
Se existe algo que nenhum eleitor de Jair Bolsonaro pode alegar em sua defesa é que foi surpreendido pelo jeito de ser do presidente da República. Ao longo das dezenas de anos de carreira pública que acumula, o ex-capitão do Exército jamais escondeu sua forma de enxergar a realidade e as fórmulas que tem a oferecer para transformá-la.
Nos últimos dias, no entanto, tem sido dito e escrito que Bolsonaro está extrapolando, radicalizando ainda mais seu discurso e mostrando ser ainda mais rudimentar seu modo de agir e pensar do que se imaginava. Causou particular comoção e surpresa a forma como presidente ameaçou prender o jornalista Glenn Greenwald, sem para tanto dizer qual crime ele teria cometido, o que nem seu porta-voz foi capaz de explicar posteriormente.
Certamente não causou surpresa a quem já leu um relatório oficial produzido pelo Estado-Maior das Forças Armadas Brasileiras, cuja íntegra segue abaixo.
https://www.slideshare.net/diariodocentrodomundo/canalha-covarde-e-contrabandista-relatrios-expem-reputao-de-bolsonaro-no-exrcito-dos-anos-80
No documento, há dezenas de anotações feitas por oficiais do Exército sobre condutas desabonadoras de Jair Bolsonaro. Há também relatos da jornalista Cássia Maria Rodrigues, que trabalhava na revista Veja e informou ter sido ameaçada de morte por Jair Bolsonaro, no ano de 1986. Após ter dito à repórter, em entrevista em que solicitou não ser identificado, que preparava um atentado à bomba em dependências do Exército para que tivesse o soldo aumentado, ele a advertiu mais de uma vez para que não colocasse seu nome na reportagem. Assim a jornalista descreveu o episódio às autoridades:
Bolsonaro advertiu-me mais uma vez para não publicar nada sobre nossas conversas. ‘Você sabe em que terreno está entrando, não sabe?’, perguntou. E eu respondi: ‘Você não pode esquecer que sou uma profissional’.’
Mesmo assim, diante de um plano de atentado a bomba nas Forças Armadas, a jornalista e a Veja decidiram desrespeitar o off, e deram o nome do então capitão na revista.
Bolsonaro, então, passou a negar que teria dado a entrevista, disse que tudo não passava de mentiras da jornalista, “só para vender revista”. Isso não o livrou de um processo disciplinar, em que Cássia Maria Rodrigues teve que ir depor em uma unidade do Exército no Rio de Janeiro. Bolsonaro estava lá. E fez a ela um gesto que veio a se tornar famoso anos depois: a imitação de uma arma com os dedos da mão. Depois disso, a repórter passou a andar com seguranças.

Este é Jair Bolsonaro. O mesmo homem que sempre foi. O mesmo homem que, também recentemente, fez pouco caso para uma invasão de terras indígenas por garimpeiros, no Estado do Amapá. Como se sabe, o presidente vem deixando claro seu apreço pelo garimpo e seu desapreço por reservas indígenas e áreas de preservação ambiental. O mesmo relatório do Exército a que se refere esta reportagem, como se pode ver no trecho abaixo reproduzido, também dá conta de não deixar ninguém surpreso quanto a isso.
