Como o WhatsApp se tornou ponto de encontro de justiceiros

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A edição do último sábado (06/06) de A Tribuna, jornal com maior vendagem no Espírito Santo, traz uma reportagem sobre um grupo de sujeitos que inventaram de patrulhar um bairro de Vitória e “dar surras em ladrões”.

“Não vamos agir com covardia. A intenção é flagrar bandidos, acionar os integrantes do grupo pelo WhatsApp. Vamos dar uma surra bem dada para que eles nunca mais se esqueçam que aqui não é terra sem lei”, disse um indivíduo de 26 anos  identificado como porta voz do grupo.

A gangue pretende agir no bairro de Jardim da Penha, um dos maiores de Vitória e habitado por moradores de classe média e alta. A justificativa da quadrilha, composta por jovens com nível universitário, são os assaltos em vias públicas, roubos de carros, furtos de bicicletas e outros delitos que ocorrem na região.

Se os boçais são mesmo universitários não dá para saber, pois não tiveram coragem de se identificar na matéria, mas pelo discurso dá para perceber a ausência de noções de Direitos Humanos e influência da musa dos acéfalos brasileiros, Rachel Sheherazade.

“Depois de bater bastante, vamos pegar um cadeado e prender o camarada no poste e chamar a polícia”, diz o valentão. Igual uns delinquentes de classe média fizeram com um garoto no Rio de Janeiro, caso que inspirou Sheherazade em um dos comentários mais abomináveis do telejornalismo brasileiro.

Por enquanto não há informações de ações da quadrilha, mas há registros de outros grupos de “vigilantes” cometendo crimes na Grande Vitória. No ano passado um bando de seis homens espancou três usuários de drogas na praia de Camburi, uma das principais de Vitória. Mesmo com sérios ferimentos, eles sobreviveram.

Outro ataque, ocorrido no mês passado, foi mais grave e resultou na morte do adolescente Charlivan Meres Silva, de 17 anos. O jovem morreu após ser encurralado, espancado e baleado por supostos milicianos dentro de um ônibus. O motivo da agressão foi ter pulado a roleta do coletivo para não pagar a passagem.

Um caso emblemático no Espírito Santo foi o linchamento de Alailton Ferreira, de 17 anos, morto acusado de cometer um estupro na região onde morava, embora não existissem evidências ou registros do crime sexual nas imediações. Apesar de não ser obra de vigilantes, o assassinato de Alailton tem a mesma raiz que incentiva os cinco marmanjos do bairro Jardim da Penha a sair de casa armados de porretes: a vontade de fazer justiça com as próprias mãos.

Os resultados maléficos dos chamados justiçamentos também são parecidos: as vítimas são geralmente negras e pobres. “Não é qualquer pessoa que pode ser desumanizada e, portanto, linchada. As potenciais vítimas de linchamento carregam consigo a marca daquele que pode, em última análise, ser eliminado”, explica a cientista social Ariadne Natal em entrevista à Agência Brasil.

Pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Ariadne Natal é autora de um estudo sobre linchamentos ocorridos na região metropolitana de São Paulo entre os anos de 1980 e 2009. “É muito raro identificarmos uma vítima de classe média entre as vítimas de linchamento. E não porque não haja, entre a classe média, quem cometa crimes”, explica.

O perfil das três vítimas citadas acima confirmam a fala da pesquisadora. Charlivan, Alailton Ferreira e o adolescente amarrado ao poste são negros de periferia. Com esse histórico, até o idiota do Homer Simpson é capaz de descrever a vítima potencial da gangue inspirada pela Sheherazade.

 

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