Claudia Leitte é o Morgan Freeman do genocídio. Por Nathalí Macedo

Claudia Leitte foi uma das convidadas do ‘Altas Horas’. Foto: Reprodução/Globo/23.05.2021

“O dia em que pararmos de nos preocupar com o genocídio de mais de 400 mil pessoas e a falta de vacinas no Brasil graças a um governo negacionista, a pandemia desaparece”.

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Essa célebre frase de Morgan Freeman adaptada à nossa terrível realidade pandêmica poderia facilmente resumir a (vergonhosa) participação da cantora Claudia Leitte no Altas Horas.

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Questionada por Serginho Groisman sobre “o que a deixa indignada”, a cantora respondeu que “tem um coração pacificador”.

“Eu me indigno, sou capaz de virar tudo pelo avesso, de chutar as barracas, mas acho que todo mundo tem um lugar onde pode brilhar uma luz para desfazer o que está acontecendo e se essa luz se acende, obviamente, não vai ter escuridão.”

Me pergunto se ela teria coragem de dizer isso – mesmo imbuída de toda a sua contumaz insensibilidade – a uma família enlutada pela morte de um ente querido levado por uma doença para a qual já se tem vacina. Ou a quem perdeu o emprego no meio da pandemia e não sabe como pôr comida na boca dos filhos. Ou a quem vive um inferno todos os dias sendo violentada dentro da própria casa (lembremos que a violência doméstica aumentou mais de 50% graças ao isolamento social).

Aliás, não que a futilidade e a alienação não combinem perfeitamente com a personalidade que Claudia Leitte vende desde sempre, mas ser incapaz de apontar uma só indignação vivendo no país de Bolsonaro é demais até pra ela.

É fácil ser “gratiluz” quando se tem boa saúde, uma boa casa, trabalho digno e meia dúzia de empregados, mas a “positividade tóxica” destilada pela loira em pleno horário nobre não é apenas falta de noção: é uma escolha de não assumir publicamente uma posição política, escolha que ela vem adotando há muito tempo (desde sempre?), e que resulta, na atual conjuntura – sem medo de exagerar – em um apoio velado ao genocídio que assistimos diariamente no Brasil.

Ao ser pressionada pelos fãs para que se posicionasse – às vésperas das eleições de 2018, quando Bolsonaro era “apenas” uma tragédia anunciada -, ela respondeu que “Com amor, conseguiremos fazer uma revolução”. 

E agora, Claudinha, como podemos trazer de volta os defuntos despejados nas valas comuns a partir da “revolução do amor”?

Ainda bem – na verdade, me sinto constrangida até mesmo por usar a expressão “ainda bem” em um momento como este -, mas ainda bem que nem só de Claudias é feita a classe artística.

A atriz Déborah Secco, que dividia o palco com Claudia Leitte e Ana Maria Braga, deu a resposta que o Brasil inteiro – ou ao menos a parcela de nós que não é negacionista – gostaria de dar: “O que me indigna mesmo é a gente normalizar as piores coisas e simplesmente seguir em frente.”

Enfim alguém que parece saber que é nossa obrigação dizer não à naturalização do absurdo. Não tá tudo bem – e normalizar a barbárie, acreditem, é parte do problema. 

Quando você é artista – ou se diz artista – num país onde um genocídio tem sido executado sob os olhos de todos, você não pode se dar ao luxo de não se posicionar. Você não pode, sobretudo, atribuir isso ao seu “coração pacificador.”

Positividade tóxica em meio ao caos, à morte, à fome, à miséria e ao colapso no sistema de saúde não tem nada de “pacificador.” É egoísmo puro.

Completando a cortada merecida em rede nacional, Ana Maria Braga respondeu que a falta de vacinas “por todos os motivos que já se sabe, é só ligar o telejornal” é o que a indigna.  Falar sobre a falta de vacinas – recusadas onze vezes por um governo que tem a morte como projeto – é a resposta obrigatória de qualquer brasileiro que não compactua com esse genocídio ao ser questionado sobre sua própria indignação.

E assim como é obrigação de todo artista se posicionar, temos todos nós o dever de não prestigiar o trabalho artístico de quem acha OK ser “neutro” em um país como o Brasil e em uma realidade na qual existe o bolsonarismo.

Parem de seguir influencers que aglomeram e têm a pachorra de postar nos stories. Parem de ouvir quem fala em “gratidão” quando a pressão popular pelo impeachment e pela criminalização dos genocidas bolsonaristas é o único caminho possível. Cancela-se tanto por muito menos – por quê não cancelar quem se mostra desumano em meio a uma crise sanitária?

“O dia em que pararmos de dar IBOPE a gente como Claudia Leitte, a falta de noção desaparece (das manchetes).”

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