Além do apartamento na Avenue Foch: a vida de rico de FHC em Paris. Por Kiko Nogueira

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FHC nos arredores da Avenue Foch, em Paris (fotos Antonio Ribeiro)

 

Em abril de 2003, a revista Viagem e Turismo, da Editora Abril, publicou uma reportagem sobre um personagem e um lugar que viraram quase sinônimos um do outro: Fernando Henrique Cardoso e Paris.

O ex-presidente falou sobre sua vida na capital francesa, inclusive dando detalhes do apartamento na Avenue Foch, endereço dos ricos e de poderosos como Idi Amin Dada.

Nestes dias em que o “triplex do Lula no Guarujá” e “o sítio do Lula em Atibaia” causam indignação (fingida), é cada vez mais curioso notar como nenhuma sobrancelha na mídia nunca se levantou por causa do apê.

Eu era redator chefe da VT e encomendei a missão à repórter Flávia Varella. Ela contou como foi a aparição de FHC para a reunião que rendeu a reportagem: “Ele chegou ao almoço num Mercedes, com motorista, vindo da piscina perto de seu apartamento. Tomamos vinho, ele comeu alcachofras de entrada, raia como prato principal e ovos nevados de sobremesa. Nada de gravata, apenas uma camisa esporte sobre o casacão que tirou ao entrar.”

Flávia era mulher de Mario Sergio Conti, ex-diretor de redação da Veja e amigo de Fernando Henrique. O casal foi morar em Paris depois que Mario foi demitido da revista. Foi em sua gestão que a Veja deu uma nota fraudulenta dizendo que Mírian Dutra, amante de FHC, estava grávida de um “biólogo”.

Na matéria, FHC conta o que depois repetiria em ocasiões diversas: o imóvel era emprestado de sua amiga Maria do Carmo Abreu Sodré, que o herdou do pai, Roberto de Abreu Sodré, ex-governador de São Paulo.

A história dá uma enrolada a partir daí.

Maria do Carmo era casada com o empresário Jovelino Carvalho Mineiro Filho. Nos anos 70, Jovelino fez mestrado na Sorbonne e conheceu Paulo Henrique Cardoso. “O conheci como amigo do Paulo Henrique e nos tornamos grandes amigos”, disse ele sobre FHC.

“Ele assistiu umas aulas minhas na década de 1970, creio”, contou o ex-presidente. “Ele funciona basicamente como líder rural”. É uma definição, na melhor das hipóteses, simplista.

Em 2000, Itamar Franco, então governador de Minas Gerais, mencionou a associação de FHC com Jovelino na fazenda Córrego da Ponte, em Buritis, na Istoé. “Essa fazenda tem algum mistério”, disse Itamar. “Muito complicada essa transação imobiliária. Metade pertence a um homem chamado Jovelino Mineiro e a outra metade pertence aos filhos de Fernando Henrique.”

Jovelino foi acusado de ser grileiro pelo MST no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, região repleta de terras devolutas. Em 1995, a Camargo Corrêa construiu um aeródromo particular em Buritis, concluído em menos de 3 meses.

Jovelino era pau pra toda obra. Em 2002, ajudou Fernando Henrique, no final do segundo mandato, a arrecadar fundos para seu instituto. A revista Época publicou um relato de como foi o convescote em Brasília com a presença de executivos das maiores empreiteiras:

“Foi uma noite de gala. Na segunda-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu 12 dos maiores empresários do país para um jantar no Palácio da Alvorada, regado a vinho francês Château Pavie, de Saint Émilion (US$ 150 a garrafa, nos restaurantes de Brasília). Durante as quase três horas em que saborearam o cardápio preparado pela chef Roberta Sudbrack – ravióli de aspargos, seguido de foie gras, perdiz acompanhada de penne e alcachofra e rabanada de frutas vermelhas –, FHC aproveitou para passar o chapéu. Após uma rápida discussão sobre valores, os 12 comensais do presidente se comprometeram a fazer uma doação conjunta de R$ 7 milhões”.

Mais: ”O dinheiro fará parte de um fundo que financiará palestras, cursos, viagens ao Exterior (sic) do futuro ex-presidente e servirá também para trazer ao Brasil convidados estrangeiros ilustres. Os empresários foram selecionados pelo velho e leal amigo, Jovelino Mineiro, sócio dos filhos do presidente na fazenda de Buritis, em Minas Gerais.”

Conflito de interesses? Tráfico de influência? Alguma outra dessas acusações que estão na moda?

Em depoimento a Joaquim de Carvalho, no DCM, a jornalista Mirian Dutra afirmou que o apartamento está no nome de Jovelino, mas o dono é seu ex-namorado. “Ele é um operador dele”, diz Mirian.

Jovelino é um laranja ou apenas um sujeito generoso e desapegado? Como anotaria o juiz Moro, evidentemente se referindo a Lula, há aí um “possível envolvimento criminoso”. Possível, que fique bem claro.

FHC com Carmo Abreu Sodré e Jovelino Mineiro

Eis a Paris de Fernando Henrique Cardoso, o homem cujo apartamento não pertence a ele.

Por oito anos, Fernando Henrique Cardoso governou um país, morou num palácio e foi servido por dezenas de empregados. Assim que tudo terminou, ele quis férias. E, com todos os recantos do mundo a seu dispor, escolheu aquele em que é obrigado a arrumar a própria cama – “É horrível”, admite –, a levar as camisas para a lavanderia, toma bronca quando deixa a louça suja acumular e não é reconhecido nas ruas.

O ex-presidente do Brasil escolheu Paris. Mesmo com os novos dissabores domésticos que essa opção acarretou, a capital francesa é a cidade do seu coração. “Depois de São Paulo, é onde me sinto mais em casa”, diz ele, que falou de sua paixão a Viagem e Turismo. Em Paris, ele conhece os restaurantes, os museus, os parques, as livrarias e os programas parisienses da moda – e também os endereços tradicionais e os fora do circuito turístico. A familiaridade com a França vem dos tempos de aluno da Universidade de São Paulo, quando vários professores eram franceses; foi aprofundada nos três períodos em que morou em Paris entre os anos 60 e 70; e é atualizada pelos amigos.

“Aqui não sou turista, não me sinto na obrigação de conhecer nada. Por isso, agora que posso, sou um flâneur”, diz. Pelo direito de ser flâneur – segundo o poeta Charles Baudelaire, uma pessoa que passeia sem pressa, abandonando-se às impressões e ao espetáculo do momento –, durante dois meses e meio Fernando Henrique encarou o “exercício de humildade” ao viver num apartamento menor do que seu quarto no Palácio da Alvorada.

Basicamente, o que ele faz em Paris é, como bom ex-professor de sociologia, ler e, como bom político, jantar e almoçar com amigos e personalidades do mundo político. Mas, em seus passeios, também descobre belíssimas atrações (como o Parc de La Villette, um dos preferidos de seus netos). Pode-se dizer que poucos guias conhecem Paris tão bem quanto Fernando Henrique Cardoso.

O ex-presidente da República tem dicas valiosas para se curtir a capital francesa como ele: com paixão e de coração aberto para as novidades. Para comprar livros ou checar as novidades, ele prefere a livraria Fnac de Champs-Elysées. Não é a mais charmosa da cidade e nem é histórica, mas é prática e bem fornida. Para comentar a guerra no Iraque ou murmurar seus receios e esperanças com o governo Lula, sua carta de opções é maior.

Assumido pão-duro, Fernando Henrique freqüenta restaurantes estrelados pelo honorável Guia Michelin, a convite, e bistrôs, quando paga (veja o mapa com os endereços na página 66). O critério, conta, é o da boa comida. Ele torce o nariz, por exemplo, para o festejado Lasserre, “porque é caro demais e não se come, assim, maravilhosamente bem”. Mas anima-se quando fala do ainda mais caro restaurante do chef Guy Savoy, o único entre seus preferidos a ostentar as três estrelas máximas conferidas pelo Michelin.

Na sua lista de recomendáveis, entra o bistrô do chef Michel Rostang, onde o almoço, com entrada, prato e café, custa 27 euros, mas não seu restaurante duas estrelas, que fica ao lado e onde se gastam 150 euros numa refeição. Fernando Henrique vai bastante também ao Giulio Rebellato. Era uma maneira bem mais eficaz de escapar à pia da cozinha do que argumentar com a mulher, Ruth, como fez em algumas ocasiões: “Eu fui presidente do Brasil, morei num palácio. Você acha pouco eu aqui lavando copo?”

A poucos quarteirões de sua casa, o restaurante funcionou como o-italiano-ali-da-esquina nessa temporada de inverno da família Cardoso no seizième arrondissement. O seizième, bairro dos parisienses ricos, não foi uma escolha. O apartamento de frente para a Foch, uma avenida de quatro pistas, ladeadas por jardins, que liga o Arco do Triunfo ao Parque Bois de Boulogne, foi emprestado por sua amiga Maria do Carmo Abreu Sodré, que o herdou do pai, Roberto de Abreu Sodré. Acoplado a um estúdio, ele tem cerca de 100 metros quadrados e mantém a decoração deixada pelo ex-governador paulista.

Fernando Henrique esbarra nos enfeites da casa e sente falta, no bairro, do burburinho dos cafés, brasseries e livrarias do Quartier Latin, região em que morou por mais tempo. Em compensação, o apartamento tem um conforto que o hóspede valoriza: dois banheiros e um lavabo. Fernando Henrique morou pela primeira vez em Paris em 1961, numa casa de estudantes na Cidade Universitária. A Paris daquele tempo era escura, suja, com os prédios cobertos por uma fuligem negra.

O “brilhantismo” – definição dele – atual da cidade só começou a aparecer nos anos 70. “Eu vi a eclosão do banho na França. As pessoas compravam chuveiros, mas, sem ter onde instalar, os colocavam na cozinha”, conta. Às vezes, ainda no corredor em direção a uma reunião de estudo, ele adivinhava quais eram os colegas presentes pelo cheiro.

Flanar por Paris, para Fernando Henrique, é recordar-se de endereços de amigos, de fatos históricos, de discussões filosóficas. A rue de l’École de Médicine o faz lembrar-se da barricada montada ali em 68, que o impediu de chegar em casa e o obrigou a dormir num hotel. Num dos cafés, ele conversava com o pensador francês Jean-Paul Sartre e sua mulher, Simone de Beauvoir; numa brasserie, com o filósofo Michel Foucault.

Na temporada 2003 – sinal dos tempos –, os grandes mestres foram visitados apenas nos museus. Interessado por artes plásticas desde o tempo em que, ainda jovens, ele e dona Ruth foram monitores do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, Fernando Henrique foi às exposições de Modigliani no Museu de Luxembourg, de Magritte na Galeria Nacional de Jeu de Paume e de Picabia no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris. Neste, divertiu-se com um guarda que perguntou em francês: “O senhor é sul-americano? Fernandô?”

Carregado por Ruth, assistiu à peça A Tragédia, de Hamlet, dirigida pelo badalado Peter Brook. Gostou dela e do teatro, que não conhecia. O Théâtre des Bouffes du Nord foi construído no século 19 para ser um teatro popular. Foi ressuscitado em 1974 pela turma de Peter Brook, que manteve sua rusticidade e as marcas do tempo. Outra novidade cultural que entusiasma Fernando Henrique é o Parc de La Villette, com seus jardins e mil e uma atividades.

Andando com os netos pela Cidade das Ciências e das Indústrias, um pavilhão de exposições com recursos ultramodernos que se propõem a explicar praticamente tudo, o vovô ficou boquiaberto com as informações que recebeu sobre DNA e refração da luz. Os conhecimentos adquiridos ali, porém, não foram suficientes para que conseguisse abrir a máquina de lavar num dia em que dona Ruth, em viagem, lhe deu a incumbência de estender a roupa. “Tive de chamar a concièrge, uma vergonha!”, diz.

Máquina de lavar, oito camisas de uma só vez para entregar na lavanderia, o nu de Modigliani, o tiramissu de Giulio Rebellato, o vinho de 300 euros no LaSserre, o foie gras de Guy Savoy, o ácido desoxirribonucleico… Quer flanar por Paris num esquema, digamos, presidencial? Aceite as sugestões de FHC.

 

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