Bolsonaro tem rejeição de 63% entre famílias de baixa renda. Por Miguel do Rosário

Bolsonaristas ao lado de morador em situação de rua. – Foto; Sarah Teófilo

Bolsonaro tem rejeição de 63% entre famílias de baixa renda

Por Miguel do Rosário

O voto das famílias de baixa renda será o fator determinante nas eleições presidenciais de 2022. A afirmação pode parecer óbvia, porque a maioria dos eleitores são pobres, mas não é bem assim.

Em 2018, o voto dos eleitores de classe média é que foi determinante. A partir de núcleos extremamente bem consolidados junto a famíilas mais abastadas, Bolsonaro construiu sua campanha fulminante, que dominou as redes sociais e se espraiou para o eleitorado mais humilde.

A força de Bolsonaro já era muito clara um ano antes das eleições.Uma pesquisa Datafolha de setembro de 2017, ou seja, situada a mesma distância das eleições de 2018 que as pesquisas de hoje estão das eleições de 2022, trazia o então deputado Jair Bolsonaro com 17% das intenções de voto, no cenário com Lula. O seu tamanho crescia, contudo, quando se olhava para alguns segmentos. Entre homens,  por exemplo, ele pontuava 24%. Mais importante, Bolsonaro liderava entre eleitores mais ricos; entre famílias com renda de 5 a 10 salários, por exemplo, ele já tinha 29%, contra 17% de Lula. Entre eleitores com renda superior a 10 salários, Bolsonaro igualmente estava à frente, com 30%, contra 19% para o petista.

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O percentual de Bolsonaro era apenas aparentemente modesto. Apesar de ter ainda pouco voto entre as famílias mais pobres e menos instruídas, já era o campeão da classe média e das redes sociais. E dentro de seu campo, o da direita, não tinha rival a altura.

Esse é mais um dos desafios a serem enfrentados pelos candidatos alternativos hoje, da terceira e quarta vias. Além de uma pontuação baixa, eles não se destacam em nenhum extrato.

Não se tornaram populares junto àquelas camadas de renda média que, em setembro de 2017, já se empolgavam com Bolsonaro, tampouco são conhecidos do “povão”.

Lula, por sua vez, está bem mais forte hoje do que estava em qualquer outro momento do passado recente.

Em setembro de 2017, Lula tinha 35%. Hoje tem 44% (no cenário C, mais enxuto).

Em setembro de 2017, a rejeição a Lula era de 42% e de Bolsonaro, 33%. Hoje, setembro de 2021, a rejeição a Lula é de 38%, contra 59% de Bolsonaro.

Em 2017, a rejeição a Lula entre eleitores com ensino superior era de 60%; agora caiu para 46%. Já a rejeição de Bolsonaro neste segmento, que era de 43% em 2017, hoje é de 62%.

Entre eleitores com ensino médio, que são a maioria, a rejeição de Bolsonaro em 2017 era de apenas 30%; hoje é de 57%. A de Lula, que era de 45%, hoje é 40%.

Entre os eleitores mais pobres, com renda familiar até 2 salários, Lula tinha rejeição de 32% em setembro de 2017; hoje, nesse mesmo extrato, o petista tem 28% de rejeição.

O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, tem uma rejeição espetacular de 63% entre as famílias pobres.

Os cidadãos com renda familiar até 2 salários correspondem a 57% do eleitorado nacional.

Em 2017 e 2018, Lula estava condenado e vinha experimentando sucessivas derrotas na justiça, chegando a ser preso. Hoje o ex-presidente tem acumulado vitórias judiciais a um ritmo alucinante, e não tem mais nenhuma condenação em primeira ou segunda instâncias.

Vamos examinar os números de intenção de voto estimulado (quando o pesquisador apresenta os nomes dos candidatos), por extratos de renda.

Lula parece bem consolidado entre os eleitores com renda familiar até 2 salários, pontuando 54%.

Ele caiu 3 pontos em relação a pesquisa de julho, mas subiu bastante em relação a maio, e a variação parece apenas estatística, dentro da margem de erro.

O Datafolha sinaliza um cenário de acomodação, conforme dissemos em outro post, no qual Lula parou de subir e Bolsonaro, de cair, com modestas oscilações aqui e ali para outros candidatos, quase todas dentro da margem de erro.

Fizemos uma tabela com a evolução da votação espontânea dos quatro principais candidatos nas últimas três pesquisas do Datafolha (maio, julho e setembro) divulgadas este ano.

Lula apresenta um crescimento firme: tinha 21% em maio, subiu para 26% em julho e agora tem 27%. Bolsonaro tem 20%.

Ciro, porém, não conseguiu passar de 2%, e Dória dá traço.

Comparando: em setembro de 2017, Bolsonaro já tinha 9% na espontânea, sendo 14% entre homens, e 18% a 20% junto aos eleitores de classe média.

Ciro pontua 4% nessa faixa de eleitores de classe média, enquanto Doria continua dando… traço.

Bolsonaro, por sua vez, tem 32% a 36% de votação espontânea junto a essa classe média. Ou seja, se os planos de Ciro e Doria se concentram em deslocar Bolsonaro, tirando-lhe do segundo turno, ainda precisam trabalhar muito.

A pesquisa mostra que os pobres estão aderindo a Lula, e a classe média, a Bolsonaro, repetindo uma dicotomia conhecida da política brasileira, sobretudo a partir de 2006.

O Datafolha também traz alguns cenários de segundo turno, nos quais o ex-presidente Lula vence com bastante folga todos os seus adversários: Lula vence Bolsonaro por 56% X 31%, e Ciro por 51% X 29%.

Colhemos os dados extratificados por renda do segundo turno, para analisar como as diferentes classes irão se comportar nesse embate final. O cenário classista é bastante claro: as famílias de renda mais alta tendem a votar novamente em Bolsonaro; as mais pobres, em Lula.

Entretanto, em virtude da altíssima rejeição de Bolsonaro entre os eleitores mais instruídos (o que não se viu nas eleições de 2018), é possível que a perfomance de Lula na classe média seja melhor em 2022 do que em anos anteriores.

O petista até que não vai tão mal assim junto as camadas médias. Entre famílias mais ricas, com renda superior a 10 salários, Lula chegou a liderar em maio, com 45%, contra 34% de Bolsonaro, mas os números se alteraram nos últimos meses, e hoje Bolsonaro lidera com 47%, contra 35% de Lula.

É importante destacar, todavia, que os números extratificados estão sujeitos a margens de erro maiores do que as registradas nas médias gerais, e isso explica essas oscilações bruscas.

Nota-se que Ciro cresceu entre eleitores com ensino superior, atingindo 17% das intenções de voto, segundo o Datafolha.

Para efeito de comparação, um ano antes das eleições de 2018, o então deputado Jair Bolsonaro tinha 8% entre eleitores com instrução até ensino fundamental, 24% entre eleitores com ensino médio e 22% entre eleitores com ensino superior. Bolsonaro era líder ou vice-líder nesses extratos.

Hoje Ciro tem uma pontuação razoável entre eleitores com ensino superior, mas está num distante terceiro lugar.

Outros obstáculo para o crescimento da terceira via é a hegemonia de Lula e Bolsonaro junto aos eleitores menos instruídos.

Em setembro de 2017, apenas Lula tinha boa pontuação nesse extrato; havia uma vaga aberta. Hoje são dois candidatos com força entre os eleitores menos instruídos, estreitando os caminhos para a passagem da terceira e da quarta vias.

Conclusão

As eleições brasileiras permanecem capturadas pela força de duas grandes lideranças populares, Lula e Bolsonaro, cada qual representando setores muito claros da sociedade.

Lula representa pobres, intelectuais progressistas, estudantes, liberais nos costumes, trabalhadores assalariados.

Bolsonaro representa os ricos, conservadores nos costumes, empresários, intelectuais reacionários.

Uma das tabelas divulgadas pelo Datafolha, com a pontuação espontânea dos candidato por ocupação principal, traz Bolsonaro com 47%, contra 8% de Lula entre eleitores que se identificaram como empresários. As vantagens mais expressivas de Lula nessa tabela estão nas colunas de estudantes, desempregados e donas de casa.

Seria importante, portanto, que o campo progressista começasse a trabalhar, desde já, numa plataforma de comunicação que conseguisse melhorar o diálogo com estes setores ainda tão atrelados politicamente ao governo Bolsonaro.

A terceira via de Ciro Gomes, por sua vez, cumpre um papel irônico. Com sua inegável energia, Ciro consegue se manter firme, com seus 9% a 12%, em condições absolutamente inóspitas. Não cair abaixo disso já é uma vitória para a campanha do pedetista.

Com isso, porém, Ciro bloqueia a entrada de uma quarta via, de orientação mais liberal (na economia), e conservadora (nos costumes), características que permitiriam a um candidato furar a muralha bolsonarista e roubar votos ali.

A aposta de que Bolsonaro poderia se esvaziar e ficar fora do segundo turno, por sua vez, é um sonho cada vez mais distante, o Datafolha mostra que o presidente e seu governo continuam perdendo popularidade, mas ainda mantém uma base sólida, entre 20% e 30%, e possui redes sociais abertas e fechadas excepcionalmente bem estruturadas. As redes fechadas de Bolsonaro, como o Telegram e os grupos de Whatsapp são blindadas contra influência externa. Quebrar essas bolhas, esse universo paralelo do ultraconservadorismo brasileiro, será um enorme desafio para a oposição como um todo, e tarefa quase impossível para a terceira ou quarta vias.

Lula tem a vantagem de ter a sua própria bolha. Ele não precisa penetrar na bolha bolsonarista. As vias alternativas, sim, precisam, porque desejam tirar Bolsonaro do segundo turno.

Neste sentido, talvez fosse saudável para todos que houvesse um entendimento entre os candidatos de oposição, para evitar ataques mútuos e focar no isolamento crescente do bolsonarismo, por mais que o cenário hoje pareça promissor para a oposição, já temos experiência suficiente para saber que será, de uma forma ou de outra, um embate extremamente difícil, especialmente em virtude do poderoso aparato de comunicação montado pelo presidente da república.

(Texto originalmente publicado em O CAFÉZINHO)

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