A última obra de Ronald Levinsohn: seguranças de uma fazenda de soja na Bahia tentaram matar dois pequenos agricultores

André Guedes e Fernando Ferreira, alvo da violência de seguranças dos produtores de soja. Foto: Reprodução do vídeo gravado por Andy Robinson

O vídeo abaixo é inédito, com o depoimento de dois agricultores que foram alvo do tiros disparados pelos seguranças da Fazenda Estrondo, uma das das maiores produtoras de soja do mundo, que fica no oeste da Bahia. O conflito envolve de um lado investidores milionários como Ronald levinsohn, protagonista de um dos maiores casos de corrupção da ditadura, amigo de jornalistas e de juízes, e de outro herdeiros do legado de Canudos.

O texto é de Andy Robinson e foi publicado originalmente no La Vanguardia, uma das maiores publicações da Espanha:

“Um 4 × 4 da empresa de segurança Estrela Guia se aproximou com dois guardas armados. Discutimos. O guarda sacou uma arma; Corremos, mas o tiro atingiu Fernando. É o testemunho de André Guedes, um jovem agricultor de 23 anos de uma das dez aldeias que tiveram a má sorte de serem engolidas pela gigantesca fazenda de soja Estrondo, no oeste do estado da Bahia: “Estávamos andando em uma mula e Fernando a cavalo para recolher nossas vacas; era uma área onde poderíamos andar antes ”, explicou.

Fernando Ferreira, 22 anos, levantou a calça para mostrar o ferimento de bala. A história desses dois agricultores é a prova de que a expansão implacável da soja no Brasil não apenas ameaça árvores, mas também vidas humanas, conforme explicado no relatório La Vanguardia.

A Fazenda Estrondo ocupa 300.000 hectares em torno do pequeno município de Formosa do Rio Prieto, no oeste da Bahia, adjacente ao Tocantins, uma das áreas vertiginosas da expansão da soja no Brasil. Cerca de 100.000 hectares – 50% da área da fazenda – foram desmatados entre 1993 e 2004 e substituídos principalmente pela soja.

No início deste ano, a fazenda solicitou autorização para destruir mais 25.000 hectares. Mas surgiu um obstáculo, que irritou os investidores multimilionários da fazenda, liderados pelo financista Ronald Guimarães Levinsohn, que morreu na última segunda-feira, aos 84 anos. Levinsohn dirigiu a instituição financeira Delfin, que enganou milhares de poupadores vinte anos antes e, quando vivo, talvez não imaginasse que, diante da soja, estivessem as sete comunidades de agricultores, apenas quarenta e sete famílias, mas com raízes no oeste da Bahia tão profundas quanto as árvores do Cerrado.

Não é de admirar a tenacidade dos agricultores, a maioria afro-brasileiros. Seus ancestrais chegaram ao oeste da Bahia no final do século XIX, depois de participarem da resistência épica de Canudos. Como você pode ler no emocionante romance de Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo, Canudos se tornou um símbolo do trágico heroísmo do povo do Nordeste do Brasil. Liderada por um profeta apocalíptico,  Conselheiro, uma rebelião popular composta de camponeses brancos, escravos fugitivos e indígenas resistiu durante dois anos de cerco e tiros de canhão de tropas federais. No final, quase nada permaneceu vivo.

Mas alguns conseguiram fugir. Os bisavós dos idosos das cinco comunidades da Fazenda Estrondo correram para o oeste e estabeleceram suas comunidades camponesas em Formosa do Rio Preto. Autossuficientes, eles ainda se dedicam a pequenas criações de gado e ao cultivo de alimentos, como feijão e mandioca, além do artesanato famoso da região, o capim dourado. Nos anos 80, Levinsohn se apropriou da área — de maneira fraudulenta,, segundo o instituto responsável pela reforma agrária no Brasil, com a ajuda de grileiros brasileiros que falsificaram os títulos de propriedade.

Ronald Levinsohn em evento com Boni (ao centro), ex-poderoso executivo da Globo

Os camponeses, que, de acordo com a lei brasileira, possuíam direitos de propriedade por terem vivido na área mais de um século, reivindicaram 43.000 hectares de terra que eles usavam principalmente como pasto para o gado.

Desde então, as comunidades camponesas vivem um cerco que lembra o dos rebeldes de Canudos. Produtores de soja ergueram cercas de arame farpado, com trincheiras com três metros de profundidade, além de uma série de postos de controle com torres de vigia ocupadas pela polícia particular da Estrela Guia. As estradas de terra que os agricultores usam para ir de uma comunidade para outra foram bloqueadas. “Estamos praticamente cercados; a soja trouxe muitos problemas; as guaritas e o veneno; quando chove, o rio está cheio de veneno ”, explica André, referindo-se aos agrotóxicos

Os gerentes da Fazenda Estrondo respondem que tudo que faz está dentro da lei. “Nenhuma via pública foi bloqueada e os postos de controle são necessários porque há muitos assaltos e os camponeses destroem os postos”, disse o administrador da fazenda, Daniel Ferraz, em entrevista realizada no Rio de Janeiro. Guardas privados dispararam contra os jovens agricultores dizendo que também estavam armados, o que Guedes e Ferreira negam. Diante das acusações de que houve desmatamento ilegal, ele responde que o requisito legal de manter 20% na reserva legal foi cumprido.

Mas isso é um truque, diz o diácono Martin Mayr, austríaco que vive em Barreiras, capital da soja no estado da Bahia, que denunciou violações contra os agricultores de Estrondo. “Temos um tipo de despejo verde, porque eles querem expulsar os camponeses para poderem incluir suas terras em 20% da reserva protegida”.

Obviamente, as multinacionais do setor de soja não são ignoram o que acontece atrás do arame farpado da Fazenda Estrondo. Há um armazém da Cargill e um armazém da Bunge na periferia da fazenda. Pressão mínima da sede dos dois gigantes da soja nos EUA bastaria para garantir os direitos dos camponeses. Mas a Cargill insiste que “não tem relação com conflitos”, segundo seu porta-voz em São Paulo.

Fazenda Estrondo

PS: É óbvio que não se pode dizer que Levinsohn deu ordem para qualquer atitude de violência contra os pequenos produtores rurais. O que se afirma é que o modelo de negócio implementado na região implica violência contra aqueles que já estavam lá. Além disso, se não houvesse fraude dos grileiros para a produção milionária da soja, não haveria o conflito com os antigos ocupantes.

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