Artistas brasileiros denunciam censura e “aberrações” do governo Bolsonaro em Paris. Por Paloma Varón

Aristas brasileiros debatem a cultura no Brasil sob Bolsonaro
RFI

Publicado originalmente no RFI

POR PALOMA VARÓN

Os 750 lugares do teatro Odéon, no luxuoso 6º distrito de Paris, foram poucos para quem se interessou pelo evento “Brasil, a cultura em perigo”, nesta segunda-feira (11), que lotou o espaço e gerou uma longa lista de espera. O debate, que reuniu personalidades brasileiras de várias esferas da cultura, foi uma iniciativa do diretor teatral Thomas Quillardet e da Rede Europeia pela Democracia no Brasil, RED.Br.

O fotógrafo Sebastião Salgado, a filósofa e teórica do feminismo negro Djamila Ribeiro, a diretora teatral Christiane Jatahy, a arquiteta e urbanista Joice Berth, a liderança indígena Sônia Guajajara e o organizador da Festa Literária das Periferias (FLUP), Julio Ludemir, dividiram o palco num debate animado pela jornalista francesa nascida na Martinica Audrey Pulvar.

Outras personalidades do mundo da cultura, como o escritor Milton Hatoum e o ex-ministro da cultura Juca Ferreira, enviaram textos que foram lidos em francês. Outros, como o cineasta Kleber Mendonça Filho, a produtora Émilie Lesclaux e os rappers Nyl Mc e Lucas Afonso mandaram suas participações por vídeo.

‘Há vários meses, a democracia brasileira vem caindo no abismo. A extrema direita no poder, alimentada pela nostalgia da ditadura militar e pelo fundamentalismo religioso, iniciou uma cruzada contra as classes populares, pessoas LGBTQI +, indígenas, ativistas ambientais, defensores dos direitos humanos. A cultura e a liberdade artística estão entre os primeiros setores visados pelo poder de extrema direita, que aboliu o Ministério da Cultura e não hesita em censurar trabalhos com temas que o desagradam”, dizia o texto de chamada para o evento.

Segundo ato

“Este é o segundo ato do espetáculo que apresentamos em junho”, disse a jornalista e mediadora Audrey Pulvar. Ela se referia ao espetáculo, também organizado por Thomas Quillardet, em que personalidades brasileiras e francesas liam as cartas enviadas ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que foi liberado no último dia 8 após 1 ano e sete meses de prisão. Assim como no primeiro ato, neste 11 de novembro, a diversidade foi a tônica.

Em entrevista exclusiva à RFI, Thomas Quillardet explica como se deu esta iniciativa: “Para todas as pessoas que conhecemos o Brasil e a diversidades das suas artes, a gente vê que é um momento extremamente complicado de retrocesso. Constatamos que, para aqueles que vivem das artes, isso se tornou algo insuportável de viver, de ver que artistas que são reconhecidos, amados, que construíram suas vidas por meio da arte estejam sem recursos, sem dinheiro, angustiados, preocupados por conta da destruição de suas ferramentas de trabalho. Por solidariedade, a gente tenta estar com eles e dar a palavra aos artistas brasileiros”.

“O que fizemos aqui, hoje, é algo pedagógico também, para explicar aos franceses o que está acontecendo no Brasil, que os brasileiros possam falar de suas dificuldades, de seus problemas. É algo bastante concreto o que a gente quer dar ao público francês”, afirma.

“É preciso que esta noite seja o começo de alguma coisa. Eu sei que (a diretora teatral) Ariane Mnoushkine tem um projeto de coprodução com artistas brasileiros censurados, que a Prefeitura de Paris tem também projetos de difusão e de produção de artistas brasileiros, então agora precisamos dar aos artistas brasileiros os meios para que eles realizem suas obras”, finaliza Quillardet.

“Aberração”

O organizador da FLUP, Julio Ludemir, abriu o debate falando como as ações afirmativas postas em prática pelo governo Lula possibilitaram que a periferia tivesse espaço e que o público possa conhecer e ler autores como Conceição Evaristo e Carolina de Jesus.

A diretora teatral Christiane Jatahy, que está e cartaz em Paris com a peça “O agora que Demora”, denunciou o desmonte cultural e a criminalização dos artistas feitos pelo governo Bolsonaro e falou da censura que os artistas vivem hoje. “Não é como na época da ditadura, em que a censura era oficial e se censuravam trechos de obras. Agora, ela é velada, mas se censuram obras inteiras, cujas temáticas desagradam. E a justificativa é sempre um problema técnico”, denuncia.

Para o fotógrafo Sebastião Salgado, que veio morar na França em 1969, durante a ditadura militar brasileira, o governo Bolsonaro é uma “aberração”. Ele denunciou a destruição de “tudo o que os governos Lula e Dilma fizeram pelo Brasil” e disse temer que Lula seja “eliminado” agora que está solto e vai percorrer o país e ficará “bastante acessível”.

Tanto ele quanto Jatahy rechaçaram a imprensa brasileira pelo fato de esta não só ter “massacrado tudo o que Lula e Dilma construíram”, quanto por não ter dado “nome aos bois”, ou seja, não ter dito que Bolsonaro era um candidato da extrema direita, discurso ratificado pela produtora Émilie Lesclaux e pelo cineasta Kleber Mendonça Filho, que fizeram participações pré-gravadas em vídeo.

Na sua carta, o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira falou também na “manipulação midiática nas eleições de 2018” e no fato de que o atual governo quer “demolir o pacto social inscrito na Constituição Federal”. Ele usou a metáfora do eclipse para explicar aos franceses a situação do Brasil atual, mas disse que “o sol vai voltar a brilhar”.

A urbanista Joice Berth – que tem livro traduzido para o francês, assim como Djamila Ribeiro – comentou o apelo neopentecostal, “que vem doutrinando a mentalidade do Brasil” e denunciou a estrutura que “quer manter a mulher negra na base da pirâmide social, na subalternidade”. Ela falou em “tragédia nacional” ao citar o governo Bolsonaro.

A filósofa Djamila Ribeiro falou do genocídio do povo negro, “que não é apenas físico, mas também moral e intelectual”. “O racismo é uma estrutura que perpassa todas as relações sociais no Brasil. Não podemos falar de nenhum tema no Brasil sem falar da questão racial’, defende a filósofa, que foi a primeira de sua família a ter acesso à universidade, graças às políticas afirmativas implantadas no governo Lula.

A liderança indígena e ex-candidata à vice-presidente em 2018 pelo PSOL Sônia Guajajara chamou os franceses e europeus à responsabilidade: “Primeiro, à individual, ficando atentos ao que consomem. Depois, no coletivo, pressionando empresas que atuam no Brasil e políticos para não contribuírem com a destruição da floresta tropical”. Sônia falou também dos ricos que os povos indígenas correm hoje em dia: “Atualmente, ao contrário dos outros governos, o extermínio dos povos indígenas faz parte da agenda nacional”, denunciou.

A noite foi fechada com a apresentação de índios de sua etnia, que, além de falarem sobre sua realidade, mostraram um pouco de sua cultura ao público presente no teatro Odéon, reforçando que Paris segue sendo a capital da resistência.

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