Greve geral: Doria vê da janela do palácio o fogo das manifestações que tentou evitar. Por Joaquim de Carvalho

O Menino Malufinho

 

No WhatsApp, o número de mensagens nas primeiras horas desta manhã não deixa dúvida: a greve é geral.

Pessoas que eu conheço, algumas politizadas, outras não, informam como a situação está neste momento: o transporte público não funciona, há manifestações em todas as regiões da cidade de São Paulo, pneus queimam, o trânsito está parado em muitos lugares.

É possível imaginar, atrás do fogo dos pneus queimados no Terminal Bandeira, João Doria olhando pela janela do Palácio do Anhangabaú, edifício Matarazzo, sede da Prefeitura.

Os telões da sala de monitoramento por câmeras devem mostrar que a paralisação atinge também a periferia.

Cadê o Uber, cadê os carro da 99 para enfrentar esse exército de gente excluída?

Pelos primeiros relatos que recebo, não é só o exército de sem teto de Guilherme Boulos que aderiu ao movimento.

Donas de casa fazem circular corrente para indicar como devem participar da paralisação: nada de sair de casa, nem para ir à padaria.

O movimento é nacional e Doria, eleito para cuidar de São Paulo, colocou em seu colo um conflito que vai muito além das questões que ele deveria pensar em resolver: a falta de creches, por exemplo, ou o descontrole da região da Cracolândia – que se tornou uma feira para venda de drogas – não só crack –, ao longo do dia.

Em vez disso, tentou surfar numa medida que o Uber e 99 adotaram para todas as cidades onde funcionam: desconto de 20 reais para duas viagens nesta sexta-feira.

A Uber, que não é brasileira, e a 99, que foi comprada por um grupo chinês, viram na greve a oportunidade para divulgar a marca e ampliar o número de cadastros.

As próprias empresas iriam pagar a conta – como ação de marketing, o custo não é o fim do mundo, custa menos que uma campanha de anúncios no Jornal Nacional.

Mas Doria, se antecipando, gravou o vídeo e disse que tinha encontrado a solução para o pessoal fura-greve.

Na mensagem, como de hábito, expôs contradições, com o discurso de “gestor”:

“Dia 28, é dia de trabalho. Só quem não quer trabalhar é que vai fazer greve (…) Quem deseja manifestar-se faz isso em horário fora de expediente “, disse.

Quando ele estava na linha de frente do movimento que levou ao golpe de 2016, usou o Twitter para expor palavras de simpatia por um greve convocada em 2013:

“Greve geral de amanhã, pode ser o teste mais difícil do Governo Dilma” ou, na mesma época: “Tentar desqualificar as manifestações populares contra Dilma é negar a democracia. Não é elite, não é burguesia. É o povo brasileiro.”

Agora, no poder, ele diz coisas como: “O Brasil não é do mundo sindical”.

Doria se posicionou contra a paralisação de hoje porque, desde que assumiu, se comporta como candidato a presidente, não como prefeito de São Paulo – ir ao Vaticano dar conselho ao papa faz parte desse roteiro.

Para tentar chegar lá, escolheu o caminho da direita: deixou o marketing do “João Trabalhador” exibido na campanha, e colocou de volta o blazer azul marinho de botões dourados que lhe cair melhor.

João Trabalhador? Doria sempre foi o Menino Malufinho.