“A concepção de Deus é indigna de um homem livre”. Por Camila Nogueira

Os anjos de Rafael
Os anjos de Rafael

Em 1927, Bertrand Russell escreveu um ensaio chamado “Por que não sou cristão”, do qual extraímos as passagens abaixo para a nossa série Conversas com Escritores Mortos.

Mr. Russell, o que define um cristão?

Existem dois itens que são essenciais para que uma pessoa se autointitule cristã. O primeiro é de natureza dogmática – isto é, você deve acreditar em Deus e na imortalidade.

Ambas as coisas são necessárias?

Se você não acredita em Deus nem na imortalidade, não acho que possa ser considerado um cristão. O segundo item como o próprio nome sugere, é ainda mais importante: um cristão deve ter algum tipo de crença sobre Jesus Cristo.

Como assim, “algum tipo de crença”?

Um cristão deve acreditar que, senão divino, Cristo era ao menos o mais digno e mais sábio de todos os homens.

O senhor, Mr. Russell, é cristão?

Não. Eu não acredito em Deus nem na imortalidade, nem acho que Cristo tenha sido o mais sábio dos homens, embora admita que ocupa uma posição privilegiada no ranking de moralidade e bondade.

Voltemos ao início, Mr. Russell. Acreditar na imortalidade, em Deus e em Cristo é o bastante para se intitular um cristão?

Nos dias de hoje, sim. Mas antigamente eu não poderia ter tomado uma definição “elástica” desse jeito do cristianismo. A religião era muito mais sanguinária. Por exemplo, incluía a crença no inferno. Acreditar nas profundezas do inferno era um item essencial para proclamar-se cristão até pouco tempo atrás.

O senhor afirmou que não acreidta em Deus. Se importaria em nos explicar melhor a razão pela qual fez tal declaração?

A existência de Deus é uma questão muito séria, e para lidar com ela de modo adequado eu teria que tomar seu tempo até que o rei Arthur se reerguesse. Vou ser muito breve. Um dos dogmas da Igreja Católica é que a existência de Deus pode ser provada por uma razão pura. Para criarem tal dogma, naturalmente, preparam argumentos capazes de sustentá-lo. Há vários deles, mas é melhor nos focarmos em alguns.

Por qual começamos?

Pelo “Argumento da Primeira Causa”, pois é o mais simples de se compreender. Ele diz que tudo que vemos nesse mundo tem uma causa, e que se você retornar ao início de tudo, deve haver uma Primeira Causa. E, a esta causa, damos o nome de Deus.

Esse argumento continua forte nos dias de hoje?

Não, graças aos avanços da ciência.

O senhor sempre posicionou-se contrário a ele?

Quando eu era jovem e estava debatendo tais questões com seriedade em minha mente, por um bom tempo acreditei no “Argumento da Primeira Causa”.

O que o fez mudar de ideia?

Aos dezoito anos, li a autobiografia de John Stuart Mill. Nesse livro, há a seguinte frase: – “Meu pai ensinou-me que a questão quem me criou? não pode ser respondida, uma vez que sugere imediatamente a questão quem criou Deus?”

Vamos partir para o próximo argumento, então.

O próximo argumento é o “Argumento das Leis Naturais”. Ele foi o mais usado durante o século XVIII, especialmente sob influência de Sir Isaac Newton e sua cosmologia. As pessoas viam os planetas rodeando o sol e isso fez com que imaginassem que a vontade de Deus fazia com que os planetas se movessem daquele modo em particular.

Esse argumento também perdeu a validade para o senhor?

Atualmente podemos explicar a lei da gravitação daquele modo complicado de Einstein. Eu não pretendo explicá-la porque isso tomaria algum tempo; o importante é que não temos mais a lei do sistema newtoniano, no qual os planetas se moviam de uma maneira que ninguém era capaz de entender.

Hmmm…

Falemos agora do “Argumento do Desígnio”. Todo mundo o conhece – tudo o que há nesse mundo foi feito para que pudéssemos nos adequar a ele e, se o mundo fosse ligeiramente diferente, estaríamos perdidos. Às vezes, ele é usado de maneira bem curiosa: alguns dizem que os coelhinhos tem rabos brancos porque é mais fácil de atirar neles.

Sinceramente, não sei o que os coelhinhos pensariam dele.

O fato é que, desde Charles Darwin, passamos a entender muito melhor a razão segundo a qual as criaturas se adaptaram ao ambiente. Não é que o ambiente foi criado de modo a adequar-se a elas – elas evoluíram, e essa é a base de toda a adaptação.

Essa é a única razão pela qual o senhor não acredita no “Argumento do Desígnio”?

Não. Quando pensamos em tal argumento, é realmente surpreendente ver que as pessoas muitas vezes acreditam nele sem imaginar que esse mundo, com todos os seus defeitos, é o melhor que um ser onipotente e onisciente foi capaz de produzir em milhões de anos. Eu não sou capaz de acreditar nele. Deus não pôde criar nada melhor do que a Ku Klux Klan ou os fascistas? Além disso, se aceitarmos as leis básicas da ciência, sabemos que a vida no nosso planeta terminará; um estágio do sistema solar aniquilará a Terra.

Estou ficando muito magoada.

Já me disseram isso – “Oh, o que você diz é depressivo, e se as pessoas acreditassem nisso não teriam mais motivos para viver”. Tolice! Ninguém realmente se preocupa com o que está para acontecer em milhões de anos. E, se acham que se preocupam, estão enganando a si mesmos. Estão preocupados com algo muito mais mundano, como uma indigestão. Saiba que ninguém morre de tristeza, nem mesmo se pensar no que acontecerá ao mundo em milhões e milhões de anos.

Mesmo assim. Ninguém saberá o que fizemos. Os eventos pelos quais a humanidade passou… O Renascimento, a Revolução Russa… Tudo será esquecido.

Admito que existe um aspecto melancólico nisso. Ao menos na teoria, pois quando observo o que os humanos fazem com suas vidas, é quase um consolo. Mas não é o bastante para entrar em desespero. Volte sua atenção para outras coisas.

Como a minha digestão… Muito bem. E qual é o próximo ponto?

A parte intelectual, fortalecida por Immanuel Kant. A argumentação de Kant foi muito forte durante o século XIX.

Quais eram os argumentos de Immanuel Kant?

Um deles era que não haveria certo nem errado se Deus não existisse.

O que o senhor acha dessa argumentação?

Se você está certo de que existe uma diferença entre o certo e o errado, então se encontra na seguinte situação: Tal diferença foi decretada por Deus ou não? Se foi, então para o próprio Deus não há diferença entre o bem e o mal, uma vez que não é mais significante dizer que Deus é bom.

Eu não entendi absolutamente nada…

Se a senhorita disser, como dizem os teólogos, que Deus é bom, a senhorita deve dizer que o bem e o mal tem algum significado independente do decreto divino. E, se você disser isso, então estará deixando implícito que não é somente a partir de Deus que o certo e o errado existem, mas que eles partem de uma lógica anterior a Ele. A senhorita pode afirmar que existe uma divindade superior que deu ordens para que Deus criasse esse mundo, ou falar como alguns religiosos (e devo admitir que essa linha de argumentação é plausível) – que o mundo como o vemos foi adulterado pelo diabo enquanto Deus não via. Como eu disse, esta é uma argumentação plausível e não estou preocupado em refutá-la.

Nesse caso, passe para frente.

E então chegamos a outro argumento moral. O da justiça. Isto é, que a existência de Deus é necessária para trazer justiça ao mundo. Se existe muita injustiça nesse lugar do universo em que vivemos – onde os bons sofrem e os maus prosperam –, o próximo plano as remediará. Para isso, é necessário que existe Deus, o Céu e o inferno.

É um argumento interessante.

Muito. Quando o analisamos do ponto de vista científico, pensamos: “A verdade é que eu só conheço esse mundo. Não sei absolutamente nada sobre o resto do universo, mas se levarmos em conta as possibilidades, podemos dizer que, sendo esse mundo a amostra grátis, tudo indica que o outro mundo também será injusto”.

Como?

Suponha que você pegue um cesto de laranjas. Todas as laranjas do topo estão estragadas. Você não vai dizer: “Ah, as debaixo certamente estarão boas, pois assim a balança será equilibrada” – e sim, “Aposto que todas as laranjas do cesto estão estragadas”.

Acreditar em Deus não é muitas vezes algo que vem de dentro?

Sim, e a maior parte das pessoas acredita em Deus porque foi criada assim. Mas acho que a segunda principal razão é um desejo de segurança.

Quais são as suas considerações pessoais em relação a Cristo?

Historicamente, a existência de Cristo é duvidosa. E, se ele realmente existiu, não sabemos quase nada sobre ele. Portanto, não me preocupo com o aspecto histórico. Vou preocupar-me com o Cristo tal como aparece na Bíblia. Sua imagem é relativamente positiva, mas não posso acreditar que tenha sido mais sábio do que outros antes e depois dele. Não pretendo desvalorizá-lo de modo algum, mas colocaria Buda e Sócrates em uma esfera elevada de sabedoria e virtuosismo.

O que o senhor acha da moralidade cristã?

Assustadora. Cristo, tal como retratado na Bíblia, certamente acreditava na punição eterna. Muitos padres cristãos acreditam que aqueles que não ouvem suas pregações serão punidos a partir de torturas inimagináveis nas profundezas sombrias do Inferno.

Isso é meio sinistro.

A gente não vê nada disso em Sócrates, por exemplo. Ele era ameno e cortês diante daqueles que não se interessavam no que dizia; e, para mim, esta é uma atitude muito mais sábia e digna do que a indignação.

O senhor considera a doutrina cristã cruel?

A doutrina cristã é mais que cruel; ela atirou a crueldade sobre o mundo e deu-nos gerações de pessoas torturadas cruelmente – mas é claro que não podemos jogar a culpa em Cristo. Bem, se levarmos em conta o modo como seus cronistas o apresentam, somos levados a crer que a culpa é um pouquinho dele, sim.

Há mais algum motivo pelo qual as pessoas aceitam a religião?

Muitas pessoas aceitam a religião por motivos emocionais, pois crescem ouvindo dizer que é errado negar a religião, porque ela proporciona virtudes aos homens. Não posso acreditar nisso.

Por que?

Porque embora sejamos levados a crer que somos perversos e levianos quando deixamos de seguir a religião cristã, me parece que aqueles que a seguem são mais perversos do que aqueles que não seguem religião alguma.

Como assim?

É um fato curioso, mas quanto mais intensa tenha sido a religiosidade em qualquer período da história humana, e quando mais profundas tenham sido as crenças dogmáticas, mais alto foi o nível de crueldade. Nas eras da fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã com todas as suas particularidades, houve a Inquisição, com todas as suas torturas – milhões de pessoas azaradas foram queimadas. David Hume afirmou muito corretamente que o espírito religioso tende mais a inflamar o fanatismo do que a promover a paz e a caridade.

Hmmm…

Você concordará se analisar os eventos históricos. As igrejas costumam posicionar-se contra cada pequeno progresso nos sentimentos humanos, cada melhoria nas leis, cada passo em direção à paz, ao fim da segregação racial ou abolição da escravidão – ou seja, cada progresso que acontece no mundo.

Continue.

Há muitos modos através dos quais a Igreja, insistindo em uma suposta moralidade, inflige em todo tipo de gente um sofrimento desnecessário e imerecido.

O senhor considera correta a afirmação de que a religião é baseada antes de qualquer outra coisa no medo?

Seria muito difícil discordar disso, e esse medo tem dois lados: Um deles consiste no terror do desconhecido e o outro, como eu disse, no desejo que temos de possuir um querido irmão mais velho que ficará ao nosso lado durante todos os momentos difíceis. O medo é a principal base da religiosidade – medo do mistério, medo da derrota, medo da morte. Nos recuperamos desse medo apenas através da ciência, que pode nos ajudar a superar esse receio que aterrorizou a humanidade por séculos. A ciência nos ensina a deixar de procurar por mais um suporte imaginário, por aliados no céu… Ela nos ensina a realizar nossos esforços aqui embaixo, a fim de fazermos desse mundo o melhor lugar possível.

O que fazer?

Por conta própria, devemos olhar com justiça e objetividade para o mundo – as coisas boas, as coisas ruins, sua beleza e sua feiúra; vê-lo tal como é, e não temê-lo. Conquistar o mundo a partir da sabedoria e da inteligência e não se submeter ao terror proveniente delas. A concepção de Deus deriva dos antigos despotismos. É uma concepção indigna de um homem livre.

Uma concepção “indigna de um homem livre”? Por que?

Quando vemos, nas igrejas, as pessoas se humilhando e declarando o quão pecadoras são, parece-me consistente afirmar que não se respeitam como seres humanos dignos. É necessário que nos levantemos e encaremos o mundo face a face, com sinceridade. E então devemos melhorá-lo.

Como podemos melhorá-lo?

O mundo que eu idealizo precisa de conhecimento, bondade e coragem. Ele precisa de uma perspectiva destemida e de uma inteligência independente. Para mudarmos o mundo, precisamos de olhar com esperança para o futuro, e não nos prendermos a um passado que está morto há tanto tempo.