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Governadores renunciam por eleição, perdem foro e entram na mira do caso Master

Polícia Federal cumpre mandado de busca e apreensão na sede do BRB, em Brasília (crédito: DPF)

As renúncias dos governadores Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro, Wilson Lima (União), do Amazonas, e Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, têm impacto decisivo nas investigações das fraudes promovidas pelo Banco Master. Fora do cargo, os três políticos da direita perderam o foro privilegiado que os protegia de ações locais de investigação feitas pelo Ministério Público de cada estado e das superintendências locais Polícia Federal (PF) sobre o caso. Entraram, portanto, na mira de operações já em curso em seus estados para apurar investimentos suspeitos no Master usando dinheiro de servidores públicos.

Em fevereiro deste ano, a PF do Rio de Janeiro deflagrou a segunda fase da operação Barco de Papel, que investiga crimes contra o sistema financeiro envolvendo a gestão de recursos do Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro, o Rioprevidência. Nesta ação, policiais prenderam Deivis Marcon Antunes, então presidente do fundo nomeado por Cláudio Castro.

::Leia mais: PF faz operação sobre R$ 2,6 bilhões da Rioprevidência no caso Master::

Antunes é suspeito de liderar investimentos de até R$ 970 milhões no Master, utilizando recursos de contribuições previdenciárias de funcionários públicos estaduais. Após o Master ser liquidado pelo Banco Central, esses recursos foram praticamente perdidos.

Antunes foi escolhido por Castro para gerir os recursos das aposentadorias dos servidores fluminenses em julho de 2023, após indicação do União Brasil, partido do ex-governador Wilson Lima (que, por sua vez, colocou no comando do fundo de pensão do Amazonas o irmão do presidente do PL-AM, que assim que entrou no cargo foi à sede do banco Master em São Paulo, avalizar um negócio de R$ 50 milhões com papéis sem garantia comprados junto a Daniel Vorcaro). Duas semanas depois de assumir o novo posto, ele alterou regras de investimento do Rioprevidência, autorizando o fundo a aplicar até R$ 1 bilhão no Master.

Deivis Marcon Antunes, ex-presidente da Rioprevidência: ele acabou preso na última operação da PF (crédito: divulgação)

::Leia mais: Como o PL-AM entregou chave do cofre da Amazonprev ao Master e entrou na mira do MP::

A prisão de Antunes foi determinada pela 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Na época em que foi realizada, Castro ainda era governador do Rio de Janeiro. Por ter foro privilegiado, ele não poderia ser sequer investigado pelos agentes que pediram a prisão de seu subordinado. Isso só seria possível com o aval do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Hoje, porém, a situação é outra. Castro renunciou ao cargo de governador dias antes de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgar um processo que poderia afastá-lo do cargo por abuso de poder econômico na eleição de 2022. Por conta desse caso, o TSE declarou Castro inelegível por oito anos. Mesmo assim, ele se movimenta nos bastidores da política para viabilizar uma candidatura ao Senado.

Enquanto não reassume um cargo político, ele segue como um cidadão comum aos olhos da PF. Pode, portanto, ser intimado a prestar esclarecimentos, ser alvo de buscas em sua casa ou mesmo ser preso provisoriamente em ações da polícia com o objetivo de esclarecer sua relação com Antunes, seu nomeado, que perdeu R$ 970 milhões.

Wilson Lima na berlinda

Risco semelhante corre Wilson Lima, agora ex-governador do Amazonas. Ele foi o responsável por nomear os presidentes da Fundação Amazonprev enquanto ela aplicava –e praticamente perdia– R$ 50 milhões em recursos da aposentadoria de servidores.

Em março, esse e outros investimentos do fundo viraram alvo da operação Sine Consensu, deflagrada por determinação da 4ª Vara Federal Criminal da Justiça Federal do Amazonas. A Justiça determinou, inclusive, o afastamento temporário de três servidores da Amazonprev por suspeitas de que eles teriam recebido R$ 600 mil em propina para viabilizar o aporte de recursos de trabalhadores no Banco Master.

Lima, àquela altura, tinha foro privilegiado. Também não poderia ser intimado a prestar esclarecimentos sobre os aportes por agentes da PF, apesar de eles terem ocorrido em junho de 2024, durante sua gestão no governo e enquanto uma doadora de campanha de Lima controlava o fundo: Maria Neblina Marães.

O contador das campanhas eleitorais de Lima, Ary Renato Vasconcelos de Souza, substituiu Marães na presidência da Amazonprev dias após o investimento. Em maio de 2025, ele deu lugar a Francisco Evilázio na chefia do fundo.

Francisco Evilázio é irmão do presidente do PL-AM, o ex-senador Alfredo Nascimento. Em 28 de maio, ele esteve pessoalmente na sede do Banco Master, em São Paulo, para tratar dos investimentos da Amazonprev na instituição. Lá, ele soube dos riscos envolvidos na operação. Apesar disso, nada fez. Meses depois, o banco quebrou.

Wilson Lima renunciou ao cargo de governador no último dia 4. Havia prometido em discurso efusivo que não deixaria o governo para concorrer nesta eleição “por responsabilidade” com o povo amazonense. Mudou de ideia após 32 dias e tornou-se pré-candidato ao Senado. Até a eleição, entretanto, a PF pode bater em sua porta para lhe perguntar qual sua relação com o Banco Master.

Ibaneis no alcance do STF

Ibaneis Rocha, o candidato de Flávio Bolsonaro ao Senado no DF, vive dias de tensão sem o guarda-chuva do foro privilegiado (crédito: divulgação)

Outro ex-governador envolvido no caso Master é Ibaneis Rocha (MDB). Em sua gestão, o Banco de Brasília (BRB) quase comprou partes do Master para salvá-lo da bancarrota. Por conta disso, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi preso no dia 16.

Neste caso, a prisão foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), corte que supervisiona as ações da operação Compliance Zero, também sobre o Master.

::Leias mais: “Não vou suportar”: A cobrança de Ibaneis para acelerar a compra do Master pelo BRB::

Caso a investigação avance, Ibaneis também pode vir a ser implicado. Isso, aliás, poderia ocorrer com ele dentro ou fora do governo, já que o STF tem prerrogativa para investigar autoridades com foro privilegiado.

Ibaneis Rocha renunciou em março e também pretende se candidatar ao Senado.