Bolsonaro usou as redes para anunciar lobby da cloroquina sem citar nome dos laboratórios de amigos

Jair Bolsonaro anuncia ligação para o primeiro-ministro da Índia, mas omite lobby. Foto: Reprodução/Facebook

Em 4 de abril do ano passado, Jair Bolsonaro anunciou que estava em contato com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para solicitar insumos para a produção da cloroquina.

Hoje (10), mais de um ano depois da ligação, foi revelado que o presidente estava fazendo lobby por duas empresas brasileiras chefiadas por bolsonaristas.

À época, isso não foi dito.

Ele anunciou somente que solicitou “apoio na continuidade do fornecimento de insumos farmacêuticos para a produção da hidroxicloroquina” e que “Brasil e Índia continuarão grandes parceiros pós-crise do coronavírus, e não mediremos esforços na luta para salvar vidas”.

Os diálogos revelados hoje mostram, no entanto, que o presidente estava atuando em favor de duas empresas brasileiras: a Apsen, de Renato Spallici, e a EMS, de Carlos Sanchez.

“O sucesso da hidroxicloroquina para tratar a Covid-19 nos faz ter muito interesse nessa remessa indiana. Estou informado de que um carregamento de 530 quilos de sulfato de hidroxicloroquina está parado na Índia, à espera de liberação por parte do governo indiano. Esse carregamento inicial de 530 quilos é parte de uma encomenda maior, e foi comprado pela EMS”, afirmou.

“Adianto haver, também, mais carregamentos destinados a uma outra empresa brasileira, a Apsen. Este, como eu dizia, é um apelo humanitário que submetemos a nosso prezado amigo Narendra Modi, e que, se atendido, poderá salvar muitas vidas no Brasil”, prosseguiu.

Bolsonaro justificou que o pedido de liberação da cloroquina se dava por “uma questão humanitária”.

Leia o diálogo na íntegra:

Jair Bolsonaro: Primeiro-ministro Narendra Modi, fico muito feliz em falar com o senhor novamente.

Narendra Modi: Muito obrigado pelo telefonema.

JB: Pouco tempo atrás, participamos de videoconferência do G-20. O grupo passou uma mensagem positiva, de união e confiança no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. Expresso ao governo e ao povo indianos nossa inteira solidariedade pelo momento que seu país e, também o nosso, atravessa.

Entrarei diretamente no assunto. Embora não haja, por ora, divulgação oficial, temos tido resultados animadores no uso de hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com a COVID-19. Gostaria, por isso, em nome do governo brasileiro, de fazer um apelo ao amigo Narendra Modi para que obtenhamos a liberação de importações de sulfato de hidroxicloroquina feitas por empresas brasileiras

Precisamos, por uma questão humanitária, dos insumos farmacêuticos – em particular, de sulfato de hidroxicloroquina – que nossas empresas compram da Índia.

O sucesso da hidroxicloroquina para tratar a Covid-19 nos faz ter muito interesse nessa remessa indiana. Estou informado de que um carregamento de 530 quilos de sulfato de hidroxicloroquina está parado na Índia, à espera de liberação por parte do governo indiano. Esse carregamento inicial de 530 quilos é parte de uma encomenda maior, e foi comprado pela EMS

Adianto haver, também, mais carregamentos destinados a uma outra empresa brasileira, a Apsen. Este, como eu dizia, é um apelo humanitário que submetemos a nosso prezado amigo Narendra Modi, e que, se atendido, poderá salvar muitas vidas no Brasil.

NM: Agradeço, mais uma vez, seu telefonema. Somos solidários com o Brasil na luta contra a Covid-19 e com os brasileiros que a contraíram. A Índia vem buscando enfrentar a pandemia de várias formas. Temos plena consciência da gravidade da situação. Também depositamos grandes esperanças nos tratamento experimentais em curso. O Brasil é um país amigo, com o qual temos estreitado nossas relações. Sua recente visita ao nosso país, para o Dia da República, fortaleceu ainda mais os vínculos bilaterais. A Índia, com certeza, fará todo o possível para ajudar o Brasil.

Neste momento, estamos avaliando nossas necessidades internas e os estoques de que dispomos: o vírus se propaga rapidamente e a população indiana é de mais de um bilhão de pessoas. Além disso, outros problemas têm surgido em nossa luta contra a pandemia: estamos passando, no momento, por três semanas de confinamento nacional completo, medida que gera grandes dificuldades. Temos feito esforços para manter em operação os serviços essenciais.

Dedicaremos, certamente, cuidadosa atenção ao pedido do Brasil, ao mesmo tempo em que concluímos a avaliação de nossos estoques e definimos as necessidades internas de produção. Instruirei funcionários do governo indiano a manter estreito contato com suas contrapartes brasileiras.

Lamento, realmente, que tenha havido uma notificação para sustar as exportações indianas antes da partida de um carregamento destinado ao Brasil. Sei que esse carregamento é uma pequena parcela de uma encomenda maior apresentada a uma empresa indiana. Estamos trabalhando por sua liberação, à luz da avaliação de nossas próprias necessidades.

JB: Espero que esse carregamento inicial de 530 quilos possa ser confirmado — isso já nos traria bastante alívio. Aguardaremos a decisão do governo indiano. Estou seguro de que o senhor também considerará com a melhor boa vontade a liberação do restante das encomendas para o Brasil, depois de avaliar seus estoques e sua capacidade de produção. Reitero o quanto estou feliz com este contato, pelo qual lhe sou grato. O Brasil está à sua disposição. De nosso lado, também ajudaremos com tudo que esteja a nosso alcance.

NM: Entendo, naturalmente, sua iniciativa de realizar esta chamada. Ressalto que levo muito a sério a questão que me trouxe. Determinarei a minha equipe que siga em contato com o lado brasileiro. Faremos nossa avaliação tão prontamente quanto possível. Nossa atitude com relação ao Brasil é positiva.

Há mais um assunto que me permito levantar. Esta crise exige que olhemos o mundo por um novo prisma. Parece que uma nova ordem emergiu, em um curto espaço de tempo. É possível falar em um mundo anterior e posterior à pandemia, assim como falamos em um mundo anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. Quero convidá-lo a refletir a respeito do futuro que se apresentará para nossos países.

JB: Concordo inteiramente com sua análise. Constatamos que a economia mundial vai sofrer bastante – na verdade, já está sofrendo – com a pandemia de Covid-19. Este momento favorece uma união ainda maior entre nossos países, inclusive do ponto de vista humanitário. O aprofundamento da cooperação entre o Brasil e a índia é de interesse para nossos povos e para todo o mundo. Se Deus quiser, teremos, em breve, a oportunidade de nos reencontrarmos e de conversar sobre essa nova ordem que virá.

NM: Assim espero. Estendo nossos melhores votos ao senhor e a todo o povo brasileiro.