Coco Bambu: o ridículo nunca foi tão lucrativo. Por Nathalí Macedo

 

O vídeo mais deprimente da semana é também o mais viral, e não vou ser eu a te poupar dessa vergonha alheia: os funcionários do Coco Bambu – pobres proletários tentando pagar o aluguel – foram obrigados a participar de uma cena lastimável na inauguração de um dos restaurantes da franquia em Sorocaba.

Uma espécie de coach dos delírios burgueses puxando um coro animado em uníssono: “Coco Bambu chegou!” Como uma espécie de líderes de torcida da deep web, animadoras do pós-apocalipse.

“Eu tô abismado porque: é uma inauguração do Coco Bambu, no começo parece mais uma palestra de coach, em menos de um minuto eles viram a Gaviões da Fiel” foi a melhor definição twittada.

Depois de viralizarem – não pela comida, mas por terem atingido o auge do ridículo – a direção se pronunciou: os sócios afirmaram que se tratava de um momento de “celebração”.

Claro, agora está tudo explicado.

Celebração, amigas. Todos vacinados, nenhuma nova cepa matando as pessoas, um presidente competente e honesto, gasolina 2,89. É momento de celebrar.

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Não podemos nos dar ao luxo da ingenuidade: é claro que nada disso interessa aos ricos (ou mesmo à classe média sem consciência de classe, os chamados pequenos burgueses). Pequenos burgueses que, aliás, também frequentam o coco bambu. Fazem das tripas coração (porque, dizem, é caro), mas frequentam. Um esforço hercúleo pra se ser cafona, vai entender.

Os ricos – e a classe média mais alienada que o Brasil “democrático” já produziu – não têm nenhuma outra preocupação além de manter seus próprios privilégios. Por isso – somente por isso – odeiam o PT e foram massa de manobra do golpe.

Mantendo seus privilégios, vão ao Coco Bambu.

Aliás, depois da cena lastimável viralizar, o restaurante foi um dos assuntos mais comentados do Twitter na tarde de ontem.

Uma das coisas horríveis e inevitáveis do algoritmo: a gente não pode nem achar algo ridículo em paz, sem correr o risco de promover o que queremos criticar.

Aposto que mais ricos vão ao Coco Bambu depois dessa. E mais pequenos burgueses farão das tripas coração pra irem também. Porque onde a gente vê o supra sumo do mal gosto, eles veem afirmação irrefutável de potencial aquisitivo.

De finèsse. De pedigree. Rico que é rico leva a cafonagem como bandeira.

E o Coco Bambu Sorocaba, graças à habilidade inata de um coach ser ridículo e viralizar por isso, dá as boas-vindas a um período de abundância e muita vergonha alheia lucrativa.

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