Bolsonaro virou o polegar e deixou que as mortes acontecessem em Manaus. Por Denise Assis

Publicado originalmente no Jornalistas pela Democracia

Por Denise Assis

O presidente Jair Bolsonaro Foto: Evaristo Sá / AFP

Pessoas morrendo nas calçadas, containers frigoríficos com corpos empilhados à espera de vagas na frente dos hospitais, macas com doentes agonizantes, containers transformados em UTIs, às pressas, onde médicos tão afobados quanto inexperientes, entubavam com urgência pacientes e, não raro, perfuravam os seus esôfagos, no afã de acertar a aparelhagem de intubação em suas gargantas, na tentativa de levar uma gota de ar que fosse para os seus pulmões.

A descrição detalhada e feita com intensa carga de emoção na voz, pelo epidemiologista e pesquisador em Saúde Pública, Jesem Douglas Yamall Orellana, dos quadros da Fiocruz do Amazonas, podem parecer saídas das páginas de “Elogios à cegueira”, de Saramago, mas foram testemunhadas por ele, em janeiro deste ano (2021), quando a capital do Amazonas, Manaus, foi mergulhada no abandono sanitário, pelo governo federal. Aquele início de mês e nos 20 dias que se sucederam, foram de morte e desespero, mas para Bolsonaro, a cidade podia oferecer alguns importantes resultados que se sobrepuseram a qualquer quantidade de corpos que o município pudesse produzir.

Enquanto nos corredores das unidades de saúde o choro e o desespero sinalizavam para o mundo que as vidas que se desprendiam daqueles corpos tinham valido a pena e plantado amor nas suas famílias, fazendo-as implorar para que fossem salvas, numa “reunião interministerial”, como definiu o ex-ministro Eduardo Pazuello, ao depor na CPI da Covid-19 (a CPI do Genocídio), Bolsonaro virou para baixo o polegar. Tal como um imperador romano ele resolveu que não haveria intervenção federal na saúde do Amazonas, a fim de colocar ordem no caos em que havia se transformado, apesar dos apelos do governador, o jornalista Wilson Lima (PSC).

Conforme revelou Pazuello, questionado na CPI pelo senador Eduardo Braga (MDB) – autor do pedido de intervenção federal, sobre o porquê a solicitação não foi acatada -,  o depoente, disse que a decisão não era dele e foi tomada durante reunião de Bolsonaro com ministros.

“Essa decisão não era minha. Ela foi levada à reunião de ministros com o presidente. E o governador, presente, se explicou, apresentou suas observações. E foi decidido pela não intervenção. Foi dessa forma que aconteceu”, esclareceu Pazuello, com o mesmo tom com que discorreu sobre as iniciativas do governo, no início de sua fala no Senado. Formam-se, dentre outras coisas, “peritos em logística”, no Exército brasileiro, mas pelo visto não ensinam em seus bancos escolares o valor de uma vida e sobre sentimentos e emoções.

No restante do país, Bolsonaro resolvera que diante da pandemia temida em todo o planeta, a solução estava em que a população levasse vida normal, assim o vírus circularia entre o maior número de pessoas, proporcionando uma imunidade conhecida no meio científico como “imunidade de rebanho”. E para garantir que todos acreditassem ser possível levar a rotina sem risco de morrer pela Covid-19,  seu governo ofereceria a este “rebanho” caixinhas de um remédio – hoje vendido na farmácia num conjunto de 30 comprimidos ao valor de R$ 80,90, ou na opção mais em conta, com seis comprimidos ao preço de R$ 16,90.

Desde o início, Bolsonaro fez questão de passar a ideia de que era “só uma gripezinha”, por isto era importante afastar medidas que pudessem ser interpretadas como de “emergência”. Em um artigo que enviará para uma revista no exterior, na próxima semana, Jesem descreveu as condições de Manaus desde o início da propagação do vírus: “mesmo recebendo o maior volume de estrangeiros de toda a Amazônia, a cidade de Manaus só começou a fazer o monitoramento remoto de passageiros que desembarcavam no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, a partir de 26 de março de 2020. Ademais, inexistia testagem em massa em março/abril e pouca capacidade instalada para vigilância genômica (acompanhamento) do novo coronavírus. Em 2021, o Amazonas, seguiu sem fazer testagem em massa”, denuncia.

Segundo ele, “a primeira morte por Covid-19 foi notificada na cidade em 27 de março de 2020. Duas semanas depois, a rede médico-assistencial entrou em seu primeiro colapso, junto com a rede funerária, evidenciando descontrolada transmissão comunitária. Câmaras frigoríficas foram instaladas na parte externa dos principais hospitais da cidade, para empilhar o explosivo número de mortos, dentro e fora dos hospitais. Além disso, Manaus protagonizou enterros coletivos que chocaram a humanidade”.

A partir de junho de 2020, Manaus, apresentou desaceleração na epidemia, levando o então Ministro da Saúde, General Eduardo Pazuello, a minimizar a situação epidêmica ao dizer que “o estado do Amazonas é completamente diferente da curva da região Norte e do Brasil. Uma curva muito mais clara, onde o pico já passou e o número tende a normalidade no final da curva”.

Conforme a exposição de Orellana – o epidemiologista que tem nome de personagem de Garcia Marques -, a descrença em relação ao avanço da epidemia no Amazonas era nítida. “Não por acaso, em agosto de 2020, o Amazonas, realizou o menor número de exames RT-PCR (padrão-ouro para o diagnóstico de Covid-19), da série histórica, conforme se observa na Figura 1. No mês seguinte, setembro de 2020, mesmo diante do discreto aumento de exames em relação aos meses de julho e agosto, a positividade de amostras (número de exames com confirmação para a presença do novo coronavírus) foi elevada, de 29,2% (IC95%: 27,9-30,6), chegando ao crítico percentual de 53,5% (IC95%: 52,9-54,0) em janeiro de 2021, o segundo e mais violento pico de contágio e mortalidade da Covid-19 na segunda onda”.

Orellana diz que “no período, de 23 de agosto a 12 de setembro de 2020 (semanas epidemiológicas 35 a 37), o então Prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, inspirado em recomendações de cientistas, propôs um “Lockdown” para conter o avanço da epidemia, o qual foi quase que imediatamente classificado como ‘absurdo’ por Bolsonaro e descartado pelo Governador do Amazonas, Wilson Lima”.

“O erro de avaliação dos governos federal e estadual, bem como a falsa promessa de imunidade de rebanho pela via natural, parece ter sepultado a resposta sanitária que poderia ter limitado a evolução da segunda onda e, quem sabe, a forte e rápida disseminação da variante de preocupação P.1 (B.1.1.28) ou até mesmo a sua emergência/surgimento”, lamenta.

De acordo com levantamentos que fez, ele conta que “ficou configurado que de 13 de setembro a 03 de outubro de 2020 Manaus vivia o primeiro pico de mortes da segunda onda, com risco de 12,1 (IC95%: 10,5-14,0) para cada 100 mil habitantes”. diante do sustentado e significativo agravamento da epidemia de Covid-19, o governo estadual seguia negando a segunda onda, mas tratava, de forma furtiva, a partir de setembro de 2020, de aumentar o número de leitos clínicos e de UTI, sob o pretexto de preparação para o período sazonal das síndromes gripais, que acontecem entre fevereiro e abril.

“Fica claro que as ações coordenadas pelo Ministério da Saúde estão temporalmente encadeadas”, reage. Em 21 de julho de 2020, Pazuello defendeu o uso precoce de medicamentos ineficazes contra a covid-19 (https://bit.ly/3owAFOU). Em 24 de agosto de 2020, afirmou: “Nosso tratamento precisa ser precoce e imediato” (https://bit.ly/2Sb6kJC).

Vieram as eleições municipais em novembro, quando mais de um milhão de manauaras foram às urnas no primeiro e no segundo turno, em plena segunda onda e, possivelmente, quando a variante P.1 pode ter começado a circular.

Em 03 de dezembro de 2020, o ministro voltou ao tema em um encontro com representantes da Saúde do Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia”: “o tratamento precoce fez diferença no enfrentamento à Covid-19 no Brasil”, disse, na ocasião. Curiosamente, no dia 30 de dezembro de 2020, mesmo sem ainda assumir o mandato de Prefeito de Manaus, David Almeida, prometeu enfrentar a epidemia com o kit Covid.

Depois de inúmeros alertas sobre a gravidade da segunda onda em Manaus, a tragédia sanitária começou a ficar escancarada em dezembro de 2020.

Entre 10 de dezembro e 31 de janeiro de 2021, o número de leitos clínicos passou de 324 para 1.954, um aumento de 500%. Já o de leitos de UTI foram de um total de ocupação de 193 para 691. Apesar dos repetidos apelos e proposições de “Lockdown”, Manaus jamais o implementou.

Ainda em dezembro de 2020, o Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária, além dos 3 milhões de comprimidos já entregues ao longo do ano, pela Fiocruz, e em cenário de franca redução nos índices de malária no Brasil, solicitou a bizarra produção extra de mais 25% no número de comprimidos de Cloroquina à instituição. Supostamente para tratar malária. Nos últimos anos, porém, os casos de malária têm caído no Brasil.

Em 2020, por exemplo, a queda foi de 10%, em comparação com 2019. Orellana aponta quedas expressivas observadas também nos principais estados malarígenos do Brasil como Amazonas, Pará e Amapá.

“Ora, se os casos de malária estão caindo sequencialmente, qual a razão para o pedido à Fiocruz para produzir a mesma quantidade de comprimidos em 2020? Por que o laboratório químico farmacêutico do Exército produziu milhões de comprimidos com dispensa de licitação? Por que a Fiocruz produziu 25% a mais de comprimidos de Cloroquina?”, questiona.

Em sua opinião, “o governo federal precisa explicar para quem foram destinados esses comprimidos, inclusive os recebidos de outros fornecedores ou estruturas do governo que deram vazão a essas drogas ineficazes contra a covid-19 como exército, aeronáutica, outros ministérios, estatais e conselhos da área econômica”.

O epidemiologista relatou que em janeiro de 2021, o Ministério da Saúde enviou ao Amazonas, de forma surpreendente, 224.140 comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina, praticamente a mesma quantidade do que em todo o ano de 2020. “Desse total, 66.320 comprimidos foram apressadamente distribuídos em Manaus nos primeiros 14 dias de janeiro de 2021. Qual o motivo?”, quer saber.

No dia 07domesmo mês, estranhamente, foram derramados 47.960 comprimidos de Cloroquina (200 mg) somente em Manaus. No dia 11de janeiro de 2021 , a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde, Mayra Isabel Correia Pinheiro, enviou um ofício à Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (https://bit.ly/3uWly3T), solicitando autorização para visitar as unidades básicas de saúde de Manaus destinadas ao atendimento de pacientes com suspeita de Covid-19. Seu intuito era difundir e adotar o tratamento precoce, alegando suposta comprovação científica dessas drogas, algo jamais confirmado e que contraria o próprio artigo que ela publicou na revista de Direito Sanitário. Orellana ironiza, dizendo: “se arvorou a escrever sobre bioética em relação ao uso de medicamentos na pandemia” (Confira o artigo:  https://bit.ly/3hBGJ7o).

Dias depois, (12/01/2021), Pazuello circulou por Manaus, cidade onde cresceu e vive, e reafirmou: “o medicamento estará disponível na rede de saúde”, ao mesmo tempo em que o Presidente Bolsonaro disse: “o governo federal precisou intervir em Manaus (AM), porque não faziam tratamento precoce na cidade” (https://bit.ly/3owFSGH).

Também em 12/01, um dia depois da Shádia Fraxe, Secretária Municipal de Saúde de Manaus ter sido formalmente envolvida na trama, ela veio a público esclarecer: “Reforçamos a importância do tratamento precoce para evitar que o quadro clínico se agrave. Não é necessário confirmar o diagnóstico por testes para iniciar o tratamento. Se, clinicamente, o paciente apresentar sintomas que sugiram Covid-19, já recebe tratamento e seu quadro de saúde será monitorado por pessoal capacitado para isso”.

Dois dias depois, (14/01), Manaus foi inundada por mais de 18.000 comprimidos de Cloroquina (200 mg). Na semana seguinte, (em 19/01), o ministro Pazuello começou a negar que recomendou tratamento precoce(https://bit.ly/2S8bdTM), mesmo sabendo que o governo Bolsonaro concentrou o envio de cloroquina a aliados de diferentes regiões do país.

No esteio da sequência de erros cometidos pelos diferentes níveis da gestão em saúde, ainda em janeiro de 2021, diante do colapso da rede médico-hospitalar e das centenas de mortes fora dos hospitais devido à desassistência médica, Jesem Orellana aponta que “os governos federal e estadual, reuniram esforços para enviar aproximadamente 600 pacientes de Covid-19 para importantes metrópoles de diferentes regiões do país. Foram acompanhados de familiares, os quais viajaram com recursos públicos ou próprios, em contexto de massiva circulação da variante de preocupação P.1 no Amazonas, a qual viria a se disseminar fortemente e de forma inédita pelo país semanas depois.

“O fato é que em abril de 2021, o Brasil se tornou o epicentro da pandemia e chegou a responder por cerca de 1 em cada 4 óbitos por Covid-19 no planeta. Ademais, das mais de 400 mil notificações de mortes por Covid-19 no Brasil, desde março de 2020, um pouco mais da metade ocorreu nos primeiros quatro meses de 2021, ocasião em que a transmissão comunitária do novo coronavírus atingiu seus maiores níveis, em cenário de amplo relaxamento das medidas sanitárias e da forte circulação de variantes de preocupação como a P.1”, lamenta Orellana.

Essa tragédia evitável, além de ter resultado na perda de milhares de vidas (direta e indiretamente) e no vultuoso desperdício de recursos públicos, em tempos de crítico sub financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), deixou sua marca mais imediata não apenas nas vítimas diretas que sobreviveram à Covid-19, seja por meio de traumas psicológicos ou de um vasto leque de sequelas físicas, como também acarretará outros efeitos residuais de médio e longo prazo, como na redução da expectativa de vida da população ou aumento das desigualdades, devido a piora de indicadores como o do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), por exemplo.

Em 19 de maio de 2021, Pazuello enfrentou a CPI da Covid. Ao mesmo tempo em que demonstrou no Senado que se aplicou nas aulas de mídia training, deixou claro que do ponto de vista psicológico não teve o mesmo empenho para o autodomínio. A sessão teve que ser interrompida depois que Eduardo Pazuello ameaçou ir ao chão tamanha a palidez que lhe acometeu.

Toda a verve exibida nas respostas complexas e controversas, com a visível finalidade de “enrolar” a plateia, cansar os inquiridores e salvar a si e àquele que manda, e ele obedece, sumiu, entre almofadas de um sofá, para onde foi levado a fim de recobrar a condição de se por de pé. Agora, seu lugar será ocupado pela secretária Mayra Isabel Correia Pinheiro, que sem conseguir no Supremo Tribunal Federal, um habeas corpus semelhante ao de Pazuello, terá que meditar e fazer exercícios de Yoga, para discorrer sobre seu tour por Manaus, onde fez farta distribuição de Cloroquina. A menos que queira, ela também, protagonizar um desmaio.