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Os vampiros da pandemia na lancha da suruba. Por Moisés Mendes

Flávio Bolsonaro
O candidato a presidência Flávio Bolsonaro (PL). Foto: Bryan Snyder/Reuters

As reações à notícia da festa de Flávio Bolsonaro na lancha da suruba, mostrada em reportagem da revista piauí, começam pela abordagem moral, por causa da presença de moças de programa. Mas os personagens mais importantes são os amigos de Flávio na farra de julho de 2020, no primeiro pico da pandemia: os lobistas acusados pela CPI de fraudes nas negociações de vacinas.

A piauí mostra que Flávio participou da festa na lancha, no Lago Paranoá, atraído por gente interessada em negociar vacinas com o governo. Lá estava Danilo Berndt Trento, diretor institucional da Precisa, cujo dono era Francisco Emerson Maximiano. Maximiano ajudou a organizar a festa, mas saltou fora na hora da farra.

Os dois, Trento e Maximiano, estão no relatório da CPI da Pandemia, entregue ao Ministério Público em outubro de 2021, com pedidos de indiciamento. Foram acusados pela comissão de fraudes na tentativa de venda da vacina Covaxin superfaturada.

Mas a inclusão de Flávio, dos empresários, dos militares e dos integrantes do gabinete paralelo no relatório não encerrou a cobrança por responsabilização. O documento final recomendou o indiciamento de 78 pessoas e duas empresas. Cinco anos depois, é preciso cobrar o destino de cada uma dessas recomendações.

Francisco Maximiano foi acusado pela CPI por falsidade ideológica, fraude em contrato, formação de organização criminosa, improbidade administrativa, uso de documento falso e fraude processual. As acusações contra Danilo Trento envolvem fraude em contrato, formação de organização criminosa e improbidade administrativa.

Flávio Bolsonaro foi incluído no relatório por incitação ao crime, por ter atuado na disseminação de notícias falsas e estimulado a população a descumprir medidas sanitárias, no auge da propaganda da cloroquina.

O amigo Alexandre Santini, seu sócio na franquia de chocolates Kopenhagen no Rio, que estava na lancha, também aparece nas investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro das rachadinhas por meio da loja.

Alexandre Santini Flávio Jair Bolsonaro
Flávio e Jair Bolsonaro juntos do empresário Alexandre Santini em 2015. Foto: Reprodução

Parte dos desdobramentos do relatório da CPI ficou entre arquivamentos e paralisações. São cinco anos de leniência. Entre os casos que chegaram a uma denúncia formal está o dos donos e diretores da Prevent Senior, acusados pelo Ministério Público de São Paulo de homicídio culposo e outros crimes. A denúncia foi apresentada em junho de 2024 e cita o uso de medicamentos sem indicação para o tratamento da Covid-19.

A chance de alcançar os vampiros da pandemia foi retomada por decisão de Flávio Dino, em setembro do ano passado, que autorizou a abertura de inquérito pela Polícia Federal. A investigação abrange 24 pessoas, entre as quais Jair Bolsonaro, os três filhos — Flávio, Eduardo e Carluxo —, Osmar Terra, o véio da Havan, Carla Zambelli, Bia Kicis e outros menos célebres. O foco inicial é a disseminação de desinformação e o incentivo ao descumprimento de medidas sanitárias.

Ninguém mais fala do inquérito, e ninguém mais irá falar se Flávio for eleito. A CPI teve pelo menos um mérito: o de expor e interromper negociatas como a da Covaxin, envolvendo empresários que organizaram a festa na lancha para o filho do presidente.

Enquanto Bolsonaro propagava o milagre da cloroquina e milhares de brasileiros morriam, empresários e agentes públicos articulavam negociações de vacinas que depois seriam investigadas pela CPI. Flávio festejava com representantes desse meio. E faziam bacanais.

Prestem atenção às relações promíscuas dessa gente, que envolvem serviços pagos com prostitutas, nesse caso dos empresários da lancha e nos relatos sobre as festas de Daniel Vorcaro e suas conexões com políticos.

Mas não se esqueçam do que importa. A lancha, os charutos, o uísque e as mulheres eram a parte exposta e festiva da aproximação entre o poder e empresários interessados em negócios com o governo. Os vampiros da pandemia continuam cobrando respostas das instituições que deveriam responsabilizá-los.