Precisamos falar sobre Dilma

Dilma
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Precisamos falar sobre Dilma. Dilma e Lisboa.

Vou, antes, colocar todas as ressalvas. Sabemos que são hipócritas as críticas aos gastos da polêmica parada em Lisboa.

Todo presidente brasileiro se hospeda em hotéis como o de Dilma em Lisboa e come no mesmo tipo de restaurante.

A diferença é que uns são cobrados por isso e outros não. E não só por isso. Uma filha de FHC usava regularmente avião da FAB para ir de Brasília ao sítio da fazenda em Minas para passar os finais de semana. Mas isto não era notícia.

Voltando.

Com todas as ressalvas para o farisaísmo das críticas aos gastos de Dilma em Lisboa, o fato é que é hora de promover um choque de frugalidade e austeridade no uso do dinheiro público no Brasil.

E ninguém melhor que o presidente, ou presidenta, da República para comandar uma mudança de mentalidade.

Os tempos pedem isso.

Dois homens são particularmente inspiradores: um é Pepe Mujica, e o outro é o papa Francisco.

Paro momentaneamente aqui para aplaudi-los. De pé.

Está enraizada na vida pública brasileira uma suntuosidade absurda que só se explica porque o dinheiro gasto para sustentá-la não é de quem gasta.

O dinheiro público é desrespeitado em todas as esferas: dos banheiros reformados e das diárias europeias de Joaquim Barbosa ao caviar de Roseana Sarney, do helicóptero de Sérgio Cabral aos camarões de Renan, é uma farra.

Frugalidade é vital do ponto de vista da simbologia. A mensagem que é passada aos brasileiros comuns quando ela não existe não poderia ser pior. “É assim que gastam o dinheiro que pago de imposto”: é a conclusão da voz rouca das ruas.

A tentação de sonegar aumenta, ao mesmo tempo que baixa a crença na boa fé dos homens públicos – e as duas coisas juntas são péssimas para a construção de um país saudável.

Os mais cínicos dizem que no final é pouco dinheiro, e este é um argumento falacioso. O problema real não são as cifras em si, mas o que elas representam.

Como mudar? Nada melhor que a força do exemplo.

Mujica não existem dois, é verdade. Não estou dizendo que o próximo presidente brasileiro deveria renunciar ao Planalto para ficar num sitiozinho cuidando de suas cabras.

Mas Francisco está provando que você pode conciliar poder com simplicidade. Ele não pode levar no Vaticano a vida simples que tinha na Argentina, onde andava de ônibus e ia comprar pessoalmente seu jornal numa banca de revistas.

Mas ele não se deixou tragar pelos luxos reservados há séculos aos papas. Dentro das circunstâncias, tem a vida mais frugal que poderia ter.

Este é o ponto.

O mundo carece disso.  A cultura da simplicidade é vital no combate ao grande mal de nossos dias: a desigualdade. O oposto dela – o culto da opulência e do consumo conspícuo – acaba levando a uma corrida frenética para ver quem tem mais dinheiro, e a raiz de iniquidade reside aí.

Não é tão difícil assim mudar um costume antigo na vida pública brasileira. Um bom exemplo, ao estilo de Mujica e Francisco, e as coisas começam rapidamente a mudar.

Dilma mesma pode promover esta pequena e necessária revolução caso se reeleja.

Ela pode, e deve, mujicar. Ou se impregnar do franciscanismo do papa. Será um avanço para ela — e para o país.