
O julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) dos mandantes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes trouxe novamente ao centro das investigações o nome do miliciano Edmilson Oliveira da Silva, conhecido como Macalé. Apontado pelo delator Ronnie Lessa como intermediário na contratação do crime, ele não chegou a responder no processo porque foi executado em novembro de 2021, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio.
A Delegacia de Homicídios da Capital investiga se o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, teria ordenado a morte de Macalé. O contraventor foi preso em uma operação conjunta das polícias Federal e Civil, escondido em uma mansão em Cabo Frio.
A suspeita ganhou força após a quebra de sigilo telemático do policial militar Rafael do Nascimento Dutra, o Sem Alma, considerado braço direito do bicheiro. Em arquivos do celular dele, investigadores encontraram uma pasta com anotações detalhadas sobre Macalé, incluindo endereço, telefones e dados do veículo da vítima, uma BMW X5 branca.
Segundo os peritos, o material indicava um levantamento prévio típico de execuções planejadas, com informações inseridas poucos dias antes do assassinato. Os dados foram incorporados ao inquérito e reforçam a hipótese de que o miliciano foi alvo de uma queima de arquivo.
Durante o julgamento, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que a execução teve essa finalidade. “Macalé foi morto em queima de arquivo, foi assassinado, executado. Não teve infarto, tropeçou na rua, bateu a cabeça e morreu. Foi executado em clara demonstração de queima de arquivo, clássica, histórica e tradicional de organizações criminosas. E como atuam também, infelizmente, as milícias no Rio de Janeiro”.

De acordo com a colaboração premiada de Ronnie Lessa, Macalé teve papel decisivo na aproximação entre o ex-PM e os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como mandantes do assassinato da vereadora.
Lessa relatou que o miliciano acompanhou etapas de monitoramento da parlamentar e chegou a participar de planos para executar o crime. O delator afirmou ainda que o grupo esperava lucrar com um loteamento na Praça Seca, em Jacarepaguá, projeto que poderia render cerca de R$ 100 milhões e que seria dividido entre os envolvidos.
Investigadores também tentam esclarecer qual teria sido o motivo para a execução de Macalé. Uma das linhas de apuração aponta disputa territorial e conflitos ligados ao comércio ilegal de cigarros paraguaios, atividade atribuída ao grupo de Adilsinho. O policial Sem Alma é apontado como executor de homicídios ligados ao esquema e permanece foragido.
As investigações indicam que o bicheiro não tolerava concorrência ou aproximação de aliados com rivais, o que poderia ter motivado a morte do miliciano.
Outras execuções atribuídas ao grupo seguem sob análise, incluindo a de um policial penal envolvido no mesmo mercado ilegal. Até o momento, o Ministério Público do Rio ainda não apresentou denúncia formal sobre esses casos, enquanto as autoridades tentam esclarecer todas as conexões entre os envolvidos no assassinato de Macalé e o caso Marielle.