Grupos bolsonaristas recomendam “desvacinação” com remédios que podem matar e indicam médicos negacionistas

manifestação cloroquina
Bolsonaristas se manifestam contra vacinação e a favor da cloroquina

Circula nas redes bolsonaristas um comunicado que recomenda o uso de diversos remédios para “desvacinação”.

O texto traz uma lista de “sugestões para tratamento de vacinados”. É fake news na veia.

“Esse tratamento visa evitar ou amenizar os efeitos nocivos [dos imunizantes], que podem ocorrer ou não, conforme as disposições individuais”, diz a introdução.

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O site de um grupo composto por profissionais que oferecem o “tratamento precoce” contra a Covid-19 aparece na mensagem: “Se desejar procure os Médicos pela Vida.”

A nota é direcionada “aos que tomaram a vacina experimental voluntariamente ou por imposição do governo”.

“Uma vez que recebida a injeção, NÃO TEM VOLTA”, alerta.

Um dos maiores absurdos ditos no texto é uma recomendação para “nunca manter relações sexuais desprotegidas com uma pessoa que recebeu mRNA”.

O mRNA, ou RNA mensageiro, é a tecnologia usada nas vacinas da Pfizer e da Moderna.

O comunicado pede que o paciente “seja rápido”, porque a injeção, segundo o virologista belga Geert Vanden Bossche, “vai desligando o sistema imunológico”.

Vanden Bossche ficou famoso entre essa escumalha após publicar em seu site uma carta aberta com críticas à vacinação.

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Comunicado recomendando a “desvacinação”.
Foto: Reprodução/WhatsApp

Para cada imunizante, são indicados remédios diferentes.

No caso da Astrazeneca, que segundo o texto é composta por “metais tóxicos”, recomenda-se a infusão endovenosa de EDTA (ácido etilenodiamino tetra-acético) de cálcio.

Caso a pessoa tenha trombose, deverá aplicar o medicamento 10 vezes em intervalos.

“Como não é possível ‘desvacinar’, para ‘amenizar as complicações e efeitos colaterais’ e prolongar a vida, utilizar estes remédios”, diz a nota.

Print de WhatsApp Médicos pela Vida
Mensagem em grupo bolsonarista com remédios para “desvacinação”.

De acordo com o infectologista Marcos Caseiro, “todos os remédios em doses inadequadas podem levar à morte”.

“Isso é um absurdo. Muitas dessas drogas são injetáveis, não tem o menor sentido isso. É uma das coisas mais ignorantes que já vi na minha vida”, diz.

Um dos fármacos recomendados, a Suramina, era uma droga utilizada para tratar infecções por tripanossoma na África. Segundo Caseiro, os médicos “ressuscitaram isso para utilizar sem nenhum fundamento clínico”.

O comunicado pede ainda que o paciente procure um médico ortomolecular. Uma resolução do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) diz que a prática ortomolecular “não caracteriza especialidade médica nem área de atuação”.

Um dos médicos ortomoleculares indicados é Rubens Azevedo do Amaral, integrante dos Médicos pela Vida, um bolsonarista que ficou famoso por recomendar numa live o uso da ivermectina, medicamento não recomendado para Covid-19.

Na mesma live, ele citou o biólogo Paolo Zanotto, que sugeriu a criação do ministério paralelo da Saúde, para defender que as pessoas não sejam vacinadas na pandemia.

“Ele [Zanotto] diz, claramente: não se vacina em pandemia. Você pressiona as duas pessoas que são os players do sistema: o ser humano e o vírus. Os dois vão se defender e, tentando se defender, um morre e o outro muda. Então, a gente não vacina na pandemia, a gente trata”, afirmou.

Quem são os Médicos pela Vida?

Entre os 70 profissionais que constam no site dos Médicos pela Vida, estão alunos do “guru” do bolsonarismo Olavo de Carvalho, como o médico Carlos Eduardo Nazareth Nigro, de Taubaté (SP).

O médico defensor da cloroquina Luciano Dias Azevedo, nomeado pelo ex-ministro da Educação Abraham Weintraub para o Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), também aparece na lista de profissionais que oferecem o “tratamento precoce”.

Annelise Meneguesso, que também faz parte do grupo, foi candidata a vice-prefeita de Campina Grande (PB) pelo PSL, antigo partido de Bolsonaro, em 2020.

O “movimento” ficou famoso por ter lançado uma nota publicitária em mais de dez jornais no Brasil divulgando o “tratamento precoce”.

Informações descobertas pela CPI da Covid mostram que o incentivo feito por médicos da associação para que as pessoas usassem o kit covid não passou, na verdade, de uma propaganda paga pela farmacêutica de um dos medicamentos.

A peça defendia o tratamento contra ao coronavírus com o uso de cloroquina, ivermectina, zinco e vitamina D. Os remédios, à época, já eram descartados pelas comunidades científica e médica contra a doença.

Ao que se sabe, pelo menos a Vitamedic, que produz a ivermectina, pagou ao grupo pela propaganda. Em dados enviados à CPI da Covid, a empresa informou que aumentou a venda do medicamento em 1.230%.

De acordo com o Código de Ética Médica, o financiamento da campanha pela farmacêutica pode configurar conflito de interesses.