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Bolsonaro indica agente de inteligência para embaixador nos Emirados Árabes

Imagem ilustrativa de homem sem identidade segurando um binóculos com algoritmos em uma tela atrás dele.
Bolsonaro indica agente de inteligência para embaixador nos Emirados Árabes. Imagem: Reprodução

O indicado pelo governo federal para o posto de embaixador do Brasil nos Emirados Árabes Unidos, Marcos Rosas Degaut Pontes, é um personagem vinculado à chamada “comunidade” de inteligência e informações.

Marcos Rosas é próximo ao clã Bolsonaro e de militares do alto escalão das Forças Armadas, em especial os bolsonaristas, conforme apurou Jamil Chade em matéria no UOL [29/3].

No currículo em anexo, Marcos Rosas registra mestrado em Relações Internacionais pela UnB [1999], além de licenciatura em Letras [1992] e bacharelado em Direito [2006], ambos pelo Centro Universitário do Distrito Federal.

Ele também menciona como formação acadêmica um PhD [doutorado] em Segurança Internacional pela University of Central Florida, Orlando/EUA [2016], e o curso de especialização em Inteligência pela Escola Nacional de Inteligência, em 1995.

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Diferentemente da menção a respeito dos demais cursos de formação acadêmica, está omitida a instituição à qual a mencionada “Escola Nacional de Inteligência” [ENI] era vinculada em 1995, ano em que Marcos Rosas fez o curso de especialização em Inteligência.

Na época, havia um limbo institucional. O SNI [Serviço Nacional de Informações], criado na ditadura, foi extinto em março de 1990 [governo Collor], e a ABIN [Agência Brasileira de Inteligência] somente foi criada em dezembro de 1999 [governo FHC].

A experiência profissional de Marcos Rosas registra uma trajetória pública quase exclusiva no universo das Forças Armadas, do sistema de espionagem e informações e na área da Defesa.

Atualmente, ele é Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa. Segundo a matéria de Jamil Chade citada no início, Marcos Rosas “se destacou no meio político de ambos os países [Brasil e Emirados Árabes] ao intermediar reuniões com executivos do conglomerado estatal armamentista dos Emirados Árabes Edge Group”.

No período de março de 1994 a agosto de 2000, ele atuou na assessoria internacional do GSI, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, como Oficial de Inteligência.

Não há menção, no currículo, de atividade profissional exercida entre setembro de 2000 e janeiro de 2007. Dando esse salto no tempo, o currículo registra que de fevereiro de 2007 até setembro de 2010 Marcos Rosas desempenhou funções no STJ [Superior Tribunal de Justiça].

E, no período compreendido entre outubro de 2010 e janeiro de 2017, novamente não há menção a atividades profissionais no currículo. Em fevereiro de 2017, ele assumiu como Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no período exercido pelo usurpador Michel Temer.

A Lei 11440 de 2006 não impede a designação de pessoa não pertencente ao quadro profissional do Itamaraty para desempenhar o cargo de embaixador [Art. 41]. No caso da presente indicação, no entanto, do mesmo modo que a respeito do general Gerson Menandro Garcia de Freitas, atual embaixador do Brasil em Israel aprovado pelo Senado em setembro de 2020, tratam-se de designações destituídas de qualquer critério de Estado.

A indicação de um personagem com o perfil de Marcos Rosas Degaut Pontes suscita muitas perguntas, que precisam ser respondidas.

Trata-se, afinal, da indicação de um lobista de empresas de armas; de um operador de interesses faccionais das cúpulas partidarizadas das Forças Armadas; de um representante dos interesses escusos do clã presidencial; ou de alguém relacionado a interesses comerciais obscuros?

Os Emirados Árabes Unidos são um país de fundamental importância no complexo jogo geopolítico internacional e, também, peça-chave na intrincada questão dos combustíveis fósseis, no mercado armamentista mundial e no combate ao extremismo religioso e ao terrorismo.

Em vista desses aspectos, qual o sentido para a indicação de uma figura cuja trajetória é vinculada à comunidade de informações? Em nome de quais interesses ele atuaria?

O governo dos Emirados Árabes já concedeu o ágrement [aceite] e, portanto, a confirmação para Marcos Rosas assumir o posto de chefe diplomático do Brasil naquele país agora depende exclusivamente da aprovação do Senado Federal.

Se aprovar esta indicação sem, no mínimo, esclarecer os inúmeros pontos nebulosos envolvidos, o Senado estará atuando contra os interesses nacionais e do Estado brasileiro.

Anexo: Currículo-Marcos-Rosas

Publicado originalmente por Jeferson Miola

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