
A perita criminal Jacqueline Tirotti, que considerou autêntico um vídeo falso usado contra o padre Júlio Lancellotti, filiou-se ao partido Missão — criado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) — e lançou pré-candidatura a deputada distrital no Distrito Federal.
Ela foi uma das autoras da perícia utilizada pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil), ex-MBL, na tentativa de instaurar uma CPI contra o religioso, iniciativa que acabou arquivada após vereadores retirarem apoio ao alegarem terem sido enganados.
Ao anunciar a decisão nas redes sociais, Jacqueline disse que sempre quis entrar para a política e que se identificava com o movimento. “Tomei coragem e me filiei ao partido Missão. Eu tinha vontade de entrar para a política, não me sentia representada por nenhum partido, mas simpatizava com o MBL, que ainda não tinha um partido”, afirmou.
Ela também admitiu receio de perder clientes na área pericial: “Fiquei com medo, pois vivo de perícias e essa exposição pode me levar a perder a simpatia de muitos”.
Ver essa foto no Instagram
A perita é filha e sócia de Reginaldo Tirotti, coautor do laudo usado por aliados bolsonaristas e pela revista Oeste para sustentar a veracidade do vídeo atribuído falsamente ao padre. Reginaldo é apoiador ferrenho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e participou de atos golpistas em frente aos quartéis do Exército.
O perito que estava no dia 8 de janeiro, junto com os terroristas, falou que o vídeo do padre é verdadeiro. 😉
🎥 @alor3n4 pic.twitter.com/T4qNdd3B2A— Mala Oficial (@prmalaoficial) January 20, 2024
Perícia contestada e difusão de fake news
O vídeo reaproveitado mostrava um homem em atos libidinosos e foi apresentado como se fosse o religioso. Para sustentar a autenticidade, Jacqueline e o pai utilizaram características prosopográficas — como formato do rosto, orelhas e calvície — método considerado frágil diante da possibilidade de manipulação por inteligência artificial. A acusação foi posteriormente tratada como difamação, sem comprovação de veracidade.
Padre Júlio Lancellotti tornou-se alvo recorrente de ataques e fake news por sua atuação com pessoas em situação de rua e por críticas a políticas públicas voltadas a essa população. A ofensiva incluiu agressões verbais, campanhas digitais e pressão política para investigar o sacerdote.
MBL e campanha contra o religioso
A filiação de Jacqueline ao partido do MBL reforça a ligação direta entre os autores da perícia e o movimento que liderou a ofensiva contra o padre — cenário já apontado pelo DCM, que havia antecipado o papel do grupo na tentativa de desgastar Lancellotti.
Influenciadores ligados ao movimento produziram conteúdos e dossiês com acusações graves, posteriormente arquivadas por falta de provas. Entre eles, destaca-se Miguel Kazam, ligado ao MBL e com mais de 100 mil seguidores.
Parlamentares da direita amplificaram essas narrativas, culminando no pedido de CPI que acabou naufragando. Mesmo sem investigação formal, a campanha gerou forte repercussão política e pressão sobre a Arquidiocese de São Paulo, contribuindo para restrições à atuação digital do sacerdote.