Ciro manda “às favas os escrúpulos”. Por Miguel do Rosário

Ciro Gomes
Ciro Gomes – Foto: Reprodução

Ciro manda “às favas os escrúpulos”

Por Miguel do Rosário

A entrevista de Ciro Gomes para o podcast do Estadão Notícias significou não apenas o rompimento da trégua que o próprio Ciro Gomes havia proposto, dias atrás, após constatar, na manifestação em 2 de outubro, o elevado grau de animosidade que havia cultivado contra si em amplos setores da esquerda.

Ela representa também o seu momento Delfim Neto, de mandar “às favas, os escrúpulos”. Ou seria, “às favas, a estratégia?”

A entrevista de Ciro Gomes ao Estadão mostra um personagem que tenta se vender como um outsider revolucionário, que irá fazer fazer, se eleito, uma reviravolta completa no “modelo econômico” e na “governança política”.

Entretanto, o ex-ministro parece mais preocupado em atacar o seu ex-aliado do que explicar como fará isto.

O que parece mais preocupante a muita gente, porém, é a impressão crescente de que a Ciro também está faltando bom senso. Ciro repete que o PT, Lula e Dilma destruíram a economia.

Isso um exagero retórico, naturalmente. O PT governou de 2003 a 2015. Em 2016, o impeachment foi realizado em abril, então não pode ser colocado mais na conta da administração petista.

Nesse período, a média de crescimento foi razoável. Hoje em dia, por outro lado, os economistas mais sensatos tem repetido que o povo não se alimenta de PIB, e que tão importante quanto o crescimento econômico é se existe, dentro do país, mecanismos eficazes de redistribuição de renda e ascensão social. Em outras palavras, a economia está fazendo o bem às pessoas?

A crítica ao “nacional-consumismo” que Ciro, inspirado em Mangabeira Unger, faz à política econômica dos governos petistas, tem um lado válido, mas pode assumir um ar esnobe se não fizer jus ao que se fez de bom.

O “nacional-consumismo” petista tirou muita gente da fome e da miséria, de um lado, e criou escolas técnicas, universidades e centros de pesquisa, de outro.

Mesmo do lado da “indústria”, que é um ponto tão sensível do projeto nacional de desenvolvimento de Ciro Gomes, deve-se ponderar que houve um razoável esforço por parte das administrações petistas, ou pelo menos de um parte delas.

Estudo do economista Paulo Morceiro, um dos maiores críticos do processo de desindustrialização vivido pelo país desde a década de 80, mostra que houve alguns setores industriais estratégicos que avançaram durante os governos petistas.

Por exemplo, o setor industrial de alta e média-alta tecnologia cresceu a uma média anual de 4,7% de 2004 a 2013, contra uma média de 3,8% da economia como um todo.

A participação desse mesmo setor na produção manufatureira do país cresceu de 34,7% em 2003 para 39,7% em 2013.

O problema industrial se concentrou, nesse período, no setor de baixa e média-baixa tecnologia, cujo crescimento médio anual foi de 1,4%, abaixo da média da economia.

Morceiro explica, num de seus ensaios sobre o tema,  que há uma tendência natural, em todas as economias desenvolvidas ou em desenvolvimento, de desindustrialização em setores de baixa e média-tecnologia, por causa da revolução mundial provocada pela China, que absorveu grandes partes dessas manufaturas. O problema do Brasil seria sobretudo de “timing”. O Brasil perdeu indústria mais que os outros, e de forma precoce.

Mas esse retrocesso da indústria não era generalizado. Havia setores industriais estratégicos que avançavam, ao menos antes que a Lava Jato chegasse em 2014, arrasando tudo. Sigamos.

Às vezes, Ciro interrompe o tiroteio contra o PT e o direciona a Bolsonaro, afirmando que ele “quebrou as contas públicas”, e que “nunca vi a situação fiscal tão precária e trágica”. Isso também é exagerado.

Bolsonaro quebrou o mercado de trabalho; matou milhares de brasileiros com seu negacionismo; e impõe um sofrimento inaudito a milhões de famílias, ao reduzir dramaticamente os programas sociais e permitir, com sua incompetência, a volta da inflação. Mas as contas públicas vão bem, obrigado.

As receitas fiscais voltaram a crescer a nível federal e estadual. Houve um aumento imenso da dívida pública, mas isso se deu sobretudo por causa dos gastos necessários ao combate à pandemia.

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O problema de Bolsonaro não são as finanças públicas, ou pelo menos não nessa acepção liberal, que apenas olha para o curtíssimo prazo.

O problema econômico mais grave do governo Bolsonaro são as finanças das famílias brasileiras, cada vez mais asfixiadas pelo desemprego e pela inflação.

Em seguida, Ciro Gomes afirma que tem o palpite de que “Bolsonaro não está nas eleições”.

Olha,  fazer análise ou traçar estratégias com base em palpites desse tipo é muito fácil – e infinitamente perigoso.

O próprio Ciro Gomes admite, ainda na entrevista ao Estadão, ter mordido a língua quando não via nenhuma possibilidade de Bolsonaro se eleger.

“Eu jamais acreditei que Bolsonaro tivesse quaquer chance, a mais remota possível”.

Ora, as pesquisas já indicavam, a um ano da eleição, que Bolsonaro era o campeão da classe média, junto a qual ele já liderava em intenção de votos.

Ciro errou naquele momento e erra hoje. Claro que tudo pode acontecer. Inclusive nada. Pode um meteoro cair exatamente no Palácio do Planalto e aniquilar todo mundo que estiver dentro.

Entretanto, tirante algum cataclisma, tudo indica exatamente o contrário, ou seja, que Bolsonaro chegará forte às eleições de 2022, e será um candidato competitivo.

O pedetista observa que “os presidentes que não sofreram impeachment mostraram capacidade de conciliação, até do ponto de vista do suborno. Tá lá o FHC comprando votos para sua reeleição, Lula montando o mensalão, depois o petrolão, loteando o brasil com essas mesmas figuras que hoje estão aí”.

Admito, levemente constrangido, que já fui um jornalista extremamente panfletário. Mas quem, jornalista ou não, não o foi em algum momento? Também já fiz acusações semelhantes a Fernando Henrique Cardoso. Amadureci e hoje sou mais cuidadoso com as palavras.

É constrangedor, todavia, assistir a um homem experiente como Ciro Gomes, com décadas de vida pública, sendo tão leviano em suas acusações a FHC.

A gente se pergunta com quem Ciro pensa em governar desse jeito? Bolsonaro é genocida. Seu entorno é de “picaretas”. O MDB é golpista. O PSDB é liderado por um corrupto que comprou sua reeleição.

O lulopetismo é corrompido e Ciro diz, qual o corvo de Poe, que “nunca mais”… Não sobra ninguém?

Alguns líderes mais próximos de Ciro respondem que ele governará “com o povo”. Que povo?

“Eu ganharia as eleições do Bolsonaro. Todas as pesquisas mostravam que meu problema era superar a fração relativa do PT no primeiro turno. A força dominante em 2018 era uma reação natural, a repulsa ao Lula e ao PT”, diz Ciro.

De fato, havia pesquisas que mostravam um bom desempenho de Ciro no segundo turno com Bolsonaro em 2018. Mas não eram todas as pesquisas. Em várias, ele também perdia. Dar uma de profeta do passado é uma postura meio ridícula.

A força dominante das eleições em 2018, segundo Ciro, era “a repulsa ao Lula e ao PT”.

Sim, isso talvez seja verdade. É o que muitos analistas dizem, inclusive eu. Mas é preciso passar à página seguinte: até onde essa repulsa era justa, baseada em informações corretas, em avaliações objetivas, ou em mentiras, manipulações judiciais e midiáticas, exageros irracionais, e até onde era uma repulsa arraigada, profunda, ou um sentimento transitório?

É muito difícil avaliar as coisas no momento em que elas acontecem. Por isso, historiadores preferem escrever sobre períodos ocorridos há muito tempo, cujas paixões já se assentaram. Igualmente, passados três anos das eleições de 2018, alguns fatos se clarearam. Por exemplo, agora é evidente, pelas pesquisas, e pela observação empírica das redes sociais, que uma parte da repulsa a Lula e ao PT era um sentimento transitório, que se desfez nos últimos anos, através da comparação com as barbaridades cometidas por Bolsonaro e, em seguida, pelo desenlace surpreendente e feliz dos processos judiciais contra a Lula.

“Lula e PT levaram a corrupção ao centro do modelo de governança política deles. Essa centralidade da corrupção, e sua generalização como prática absolutamente orgânica de ontem e de hoje do PT, fizeram com que a Lava Jato tiveram a atenção que teve”.

Essas são as acusações mais graves que Ciro faz a Lula e ao PT.  É uma tese que arrasta inclusive o próprio Ciro Gomes, que foi ministro de Lula e um de maiores defensores de seu governo, durante a crise do mensalão. O irmão de Ciro foi ministro da Educação de Dilma. Ciro apoiou Dilma em 2010, em 2014, e em 2016 largou seu emprego para lutar contra o impeachment. É curioso que, com toda essa participação, com todo esse histórico de lealdade e aliança, ele agora promova a tese lavajatista do “mar de lama”.

“A tragédia brasileira é que Moro troca os pés pelas mãos, vira político, um ambicioso sem limite”, diz Ciro, falando em seguida algo sobre agências de inteligência estrangeira. Aparentemente Ciro alimenta a tese de que a CIA participou do golpe contra Dilma.

Ciro denuncia a Lava Jato por atuar “de forma suspeita, para destruir empresas e os grandes protagonistas da política brasileira, confundindo pessoa física com pessoa jurídica”. A narrativa de Ciro é esquizofrênica.

De um lado, ele admite que Moro é um bandido, e que a Lava Jato atuou de forma suspeita, de outro ele tenta tirar vantagem da narrativa lavatista, criada por Moro, para fundamentar sua teoria de que Lula levou a corrupção para o centro da governança política.

E aí vem uma pérola: “Lula, sendo culpadíssmo, tem coragem de dizer ao povo que foi absolvido”.

Depois de toda a luta política e jurídica que fizemos nos últimos anos, que envolveu a comunidade jurídica nacional, de todos os credos, a liberal, a progressista, a marxista, até mesmo a conservadora, até o ponto em que se construiu uma espécie de consenso tácito, de que não podemos deixar a política contaminar a justiça, depois de tudo isso, essa frase de Ciro Gomes machuca nossos ouvidos!

Ora, se Lula não tem mais nenhuma condenação na justiça, então ele tem todo o direito de se declarar inocente e absolvido! A tentativa de fazer a confusão entre a culpa política, que é subjetiva, e a culpa jurídica, que apenas se materializa na condenação – em terceira instância! – da pessoa pelo sistema de justiça, é um jogo sujo nocivo a um debate democrático e saudável.

Neste sentido, Ciro parece um petista… dos anos 80. Todo o campo democrático e progressista amadureceu muito nos últimos anos. Ninguém se tornou complacente com a corrupção. Ao contrário! Agora está mais claro que nunca a necessidade de ampliarmos a transparência das despesas públicas e a autonomia dos órgãos de investigação. Mas também estamos todos infinitamente mais alertas contra a manipulação dos escândalos, o falso denuncismo, além desse problemão que trouxemos para o Estado Democrático de Direito que é essa excrescência: a delação premiada.

Perguntado porque a classe política “foi incapaz de derrubar Bolsonaro”, Ciro respondeu que a “tal classe política está fracassando de forma clara e orgânica”. Então ele dá os exemplos:

“FHC e PSDB nunca mais ganharam eleição nacional.” “Lula que replica o mesmo modelo [que FHC], vai parar na cadeia.” “Dilma replica o mesmo modelo, é cassada.” “Temer replica o mesmo modelo sai pela porta dos fundos.” “Bolsonaro replica o mesmo modelo e está desmoralizado.”

Todos esses, segundo Ciro, seguiram o mesmo “modelo de governança política”, controlados que foram por um   “estamento político” convertido em lobista do baronato das finanças do país.

Os silogismos de Ciro são falhos. As razões que levam o PSDB a não ganhar eleições são uma, a que levam Lula a prisão, outra, assim como também devem existir outras causas para o impeachment de Dilma. Colocar tudo na conta da “governança política” é uma tolice.

Ademais, Ciro força a barra ao equiparar os modelos econômicos, como se as diferenças no volume de investimentos em infra-estrutura e programas sociais, entre um governo e outro, fossem triviais.

Ciro faz uma leitura meio adolescente sobre o tripé econômico usado em todos os governos pós-redemocratização. Ora, todo governo precisa adotar uma política cambial, algum tipo de meta de inflação e algum tipo de regra de controle fiscal.  As intensidades, os prazos, as modelagens, podem ser diferentes, mas é difícil se distanciar dos padrões internacionais.

Romper o lobby do dinheiro, num país capitalista, não é evidentemente a tarefa de um cavaleiro solitário da política. Será uma aventura de várias gerações. Essa é justamente uma das razões pelas quais é tão importante educar o povo, oferecer cultura, emancipá-lo das urgências econômicas mais dramáticas – para que ela possa se somar a luta pelo aprofundamento da democracia!

Emancipar a política da influência do dinheiro só é possível com um povo altamente organizado, e isso é um processo.

E aí começa a parte mais pesada da entrevista, se é que isso é possível.

O repórter fala na “trégua” pedida por Ciro em suas redes sociais. Ele, malandramente, provoca o ex-ministro, citando uma resposta de dirigentes do PT (acho que da Gleisi), dizendo que está “está em paz” com Ciro há muito tempo. Também lembra entrevista recente de Lula, em que ele sugere que Ciro deve “pensar antes de falar”.

Preparado o terreno, o repórter lança o fósforo aceso: “a sua relação com o PT ficou inconciliável ?”

Foi a deixa pra Ciro explodir novamente: “sim, não com o PT, mas com o lulopetismo corrompido e neoliberal tosco minha relação está definitivamente encerrada.”

A tentativa de separação que Ciro faz entre o PT e o lulopetismo é uma diletância inútil. Não existe diferença entre os dois. Nunca existiu. Lula é criador do PT, foi presidente da república duas vezes pelo PT, é o presidente de honra do PT, e é pré-candidato pelo PT.

O PT é lulopetista, assim como o PDT, no auge de Brizola, era “brizolista”.

Ao chamar o lulopetismo de “corrompido e neoliberal”, Ciro sai do campo da crítica programática, e promove um ataque de baixo nível ao partido mais forte e mais organizado do sistema político brasileiro. É uma estratégia perigosa, que irá cultivar ainda mais animosidade contra Ciro junto aos militantes, simpatizantes e eleitores petistas. Quando Ciro faz isso num cenário tão fortemente polarizado como o de hoje, ele se expõe a uma enxurrada de críticas negativas. Não é preciso ser expert em teoria política para saber que um candidato precisa que os eleitores gostem dele, e não que o odeiem. Ciro criou, em torno de si, uma militância valente e aguerrida, mas que já está na defensiva há muito tempo. Com essa estratégia, ele também expõe sua militância e seus apoiadores.

“Não estou pedindo paz ao PT.” Muito provavelmente, após os acontecimentos no 2 de outubro, Ciro se viu pressionado, por seus próprios aliados no partido, a recuar em seus ataques ao PT. Por isso a história de “trégua”. Só que o pedido pegou mal entre seus militantes mais agressivos, porque soou como recuo ou debilidade. Ciro deve ter notado isso e deu um cavalo de pau.

Ao fazer isso, todavia, Ciro deve ter irritado justamente aqueles a quem antes prometeu baixar a bola. Não é difícil imaginar a tensão crescente dentro do PT com o caminho escolhido pelo pedetista.

“Será que Bolsonaro aconteceu por acaso”, Ciro faz a pergunta retórica ao repórter, e ele mesmo responde:

“Não. Bolsonaro aconteceu por causa da irresponsabilidade criminosa e corrupta do sr. Luis Inácio Lula da Silva.”

A acusação é um exagero ridículo. É como acusar o presidente socialista da República de Weimar, Friedrich Ebert, pela ascensão do nazismo.

Misturar moral e política, e forçar a mão no conceito de culpa, é um caminho que não leva a lugar nenhum. Todo mundo tem culpa pela ascensão de Bolsonaro, eu, Ciro, Lula, a Globo, os bancos, a classe média, a apatia dos sindicatos, o imperialismo. Esse exercício de autoflagelação, porém, é infecundo. É hora de olhar para frente.

Avaliar os erros de passado, tudo bem. Falar em culpa, é perda de tempo!

Ciro acusa Lula pela irresponsabilidade de “impor alguém sem aptidão para o cargo, que desastra o país”, referindo-se a Dilma.

As referências a Dilma serão todas assim na entrevista, o que justificará a resposta dura da ex-presidenta em seguida.

Só que a narrativa de Ciro, mais uma vez, é exagerada. A influência de Lula na escolha de Dilma como sua sucessora é inegável, mas não foi completa. Dilma não foi “nomeada” presidenta por Lula. Foi eleita pelo voto popular. Duas vezes. Se fosse tão inapta assim, não teria sido reeleita. E as forças que se ergueram contra ela, a partir de 2014, com a Lava Jato e a ascensão da extrema-direita, não arrastariam apenas Dilma. Inúmeras lideranças políticas enfrentaram problemas dramáticos, derivados dessa associação semifascista entre justiça, mídia e setores reacionários. O PDT de Ciro Gomes também sofreria, com a prisão absolutamente arbitrária e injusta, por exemplo, de Rodrigo Neves, no meio de seu mandato, ao final de 2018, como prefeito de Niteroi.

O ex-ministro cita então um comentário do cientista político da USP, Carlos Alberto Almeida, que teria feito uma observação, de fato, infeliz, ao dizer que Ciro foi vaiado e agredido no 2 de outubro porque teria atingido o sagrado, e o sagrado seria Lula.

Lula não é sagrado, e qualquer afirmação nesse sentido é uma violação perigosa ao princípio republicano. Lula é um político mortal e exposto ao erro humano. Pode e deve ser criticado.

Entretanto, Lula é a liderança popular mais querida do país, em especial pelas pessoas mais humildes e por aqueles envolvidos nas lutas sociais, como militantes sindicais e de movimentos.

Uma crítica excessivamente violenta a Lula gera reações negativas, assim como aconteceria a Vargas e a Brizola. Ciro Gomes, estudioso da vida nacional e da política, deveria saber o lugar que as lideranças populares ocupam no imaginário social de países tão desiguais como o Brasil. Ignorar isso é negacionismo. O povo defende, por instinto, as suas lideranças. Muitas vezes até exagera, mas não há nada mais humano, e nada mais autenticamente democrático, do que o amor do povo por seus herois políticos.

Nesse momento da entrevista, Ciro tenta forçar a tese de que Lula “não quer” o impeachment, o que é mais uma delirante teoria de conspiração.

Ciro lembra que se “a gente quiser fazer o impeachment honestamente, tem de lembrar como funciona o impeachment. Funciona com 342 deputados votando sim pelo impeachment”.

Diante dessa constatação, o pedetista acha que uma participação mais ativa de Lula mudaria alguma coisa? O capital político de Lula é dependente exclusivamente da expectativa dos votos populares que receberá em 2022. Só. Entre os deputados fisiológicos e reacionários da Câmara, a influência de Lula é absolutamente zero. Ou mesmo menor que zero, porque qualquer movimentação de Lula neste sentido poderia, ao contrário, forçar os deputados a demonstrarem um apoio a Bolsonaro que já não é tão grande.

Ciro diz que “Lula sabe que o povo tem repulsa grave, e que exige a punição para Bolsonaro”, e que ele, Lula, “está simulando [um apoio ao impeachment]”.

Esse esforço de Ciro de saber até mesmo as intenções mais secretas de Lula é outra coisa ridícula. Além disso, sua análise política, como de praxe, é fraca.

O povo repudia Bolsonaro, mas não está interessado em impeachment, e isso porque faz uma leitura mais realista e pragmática do que Ciro. O povo intui que um processo de impeachment, a um ano da eleição, será desperdício de energia. E o povo não tem energia sobrando para gastar.

O ex-ministro volta a atacar Lula lembrando que denunciou ao ex-presidente, em pessoa, que ele [Lula] não deveria “entregar” Furnas a Eduardo Cunha, que usaria a estatal para roubar e comprar deputados. E que Lula, após ter-lhe prometido não fazê-lo, cedeu às pressões e assinou a nomeação.

É uma acusação leviana. Uma ilação. Naturalmente, foi um erro gravíssimo de Lula. Mas até prova em contrário, é só isso. Um erro. O jogo bruto da política nacional, com as exigências dos partidos por espaço no governo, não é um problema apenas do Brasil. É a vida real democrática desde que o mundo é mundo. É triste também que Ciro recaia nesse “moralismo de goela” que ele mesmo outrora tanto denunciava. Não existe nenhum milagre para mudar isso de uma hora para outra. Ciro conhece a história de Getúlio Vargas, então deveria saber o que o líder trabalhista, em nome da estabilidade, foi obrigado a fazer inúmeras concessões em seus governos.

De um militante socialista de dezesseis anos, perdoa-se a ingenuidade. De um velho e experiente veterano da política brasileira, não!

Em seguida, Ciro passa para outra de suas obsessões: Eunício Oliveira, presidente nacional do MDB do Ceará e um de seus maiores inimigos políticos. Ciro diz que “ficou sabendo” que Lula “pessoalmente mandou 1 bilhão de reais”, para uma empresa de Eunício, a Manchester, sem licitação e fraudando outros fornecedores da Petrobras.

“Ou isso é verdade ou é mentira. Não tem negócio de ilação. Se eu estiver mentindo, Lula tem que me processar. Mas isso é verdade, pela saúde do meu filho.”

É uma loucura. A Petrobras é uma empresa mista, administrada profissionalmente, dotada de um Conselho onde participam diversos membros notórios da iniciativa privada.

A decisão da estatal de transferir recursos para um prestador de serviço tem de passar por inúmeras camadas burocráticas e corporativas; em seguida é alvo de incontáveis auditorias, para não falar das devassas promovidas pela Lava Jato, dentre outras investigações independentes.

Diante disso,  pintar a imagem de Lula levando pessoalmente 1 bilhão de reais da Petrobras para Eunício Oliveira é um insulto a inteligência!

O próximo alvo de Ciro é o ex-presidente Michel Temer. Apesar de ter sido um traidor asqueroso, um golpista deplorável, Michel Temer ainda mantém diálogo com setores importantes a sociedade. O militante comum, o jornalista independente, nós podemos xingá-lo à vontade. Mas é novamente leviano, e na contramão do espírito garantista da era pós-lavajatista que vivemos, o que Ciro faz com Michel Temer, de chamá-lo de corrupto e vinculá-lo a ladroeira no porto de Santos.

Ciro também tem sido um grande crítico das conversas que Lula tem mantido com caciques do MDB que apoiaram o golpe.

Francamente, eu acho que essa é uma das críticas mais infantis do pedetista. A nossa própria experiência já provou que a única maneira de combater o golpe não é gritar “não vai ter golpe” e sim promover as articulações políticas necessárias para contê-lo no futuro. Aliás, o erro de Dilma foi justamente esse: conversar pouco.

Lula está corretíssimo em conversar com as mais diversas lideranças políticas. Isso não tira pedaço de ninguém, tampouco cria qualquer obrigação política. Ciro aposta no tensiomanto, no confronto. Lula aposta no diálogo. O histórico de vitórias eleitorais de Lula e a sua posição hoje nas pesquisas provam que a população aprova o comportamento do petista.

É preciso dialogar, inclusive com quem apoiou o golpe, mesmo que fosse para seguir aquela velha máxima chinesa, de manter os inimigos sempre próximos.

Perto do final da entrevista, Ciro põe para fora o seu mais novo delírio: “hoje eu estou seguro que o Lula conspirou pelo impeachment da Dilma”.

Trata-se, evidentemente, de um disparate. Tanto é que Ciro Gomes voltou ao tema hoje, na quinta-feira, num vídeo postado em suas redes sociais, para ajustar a história. Agora ele diz que  “Lula foi responsável pela desestabilização” da presidenta Dilma.

Ora, responsável pela desestabilização qualquer um pode ser. Na entrevista ao Estadão, Ciro acusa Lula expressamente de conspirar pelo impeachment. É diferente.

Não preciso discorrer sobre o absurdo dessa proposição. É uma dessas mentiras que definham sozinhas, por sua própria falta de sentido. Entretanto, ela nos faz duvidar um pouco da sanidade mental de Ciro. Além de cultivar, em sua militância, um espírito de conspiração que é muito negativo.

Negativo porque é profundamente antipolítico. Quando a política perde a objetividade e começa a tolerar teorias de conspiração, perde-se capacidade de diálogo; porque cada um inventa uma história maluca para si e para os outros, e ninguém se entende.

(Texto originalmente publicado em O CAFÉZINHO)