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Como entender o caos político na Itália e na Espanha

Ao ver suas reivindicações negadas por governos pragmáticos, italianos e espanhois percebem que o sistema democrático é mais fechado do que aparenta ser.

Beppo Grillo é político mas diz que não faz política

DE GRANADA, ESPANHA

A democracia não experimenta seu melhor momento no sul da Europa. Espanha e Itália, as principais potências mediterrâneas do bloco europeu, têm escrito os capítulos mais recentes desse declínio, descortinando um cenário político desalentador no processo de recuperação econômica da União Europeia.

As recentes eleições parlamentares italianas oscilam entre dois extremos. Por um lado, Sílvio Berlusconi renasce das cinzas. Por outro, Beppe Grillo torna-se uma força política, comandando um movimento antissistema.  Desse quadro, surge um impasse que gera incerteza, quase pânico, entre os principais sócios europeus.

Na Espanha, o paradigma político da transição democrática da década de setenta, conduzido na prática por um bipartidarismo, dá claros sinais de uma fadiga irrecuperável como efeito da crise econômica. A situação é agravada por uma onda de escândalos que abala até mesmo instituições tradicionais como a Monarquia.

Itália e Espanha deixam claro o desgaste da democracia representativa (aquela exercida pelo povo, através de representantes eleitos) e as conseqüências nefastas disso para sociedades que se pretendem abertas. Afinal, quando os cidadãos vêem que reivindicações sociais esbarram na surdez de governos pautados por um sólido pragmatismo, percebem como o sistema democrático na verdade é mais fechado do que aparenta ser.

Esta teimosia política tem um contraponto especialmente daninho. A frustração da população por não ser ouvida acaba canalizada para as urnas, onde o processo de escolha de representantes perde a racionalidade. Ou seja, para combater o governo que não a ouve, a população opta por extremos que se oponham a tais governos.

Por isso um político corrupto, populista e que gosta dos holofotes como Berlusconi consegue uma sobrevida no sistema político italiano. Esta é também a razão da ascensão de Beppe Grillo que, pretendendo empunhar a bandeira da pureza moral contra o sistema, rejeita o que há de essencial no processo político: o diálogo e a composição.

Trata-se de faces de uma mesma moeda. Alimentam-se da mesma insatisfação e oferecem, cada qual à sua maneira, uma contribuição para colocar a democracia contra as cordas.

O cenário também não é animador na Espanha. A crise de 2008 explodiu nas mãos do Partido Socialista, incapaz de recuperar a confiança da população desde então. O resultado das eleições parlamentares de 2011 não poderia ser outro: vitória da oposição conservadora, o Partido Popular, que capitalizou a seu favor a crescente insatisfação social.

O fato é que a saída do caos impôs uma política de austeridade severa que é o pesadelo de qualquer político. O primeiro ministro Mariano Rajoy, que recentemente reconheceu ter descumprido suas promessas, mas realizado seu dever, tem sentido isso na pele.

O premiê espanho admitiu que não cumpriu as promessas mas disse que cumpriu o dever

O desgaste foi inevitável, já que, além de o discurso eleitoral cair no vazio num curto espaço de tempo, os profundos recortes em diversos setores do Estado de Bem Estar Social não podem ser implementados sem ignorar as queixas da população. Por outro lado, as denúncias de corrupção enfraquecem a solidez das lideranças e colocam em evidência prognósticos que apontam para a ascensão de forças até então coadjuvantes no cenário político.

De modo geral, o quadro demonstra a dificuldade de alcançar uma plena harmonia entre estados membros e União Europeia sem comprometer os ideais democráticos. Isso, por outro lado, provoca a radicalização popular nas urnas, com resultados adversos para os objetivos do bloco europeu e, sobretudo, para a superação da crise econômica.

Para países como Espanha e Itália, desenha-se um contexto em que a democracia se revela, a cada dia, mais difícil de conciliar com as exigências da integração à União Europeia. É uma entidade que, na verdade, nunca acolheu de braços abertos a ideia de um governo “do povo, pelo povo e para o povo”.

O grande dilema que enfrentam os “cidadãos europeus”, no entanto, é o de que a integração, que certamente não tem uma natureza plenamente democrática, representa um caminho sem volta. E envolve muito mais do que aspectos econômicos: preserva a paz como valor superior de convivência.

A superação das grandes diferenças que fizeram as potências européias se enfrentarem ao longo dos séculos, e levaram o mundo a um grau de destruição na Segunda Guerra até hoje não alcançado, foi conquistada com a neutralização da vontade soberana das massas.

Se a União Europeia fosse um projeto puramente democrático em vez de essencialmente técnico, com certeza já teria se fragmentado. Alcançar o grau de convivência que hoje existe no continente só foi possível à custa da legitimidade democrática. Em outras palavras, para preservar a paz, diversas vezes os governos europeus ignoraram a vontade da população.

E talvez a decisão que se aproxima para países como Itália e Espanha seja a de colocar rédeas cada vez mais curtas na vontade popular. Na prática, essa opção faz com que os governos se esquivem do risco de deixar decisões dramáticas nas mãos do povo, ainda mais quando isso puder representar graves retrocessos.

O resumo é que Espanha e Itália estão prestes a consolidar um modelo que coloca em definitivo a democracia a serviço da funcionalidade, e não necessariamente do povo.

Hugo Gusmao

Hugo César Araújo de Gusmão é fotógrafo amador e leitor profissional, sobretudo de sci-fi. Atualmente mora em Granada, na Espanha, onde faz um pós-doutorado em Direito Constitucional.

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