Chamamento público mostra que prefeito mente sobre ‘tarifa zero’ no transporte de SP

Nunes, ao contrário do que prega, não tem estudo nem dados que justifiquem seu desejo de implantar a gratuidade no transporte municipal

Atualizado em 19 de março de 2023 às 12:15
Ricardo Nunes e o presidente da Câmara, Milton Leite: tarifa zero na base da pressão

Bastou o DCM denunciar a omissão e o descaso para a prefeitura de São Paulo se mexer com relação aos assuntos relacionados ao setor do transporte público municipal.

Neste mês, o secretário Ricardo Teixeira, que nunca deu as caras nos encontros do Conselho Municipal de Transportes e Transito, decidiu comparecer a duas câmaras temáticas, da mobilidade a pé e da bicicleta.

Detalhe: pediu desculpas por estar se integrando aos grupos pela primeira vez.

Tarifa zero: quem acredita?

Outra denúncia do DCM também acaba de se revelar certeira.

Mostramos que a intenção de Ricardo Nunes de implantar a tarifa zero no transporte municipal – a administração já subsidia o sistema em 60% do seu custeio – não passava de jogo de cena visando o processo eleitoral de 2024, no qual o prefeito vai tentar a reeleição.

Batata. Contrariando o que o próprio prefeito sempre disse – que os estudos já estavam sendo feitos – a administração agora aparece com um chamamento público para receber projetos e estudos sobre o tema.

O chamamento público, publicado na sexta, 17, demonstra que o prefeito mente quando diz que a administração tem estudos em andamento sobre a implantação da tarifa zera em SP

Tudo isso a pouco mais de um ano da eleição e numa cidade grande e complexa como São Paulo.

“Esse chamamento causou enorme desconfiança nas redes onde ocorrem debates sobre transporte”, comentou Antônio Sampaio Amaral, integrante do CMTT.

“O primeiro motivo é o fato de que a alta administração da prefeitura sempre tem virado às costas a toda e qualquer participação nas discussões institucionais sobre transporte. O Secretário de Transportes nunca participou de nenhuma reunião dos Conselhos de Transporte e seu 2º homem abre as reuniões e depois se retira”.

A implantação da tarifa zero é uma pauta defendida pela esquerda desde o governo de Luiza Erundina (1989 a 1992).

Foi a centelha para a crise institucional que resultou nos protestos de junho de 2013, que, sequestrados pela extrema-direita, abriram caminho para a prisão ilegal de Lula, a derrubada de Dilma e finalmente a ascensão do fascismo, personificado pela figura de Bolsonaro.

Milton Leite e o golpista Temer

Ricardo Nunes tem dois chefes políticos, um formal e outro informal, que exerce seu poder de mando na base da pressão.

O chefe formal é o golpista Michel Temer, a quem a família de Nunes serve há 50 anos. O informal é o presidente da Câmara dos Vereadores, Milton Leite.

É o segundo que tenta impor ao prefeito o constrangimento da tarifa zero, mesmo que o assunto cause ojeriza no seu eleitorado, conservador e adepto do liberalismo típico do vale-tudo do mercado.

Bruno Covas, de quem Ricardo Nunes era vice, assinou com sorriso no rosto o decreto retirando a gratuidade do transporte público municipal aos idosos de 60 a 65 anos.

A medida começou valer em 1o de fevereiro de 2021, ano em que Nunes tomou posse – o prefeito só reverteu a situação, no segundo semestre do ano passado, após o Tribunal de Justiça julgar inconstitucional manobra da Câmara de Vereadores que aprovou a indignidade, ordenando restabelecer o benefício.

Para se ter ideia da contradição dessa bandeira da tarifa zero no espectro político que dá sustentação a Ricardo Nunes, basta lembrar que no início do mês o vereador Fernando Holiday, seu aliado na Câmara Municipal, causou tumulto numa audiência pública sobre o tema, chamando os participantes de “vagabundos” (assista o vídeo no final do artigo).

“Para os defensores da proposta, o chamamento público é visto com muita cautela devido a desconfiança com as reais intenções do governo”, diz o conselheiro Antônio Amaral.

“O que o movimento teme é se tornar massa de manobra. Muitos acreditam que se a proposta fosse para valer a prefeitura deveria iniciar as discussões fazendo seminários sobre o tema, trazendo especialistas e experiências de todo o país, como feito na audiência pública da Câmara. Alguns dizem que começou de forma virtual por que os dirigentes do governo estão com medo de serem chamados de vagabundos por sua tropa de choque parlamentar em algo ao vivo e em cores”.

Na sexta-feira, 31 de março, o Conselho Municipal de Transportes e Trânsito, se reúne novamente. No ultimo encontro, conselheiros acenderam vela e cantaram parabéns a você para marcar o primeiro ano de ausências do secretário Ricardo Teixeira.

Neste período, o assunto tarifa zero jamais chegou a ser mencionado pelas autoridades municipais. Agora, com o chamamento público, talvez seja momento para o secretário discorrer sobre as reais intenções da administração.

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