A direita que ajuda a procurar os mortos pela ditadura. Por Moisés Mendes

Foto do jornal La Diaria; Beatriz Argimón, vice-presidente daoUruguai.

A direita que ajuda a procurar os mortos pela ditadura

Por Moisés Mendes

Hoje, é o Dia do Desaparecido no Uruguai. A retroescavadeira que aparece ao fundo, na foto do jornal La Diaria, está há dias procurando corpos de militantes presos e ‘sumidos’ na ditadura que durou de 1973 a 1985.

O rosto em destaque ao lado da foto é de Beatriz Argimón, vice-presidente da República. Foi presidente do Partido Nacional, o Blanco, o mesmo do presidente Luis Alberto Lacalle Pou.

É uma mulher conservadora, que se apresenta como feminista liberal. Claro que não é reconhecida como tal pelas feministas uruguaias.

Mas a vice respeita, mesmo que seja contrária ao aborto, uma lei que vigora no país desde 2012 e que permite a interrupção da gravidez.

Beatriz é da direita uruguaia, assim como o presidente Lacalle Pou. O ministro da Defesa do Uruguai é um médico, Javier García, também da direita dos blancos, que já foi deputado e senador.

Pois Beatriz e Garcia, sob as ordens de Lacalle Pou, acompanham as escavações em busca de corpos. Esta é a direita no poder no Uruguai, depois de 15 anos da Frente Ampla de Pepe Mujica. Uma direita que o Brasil nunca teve.

Esse é o Uruguai da direita do médico ministro da Defesa e de uma mulher conservadora que apoiam e estão presentes nas buscas aos torturados e assassinados. A ditadura sumiu com 197 pessoas e matou, com certeza, 123 já identificadas.

As buscas reiniciadas agora são coordenadas por investigadores e antropólogos ligados à Instituição Nacional de Direitos Humanos e Defensoria do Povo (INDDHH), sob a coordenação de Mariana Mota e Wilder Tayler. O órgão é mantido pelo Congresso desde 2008, como entidade de suporte do legislativo na área dos direitos humanos.

As escavações se concentram, a partir de novas pistas, no 14º Batalhão de Infantaria Paraquedista e no 13 º Batalhão de Infantaria, na cidade de Toledo.

Foi nessas áreas que buscas encontraram os restos do professor Julio Castro, em 2011, e do servidor público Ricardo Blanco Valiente, em 2012, ambos presos durante a ditadura.

Os uruguaios não param, mesmo que também lá uma anistia, questionada até hoje, também tenha assegurado impunidade aos ditadores e a seus cúmplices e prepostos.

O Ministério Público vai descobrindo brechas legais, e há militares presos no Uruguai por crime de lesa humanidade, um recurso que no Brasil não prospera, apesar de algumas iniciativas do MP na área cível.

Há, todos os dias 20 de maio, a Marcha do Silêncio, pela memória dos desaparecidos e para que ninguém esqueça que é preciso continuar procurando pelo que restou deles.

Nesse dia, familiares e amigos carregam os retratos dos que sumiram em caminhada pelas ruas de Montevidéu e outras cidades (no ano passado e este ano as fotos foram colocadas em lugares públicos, sem o passeio, por causa da pandemia).

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Missão

Encontrar os corpos é a missão dos que não param de buscar para confortar as famílias e chegar à reparação histórica.

Continuar procurando é a missão política. Para que todos os uruguaios se mantenham atentos ao que aconteceu e não pode se repetir.

Continuar procurando é também não desistir de identificar, processar e condenar assassinos e torturadores, mesmo com as controvérsias das leis de exceção produzidas em nome de anistias que mais beneficiaram os bandidos do que as suas vítimas.

(Texto originalmente publicado em JORNALISTAS PELA DEMOCRACIA)