
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, apresentou a América do Sul como uma área de expansão da influência de seu governo e apontou o Brasil como exceção à mudança que celebra na região. Em entrevista ao Canal 14, exibida nesta segunda-feira (26), um dia depois da derrota de seu aliado Flávio Bolsonaro (PL) para Lula (PT), o premiê afirmou que países sul-americanos já passaram “para o nosso lado”.
“Embora pareça que o Brasil não vá concluir a mudança, há ali pelo menos oito países, nove países, que já passaram para o nosso lado. Estamos desenvolvendo novas possibilidades”, declarou Netanyahu. No trecho, ele não identifica os governos incluídos nessa contagem nem detalha quais seriam essas novas possibilidades.
Os países são contabilizados conforme sua adesão ao campo que Netanyahu define a partir dos interesses de Israel, em uma lógica de quintal. Nesse enquadramento, a continuidade de um governo brasileiro crítico à política do premiê aparece como um obstáculo, enquanto as mudanças favoráveis a ele são apresentadas como conquistas de sua diplomacia.
A fala começa com a defesa da ampliação dos Acordos de Abraão, iniciativa que normalizou relações entre Israel e países árabes a partir de 2020. Ao final, Netanyahu associa essa agenda ao perfil de liderança que reivindica: “Um primeiro-ministro de Israel tem de ser alguém que atue como líder no cenário mundial”.
— VIDRAÇA TAMBÉM É GENTE, GENTE (@VidrsGente) October 27, 2026
A preferência na disputa brasileira havia sido explicitada antes do segundo turno. Em 5 de outubro, Netanyahu desejou uma “grande vitória” a Flávio Bolsonaro e afirmou querer restabelecer a amizade entre os dois países. O senador prometia aproximar o Brasil do governo israelense caso chegasse ao Planalto.
A aposta tinha um projeto concreto como pano de fundo. Em junho, Flávio Bolsonaro defendeu a entrada do Brasil nos Acordos de Isaac, iniciativa liderada por Javier Milei e Netanyahu para ampliar a cooperação política, econômica e de segurança entre Israel e países latino-americanos. A proposta se inspira nos Acordos de Abraão mencionados pelo premiê.
Em entrevista ao próprio Canal 14, em julho, Flávio Bolsonaro também prometeu transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém no início de um eventual governo. Disse que a mudança seria um compromisso pessoal e elogiou Netanyahu.
Em entrevista ao DCM em setembro, o historiador Vijay Prashad já havia relacionado a aproximação entre Milei e Israel aos Acordos de Isaac e à disputa geopolítica na região. Na avaliação dele, o Brasil era o “maior prêmio” para os Estados Unidos, enquanto Lula representava uma barreira ao avanço desse projeto.
A reeleição de Lula para o quarto mandato frustrou a expectativa de retorno desse alinhamento ao Planalto. O petista mantém críticas ao genocídio perpetuado por Israel em Gaza, tema que provocou uma crise diplomática entre os dois governos em 2024. O resultado preservou a condução da política externa brasileira nas mãos de um adversário da agenda de Netanyahu.