Morre Ronald Levinsohn, protagonista de um dos maiores casos de corrupção da ditadura, amigo de jornalistas e de juízes

Ronald Levinsohn em evento com Boni (ao centro) em SP

POR MIGUEL ENRIQUEZ

Com a morte de Ronald Levinsohn, na segunda feira, 27, aos 84 anos de idade, desaparece o protagonista de um dos maiores escândalos empresarias ocorridos durante a ditadura militar.

Gaúcho da cidade litorânea de Rio Grande, filho de pai judeu inglês e mãe argentina, Levinsohn em apenas uma década acumulou uma fortuna no mercado financeiro, à frente da Delfin, criada em 1969, a principal companhia independente de crédito imobiliário do país. Com 3,5 milhões de depositantes, a empresa era superada apenas pela Caixa Econômica Federal.

Uma águia nos negócios, Levinsohn revelou-se, ao mesmo tempo, um às também  na arte de cultivar as amizades certas, com uma desenvoltura capaz de colocar no chinelo o americano Dale Carnegie, o autor do best-seller Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas.

Seus alvos preferenciais eram políticos, militares e jornalistas. Na área de comunicações, tinha como interlocutores privilegiados nomes como José Bonifácio Sobrinho, o Boni, da TV Globo, Elio Gaspari, então na Veja, e Paulo Francis, que chegou a defendê-lo publicamente quando da quebra da Delfin.

Não se pode esquecer, é claro, das gordas verbas publicitárias para os veículos de comunicação, que o tornaram uma personalidade praticamente intocável, badalado e mimado em suas páginas de economia e negócio ou nas colunas sociais.

Essa condição  levou o jornalista Luis Nassif, que chegou a sofrer prejuízos em sua carreira profissional por enfrentar o poder de Levinsohn, a defini-lo como “o empresário que comprava jornais”.

Enfim, o personagem era uma espécie de Eike Batista da segunda metade do século 20, só que menos histriônico, mais discreto e com mais cabelos.

A casa começou a cair para Levinsohn às vésperas da virada do ano de 1982. Até ali, graças à sua influência política e midiática, o empresário vinha conseguindo com sucesso arrastar durante alguns anos pesadas dívidas junto ao extinto Banco Nacional da Habitação (BNH), estatal responsável pelo financiamento da aquisição de imóveis no Brasil, incorporado à Caixa, em 1986.

Ao todo, a Delfin devia ao banco estatal 70 bilhões de cruzeiros, a moeda da época, equivalente a 250 milhões de dólares. Para reduzir o endividamento, a Delfin propôs ceder ao BNH dois imóveis, um na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e outro em Cotia, em São Paulo, pelo valor de 60,8 bilhões cruzeiros.

Até aí, nenhum problema, não fosse um pequeno detalhe:  na avaliação de técnicos do banco, os dois terrenos valiam bem menos, cerca de 6,3 bilhões de cruzeiros, um sexto do pretendido por Levinsohn.

No entanto, a despeito da disparidade e do alerta da direção do BNH (um diretor, responsável pela área de poupança e empréstimo, pediu demissão, por se opor ao favorecimento à Delfin) a transação foi aprovada, com a benção do coronel Mario Andreazza, ministro do Interior, ao qual o banco era subordinado, operação que chegou a envolver os ministros Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galvêas (Fazenda).

A maracutaia foi revelada na edição do dia 30 de dezembro de 1982 do jornal Folha de S. Paulo, em matéria do jornalista do José Carlos de Assis, que lhe valeu o prêmio Esso de Reportagem de 1983. Foi como um raio em céu de brigadeiro.

Já no primeiro dia útil de janeiro de 1983, milhares de depositantes em cadernetas da Delfin correram às suas agências, resgatando seu rico dinheirinho.

A corrida para evitar o calote levou o Banco Central a decretar intervenção na Delfin, ao mesmo tempo em que transferia suas contas para a Caixa.

Segundo reportagem da jornalista Simone de Oliveira, na edição de 19/01/2018 de O Globo, o objetivo era resguardar os interesses dos clientes, já que haviam sido detectados desvio de depósitos de correntistas no valor de 6 bilhões de cruzeiros, por meio de transações bancárias irregulares praticada pelos diretores da Delfin.

Quando da intervenção, a Delfin devia 77 bilhões de cruzeiros para o BNH. Desde sempre, Levinsohn creditou a intervenção a perseguições promovidas por funcionários de escalões inferiores do BNH. “Foi feito um bom negócio para todo mundo… A intervenção da Delfin é imaginação de pessoas que não sabem de nada”, afirmou na época ao jornal carioca”.

A verdade é que ela veio tarde: pelo menos desde 1978, já era proposta pela diretoria do BNH, e “matada no peito” pelos bons amigos de Levinsohn no governo do general João Figueiredo.

Como mostra a reportagem de O Globo, o caso se arrastou judicialmente por décadas. “Em 1991, o empresário Ronald Levinsohn fez um acordo com o BC: ficar com o que restava da Delfin e pagar a dívida em 13 anos. Nenhuma parcela chegou a ser quitada.”

Finalmente, em março de 2006, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), reconheceu como justo o pagamento da dívida junto ao BNH, com os dois terrenos. Aparentemente a Corte aceitou a tese Mandrake da defesa da Delfin para justificar a transação proposta ao BNH e que foi classificada de estelionato pelo BC. Segundo essa tese, os terrenos deveriam ser avaliados pelo chamado “valor potencial”.

Ou seja, num exercício de futurologia, deveriam ser incluídos os ganhos com prédios e benfeitorias que seriam erguidos no futuro, e não pelo valor real de venda dos imóveis, como costuma acontecer com o comum dos mortais.

Ronald Levinsohn

Mesmo com a reputação afetada pelo escândalo da Delfin, Levinsohn não perdeu a pose, a disposição  de ganhar dinheiro e tampouco abandonou seus métodos pouco ortodoxos de fazer negócios.

Poucos anos depois, ressurgiu no noticiário com o Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro (UniverCidade), uma escola de ensino superior, que chegou a ter 35 mil alunos em seus melhores momentos.

Alvo de um Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, convocada para apurar denúncias de gestões fraudulentas, enriquecimento ilícito, desvios de recursos públicos, lavagem de dinheiro precarização das relações de trabalho, assédio moral, entre outras acusações, a instituição foi vendida ao Grupo Educacional Galileo, em 2011, e descredenciada pelo MEC, em 2014.

O relacionamento de Levinsohn com Márcio André Mendes, dono do grupo Galileo, não se esgotou com a venda da UniverCidade. Dois anos depois, em julho de 2016, a dupla foi indiciada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro, juntamente com mais 16 pessoas, por desvios de 90 milhões de reais dos fundos de pensão da Petros (Petrobras) e do Postalis (Correios), a partir da emissão de título do Galileo.

O esquema foi investigado na Operação Recomeço deflagrada pela Polícia Federal e que apurou os crimes de gestão fraudulenta, desvio de recursos de instituição financeira, associação criminosa e negociação de títulos sem garantia suficiente.

Além da incursão pelo setor educacional, Levinsohn diversificou seus negócios pós-Delfin para as áreas de construção civil e de agricultura, administradas por sua holding, a Colina Paulista.

Ela é proprietária de várias fazendas no oeste da Bahia, com lavouras de soja e milho, cuja área total equivale a catorze vezes à da cidade de Salvador. A região faz parte do Matopiba, fronteira agrícola que une os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Uma delas, a Fazenda Estrondo, seria fruto da grilagem de 444 mil hectares, de acordo com o Livro Branco da Grilagem de Terras, publicado em 1999 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Não por acaso, ultimamente a Estrondo tem frequentado as páginas policiais, envolvida em conflitos com pequenos proprietários locais.

Ao morrer, Levinsohn continuava um homem rico e muitíssimo bem relacionado. Considerado um dos maiores anfitriões do Rio, costumava receber em sua mansão, no Alto da Gávea, convidados estrelados como Boni, a escritora Nélida Piñon, o ministro Dias Toffoli, presidente do STF, generais e economistas, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo.

Mas, por mais dinheiro e amigos de prestígio que tenha acumulado, o ex-dono da Delfin  jamais conseguiu   deixar o passado para trás.

Até seu último dia de vida, o jornalista Alberto Dines, falecido em 2018, por exemplo, não o poupou de suas críticas.

“Ronald Levinsohn foi o responsável pelo grande escândalo financeiro que a ditadura militar não conseguiu encobrir”, afirmava.

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Leia também: A última obra de Ronald Levinsohn: seguranças de uma fazenda de soja na Bahia tentaram matar dois pequenos agricultores

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