravou um depoimento que só fez piorar a resposta, apesar do choro, do pedido de desculpas e das revelações de que passou por dificuldades financeiras na infância e o pai alcóolatra morreu de cirrose.

“Eu nunca tinha visto ouvido falar de blackface, agora eu sei né, que pela comunidade negra é proibido pintar-se, se caracterizar de negro. Mas isso não é uma lei, eu não sou obrigada a saber porque não é uma lei, entendeu. Eu fiz na total inocência de como eu já me caracterizei de tantos outros personagens, negro seria só mais um personagem então por não ser lei, eu não sou obrigada a saber que pela lei negra isso é interpretado como racismo”.

Com uma pesquisa rápida no Google, ela descobriria que a blackface não é uma “lei negra”, e sim uma forma de ridicularizar os negros em circos ou espetáculos cômicos surgida nos Estados Unidos durante o século XIX.

Pode até ser considerada “uma forma de arte”, como ela falou no vídeo, porém tem profundas raízes na segregação racial.

Renata poderia se inspirar na resposta de Michel Teló após ele posar com blackface em um protesto contra o racismo. O cantor também se desculpou-se e admitiu que não sabia da existência do recurso, mas sem se alongar no assunto e sugerir que preconceito estava nos olhos de quem o criticou.

Na realidade, a norma é se fazer de vítima e apelar para a resposta clichê de que tudo não passou de um mal entendido, como Fausto Silva fez depois de falar na televisão que a dançarina da cantora Anitta tinha “cabelo de vassoura de bruxa”.

“Brinquei falando que o cabelo era estilo ‘vassoura de bruxa’ porque era um cabelão vermelho. Algumas pessoas que querem transformar a internet em penico começam a achar que aquilo foi racismo. (…) Esse país já está perdendo a graça, a alegria por muitos problemas sérios. Então não vem fazer palhaçada por coisa que não tem”, protestou.

Os ginastas Arthur Nory Mariano, Fellipe Arakawa e Henrique Medina Flores usaram o mesmo expediente quando o vídeo em que aparecem ofendendo o ginasta negro Ângelo Assumpção veio a público.

“Fala galera, gostaríamos publicamente de pedir sinceras desculpas ao nosso amigo Ângelo Assumpção. A brincadeira teve uma proporção muito grande, negativa. Era um momento de brincadeira, e vocês entenderam errado”.

E ainda tem gente acusando os negros de se fazerem de vítimas …

Só Faustão e os rapazes da ginástica podem dizer por que optaram por essas respostas sem-vergonha, mas a fórmula para evitá-las é relativamente simples e foi tema da palestra da consultora em diversidade Vernā Myers no TED.

Para Myers, o caminho para combater o racismo e outras formas de discriminação passa pelo fim da tendência a negar a existência do preconceito.

“Temos que nos livrar da negação. Parem de tentar ser boas pessoas. Precisamos de pessoas verdadeiras. (…) Vão procurar o seu preconceito. Por favor, abandonem a negação e procurem dados de divergência que provarão que, na verdade, seus antigos estereótipos estão errados”.

O conselho é valioso, pois umas das principais reações de quem se mete em encrencas como a de Renata Meins é recusar com veemência o rótulo de preconceituoso. Só não é fácil colocar a ideia na cabeça desse povo.