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Cadê o paraíso? Crise no Paraguai desmonta propaganda de bolsonaristas

Luciano Hang Thiago Nigro João Doria
O empresário Luciano Hang, o influenciador Thiago Nigro e o ex-governador de São Paulo João Doria. Foto: Reprodução

O Paraguai foi anunciado por políticos de direita e influenciadores bolsonaristas como um refúgio para quem não queria continuar no Brasil governado por Lula. A propaganda destacava impostos baixos, liberdade econômica e um governo conservador. Poucos dias depois da reeleição do presidente brasileiro, o país vizinho viu um de seus maiores bancos digitais entrar em colapso, milhões de correntistas perderem temporariamente o acesso ao dinheiro e o presidente Santiago Peña ser destituído. O contraste colocou sob pressão quem vendia a mudança como caminho seguro para prosperar.

O exemplo mais visível de recuo veio do ex-governador paulista João Doria. Segundo o BP Money, ele apagou do Instagram um vídeo que exaltava o crescimento do Paraguai e promovia o Summit Paraguay-Brasil, marcado para 13 de novembro em Assunção. A gravação anunciava a presença de Peña, quatro ministros e cerca de cem empresários dos dois países. O Lide, grupo fundado por Doria, adiou o encontro para janeiro de 2027, sem data definida. A propaganda desapareceu do Instagram, mas continuou circulando no Facebook e em aplicativos de mensagens.

A defesa do Paraguai também se tornou uma bandeira do entorno de Jair Bolsonaro. Durante a campanha, Flávio Bolsonaro elogiou Santiago Peña por iniciativas de modernização do Estado e governo digital. O empresário Luciano Hang, dono da Havan, foi além: após se reunir com Peña em julho, conclamou empresários a investir no país. O destino era apresentado como contraponto ao Brasil de Lula, embora nem todos os divulgadores compartilhassem a mesma posição partidária.

Essa campanha tinha alcance mensurável. Em investigação publicada em setembro, o El Surti analisou quatro perfis brasileiros que promoviam a migração: Conexão Política, Imigra Paraguai, Buenno e Vinicius Guimaraes. Juntos, somavam mais de 3 milhões de seguidores no Instagram. O levantamento identificou a combinação de propaganda tributária, discurso conservador e idealização da vida no Paraguai. Antes do segundo turno, um influenciador chegou a prever um “tsunami” de brasileiros cruzando a fronteira caso Lula vencesse.

A promoção também tinha um lado comercial. Davy Albuquerque de Fonseca, cofundador do portal Conexão Política, é igualmente cofundador e diretor-executivo da Imigra Paraguai, consultoria que oferece serviços de residência e abertura de empresas. Em 2025, o portal anunciou parceria com a companhia. Uma das campanhas vinculava o país aos lemas “Deus, pátria, família e liberdade” e à promessa de um ambiente mais favorável aos empresários. Não se tratava apenas de simpatia política: havia serviços de mudança e instalação de negócios sendo oferecidos ao público atraído por esse discurso.

Entre os criadores de conteúdo examinados, João Buenno chegou a apresentar a água como gratuita no Paraguai. Questionado ainda antes da crise, explicou que, no prédio onde mora, a cobrança estava embutida no aluguel. Vinicius Guimaraes, outro dos influenciadores ouvidos, negou defender a precarização do trabalho e argumentou que a burocracia brasileira prejudica a geração de empregos. O Paraguai tem cerca de 60% dos trabalhadores na informalidade, além de graves carências nos serviços públicos.

A lista de entusiastas não se restringia aos perfis abertamente políticos. Thiago Nigro, conhecido como Primo Rico, publicou um vídeo sobre a “fuga dos brasileiros pro Paraguai”, destacando incentivos a empresas e tributação reduzida. O influenciadora comemorava o movimento: “Muito legal o que está acontecendo no Paraguai”. Também previa que mais brasileiros fariam a saída fiscal do país.

Bruno Perini comparou preços e impostos dos dois países, inclusive o de carros fabricados no Brasil e vendidos no mercado paraguaio. Também existem conteúdos de Rob Correa, abordando os benefícios de ir ao Paraguai e de Luciano Campos, do Inteligência Empresarial, sobre residência fiscal, abertura de negócios e instalação de indústrias.

Na terça-feira (3), o Banco Central paraguaio iniciou a resolução do Ueno Bank após constatar deterioração grave dos indicadores de solvência. A instituição tinha aproximadamente 2,9 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos ligados à previdência. Peña havia sido acionista do grupo controlador até março de 2025. Na sexta-feira (6), o Senado destituiu o presidente por 44 votos; ele passou a ser investigado e foi submetido a medidas de restrição de liberdade. Peña nega irregularidades. A devolução de depósitos já começou, mas a crise afetou o cotidiano de correntistas, trabalhadores e comerciantes.

A conta chegou também a brasileiros estabelecidos no país. Comerciantes e trabalhadores relataram a indisponibilidade de recursos destinados a despesas pessoais e capital de giro. Com relatos de brasileiros que passaram a trocar alertas e orientações em grupos de mensagens. Nesses espaços, o contraste entre a promessa de vida fácil e as dificuldades concretas já era motivo de críticas.

Nem todos os antigos entusiastas se calaram. Na sexta-feira (6), Luciano Hang divulgou uma nota defendendo o Paraguai, afirmou que escândalos podem acontecer em qualquer país e reiterou a intenção de abrir uma loja da Havan em Assunção.

A crise não apaga as vantagens tributárias reais do Paraguai nem transforma toda decisão de migração em erro. Expõe, porém, o que faltava à propaganda que tratava o país como alternativa sem riscos ao Brasil de Lula: fiscalização bancária, proteção das economias e funcionamento das instituições também importam. O banco entrou em resolução, o presidente caiu e milhares de famílias precisaram cobrar acesso ao próprio dinheiro. Essa parte não aparecia nos vídeos sobre o paraíso.