Como Carlos Andreazza transformou Olavo de Carvalho num “fenômeno pop” e hoje tenta limpar sua biografia

Carlos Andreazza. Foto: Reprodução/Twitter

Fazer o Olavo pop. Digamos assim: hypar o Olavo. Isso é fácil. Até porque o Olavo é um personagem midiático, né? Tem uma obra monumental, consistente. É um baita filósofo. Pensador. Só que ele está nas redes sociais. Faz vídeos. Tinha aquele True Outspeak (podcast dos primórdios do olavismo). É isso que a gente [editora] queria. Dai abriu a pré-venda. E, sem brincadeira, em cinco dias, sem que o livro existisse fisicamente, ainda não havia sido impresso, ele acabou.

Essas palavras são de Carlos Andreazza em um vídeo gravado pela produtora olavista Brasil Paralelo.

A gravação é de 3 de novembro de 2018 e fez parte da série “Congresso Brasil Paralelo“, de uma empresa de extrema-direita que defende a ditadura militar e tem uma abordagem revisionista da história.

Andreazza explicava o trabalho que tinha como editor-executivo na editora Record, uma das mais tradicionais do Brasil, que publicou no século passado nomes como Paulo Freire, Gabriel García Márquez, Albert Camus e Pablo Neruda.

Carlos Andreazza foi responsável por uma guinada à direita na casa, “contra o politicamente correto”.

Promoveu o economista xarope Rodrigo Constantino, por exemplo, além de Bruno Garschagen, Lobão e o conservador britânico Roger Scruton.

Mas foi com Olavo de Carvalho que ele ganhou dinheiro.

Olavo de Carvalho tornou-se best-seller nos oito anos de Andreazza na Record. Virou um fenômeno pelas mãos de Andreazza.

Cartazes com “Olavo tem razão” tomaram protestos pelo golpe.

Hoje, ele finge não ter nada a ver com isso.

O neto do ministro da ditadura militar

Mário Andreazza e seu neto, Carlos Andreazza. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Uma reportagem do jornal O Globo de 2015 lembra que Carlos, carioca de Botafogo, formado em jornalismo pela PUC, é neto de Mário Andreazza, que foi ministro dos Transportes nos governos dos ditadores Costa e Silva e Médici e do interior com João Batista Figueiredo.

Ele gostava de tomar o uísque do avô, segundo o jornal.

O passado de sua família antigetulista o fez se definir como “conservador”. Próximo de Felipe Moura Brasil, outro ex-discípulo de Olavo, mantinha o site Tribuneiros. Os dois jogavam no meio-campo do time do Jockey na adolescência.

Carlos Andreazza e o amigo Felipe Moura Brasil. Foto: Reprodução/Twitter

Essa parceria do futebol chegou até a Record. Felipe organizou os textos do guru Olavo Carvalho e Andreazza publicou.

Foi a obra-prima deles no mercado editorial.

Carlos Andreazza, Olavo de Carvalho e a cria dos dois. Foto: Reprodução/Twitter

De acordo com dados do Estadão, o livro “O mínimo que você precisa para não ser um idiota”, de Olavo de Carvalho, vendeu em torno de 200 mil exemplares.

O Globo diz que essa obra, com “O imbecil coletivo”, chegou em 400 mil. Em uma entrevista à jornalista Leda Nagle, de 21 de março de 2019, Andreazza se orgulhou dos 500 mil exemplares de todas as obras de Olavo combinadas.

O Estadão calcula que os livros de Olavo de Carvalho geraram rendimento bruto de mais de R$ 3,2 milhões. Um grande negócio para o guru e, claro, para Andreazza.

Olavo de Carvalho e seus livros: Um negócio lucrativo para ele e seus editores. Foto: Reprodução/Twitter

Para comparar, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Rodrigo Constantino ficaram no patamar entre 50 mil e 80 mil exemplares. Lançamentos bem-sucedidos num mercado editorial quebrado, que tem lançamentos significativos em apenas três mil exemplares.

“Fiz sucessos num país que não gosta de ler”, falou Andreazza a Leda, obliterando a influência nefasta de Olavo de Carvalho, que emplacou, por exemplo, o assessor presidencial Filipe G. Martins como assessor de Bolsonaro.

Filipe está sendo investigado pela polícia do Senado por um gesto de supremacistas brancos em reunião de Ernesto Araújo com senadores.

Cursei filosofia na Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) entre 2010 e 2016.

Entre os professores, temia-se o efeito da desinformação de Olavo de Carvalho, o autor mais bem-sucedido no mercado literário em filosofia.

Outras obras controversas de Andreazza no mercado editorial

Biografia desastrada: Dirceu, de Otávio Cabral. Foto: Reprodução

Além de autores de extrema direita, Carlos Andreazza foi responsável por publicar a biografia “Dirceu”, do jornalista Otávio Cabral, que trabalhou na revista Veja, foi assessor de Aécio Neves e é marido da também jornalista Vera Magalhães.

O jornalista Mario Sergio Conti, na revista Piauí, listou em 2013 erros de datas, fatos históricos, além de insinuações machistas sobre a vida amorosa do ex-ministro José Dirceu e até informações incorretas sobre a empresa em que Cabral trabalhava na época, a Editora Abril.

Erros em escala industrial de um livro editado por Andreazza para atingir um inimigo político.

Reinvenção com ajuda da Globo

Carlos Andreazza se reinventando no Globo. Foto: Reprodução

Seguindo a mesma trilha dos amigos e colegas como Felipe Moura Brasil e a própria Vera Magalhães, mas menos comentado do que eles, Carlos Andreazza foi, aos poucos limpando sua biografia.

Em setembro de 2019, ganhou uma coluna no Globo.

Deixou oficialmente a Record no começo de 2021, de acordo com o site especializado no mercado editorial Publishnews. Sua vaga na editora Record foi preenchida por Rodrigo Lacerda, neto do udenista Carlos Lacerda, que foi fundador da editora concorrente Nova Fronteira.

Neste ano, Andreazza ganhou espaço como apresentador de rádio do CBN Em Foco e do CBN Rio, depois de passagens pela Jovem Pan e pela BandNews.

Carlos Andreazza chama hoje Bolsonaro de “reacionário”, e não conservador.

Amava Sergio Moro e o esquadrão da morte de Curitiba.

Na Pan, chegou a dizer que o pedido de prisão de Moro contra Lula era maravilhoso, algo que melhorava a cada nova leitura e envelhecia melhor que um bom vinho.

Assista essa imbecilidade no pé deste artigo.

A peça, sabia-se desde sempre, é uma das maiores porcarias já concebidas pela Justiça no mundo.

Noves fora tudo, Moro condenou Lula por “ato de ofício indeterminado”, ou seja, inexistente.

Em sua coluna do dia 8 de março, o papo era outro.

“A Vaza-Jato já escancarara os métodos de Moro. Um horror. E era esperado que as condenações caíssem – e não se poderia reclamar – face ao modo inaceitável como a turma, sem qualquer fronteira entre MP e juízo, manipulava o estado de direito”, escreveu.

Ninguém precisava de Vaza Jato para saber que o juiz era ladrão.

Não se sabe se Andreazza estava bêbado quando se derramou sobre Sergio Moro.

Mais de 300 mil brasileiros — números subfaturados — estão mortos de covid-19 por um governo que Andreazza ajudou a eleger, cujo guru foi seu best-seller.

Nunca esboçou algo parecido com uma autocrítica.

Ele tem suas convicções — e são as de quem está pagando as contas.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!