Com a morte de Bruno Covas, Temer comandará SP pelas mãos de Ricardo Nunes. Por José Cássio

O agora prefeito e a mulher Regina Carnovale, que chegou a fazer B. O. contra ele por agressão doméstica. Imagem: reprodução redes sociais

Com a morte de Bruno Covas de câncer neste domingo, 16, quem passa a mandar em São Paulo não é o vice Ricardo Nunes, mas um velho golpista: Michel Temer.

Sim, você leu bem.

O ex-vereador chegou ao cargo mais importante da principal cidade brasileira pelas mãos de seu padrinho político, que impôs seu nome aos tucanos em troca de duas coisas: o tempo de TV do MDB e a promessa do partido apoiar João Doria numa eventual candidatura à presidência, em 2022.

Nem mesmo seus colegas de Câmara Municipal acreditaram quando Ricardo Nunes surgiu dizendo que seria o vice do então prefeito que tentava a reeleição.

Não demorou para virar motivo de piada: afinal, como poderia um parlamentar de baixo clero, implicado em investigações por superfaturamento no aluguel de creches conveniadas com a prefeitura e de ter sido acusado de violência pela própria esposa assumir o segundo posto mais importante da principal cidade do país?

Alguns ainda desconheciam que o dono da Nikkey, empresa criada em 1997 e que domina o setor de controle de pragas no Porto de Santos, controlado por muitos anos por Temer, tem uma relação orgânica com o ex-presidente desde os tempos do velho PMDB quando sua mãe arregimentava bases na zona Sul da capital e cidades próximas para garantir as sucessivas eleições do golpista à Câmara dos deputados.

O golpe de sorte veio em 2012, quando Temer aproximou Nunes de  Gabriel Chalita, que disputou prefeitura da capital pelo MDB.

Com trânsito entre empresários de pequeno porte de Santo Amaro e arredores, Nunes abriu espaços para Chalita, que retribuiu aproximando o então candidato a vereador do setor mais conservador da igreja católica.

A parceria assegurou a cadeira na Câmara – elegeu-se com 30.747 votos – e São Paulo ganhou um parlamentar comprometido com a “bancada da Bíblia” – Nunes faz oposição aberta à educação sexual e para igualdade de gênero nas escolas e, não satisfeito, ainda surfa na onda do projeto Escola sem Partido.

Jamais foi o candidato da preferência do PSDB, tampouco de Covas.

Baleia Rossi e Temer agora dão as cartas no Palácio do Anhangabaú, sede da prefeitura de SP

Ao contrário. O agora prefeito tem mágoa dos tucanos.

Desde março, quando a saúde de Bruno desandou de vez, fala todos os dias com Temer e com o deputado Baleia Rossi, também emedebista, para a composição do governo que se inicia, para desespero dos tucanos pendurados na prefeitura.

O PSDB que se prepara para tentar recuperar a presidência não se preocupou um ano atrás de abrigar num posto chave um então vereador obscuro e alvo de piada que carrega nas costas uma folha corrida digna de Temer e um discurso falso moralista alinhado com a extrema-direita bolsonarista

Já escrevi aqui que Bruno Covas foi o segundo pior prefeito de São Paulo, atrás apenas de Celso Pitta.

Na época do então apadrinhado de Paulo Maluf se dizia que a capital era tão grande e poderosa que nem Pitta conseguiria destruí-la.

A máxima se revelou verdadeira – SP continua mesmo pujante.

Espera-se que o destino se repita agora, sob o comando de um empresário que começou vendendo propaganda em jornal de bairro – Nunes fundou o Hora de Ação, que atendia pequenos comerciantes em Capela do Socorro e Grajaú – e enriqueceu ao ser levado pelo padrinho influente para prestar serviços de combate à pragas no Porto mais importante do país.

Com Nunes na prefeitura, Temer volta para o jogo político, quando ninguém mais acreditava que ele pudesse renascer e sair da tumba.