Se soubesse que ia ser assim, não teria ajudado Doria a dar o primeiro passo na vida pública. Por José Cássio

Atualizado em 6 de janeiro de 2022 às 13:42
João Doria no evento PSDB Mulher no último sábado (18)
João Doria recrutou profissionais da Educação para fazer claque em evento do PSDB Mulher

Matar dois coelhos com uma só cajadada: pôr a polícia em cima de Márcio França e, por tabela, atingir Geraldo Alckmin, que, traído por ele, decidiu deixar o PSDB e seguir vida própria, agora se aproximando do campo progressista através de uma aliança com Lula.

O João Doria que todo mundo sabia que era traidor agora se revela também sujo. Capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos.

É antiga e bastante conhecida a história dele com Jô Soares.

Então um desconhecido, fazia boca de urna numa escola quando surge o humorista com o título de eleitor na mão. Abraçou Jô e pediu o voto para Collor, que disputava o segundo turno com Lula.

Como notou que o apresentador não era simpático à sua ideia, Doria não titubeou. Fingiu um abraço no apresentador e colou o santinho do caçador de Marajás em suas costas.

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Sem perceber, Jô virou outdoor ambulante de Collor. Doria ficou satisfeito por ter feito o humorista da palhaço.

Agora vamos a dezembro de 2015, quando um amigo próximo de Geraldo Alckmin, então governador de SP, me ligou.

– Tá em casa? Preciso falar com você, ele disse.

Naquele momento, até o Papa Francisco dava como certa a candidatura de Andrea Matarazzo a prefeito de Sâo Paulo pelo PSDB no ano seguinte. Diário oficial do tucanato, a Folha escalou um de seus medalhões, Leão Serva, para passar vergonha dia sim, outro também, incensando o nome do preferido dos cardeais da sigla.

– Estou indo viajar, volto em seis de janeiro.

Dia 7 na primeira hora meu telefone toca.

– Já chegou?

– Sim, vai no Pão de Açúcar às 9h e conversamos.

Confesso que o teor do assunto me surpreendeu.

Eu havia sido escalado para anunciar a candidatura de Doria nas prévias do PSDB para a escolha do candidato a prefeito em outubro.

– Eu?, perguntei, surpreso. Primeiro: por que eu? Segundo: o Geraldo está sabendo disso?

Fui informado que sim.

A estratégia era passar a ideia de que o movimento pró-Doria vinha das bases, ou seja, de baixo para cima, ao contrário de Matarazzo, que já havia feito como Fernando Henrique Cardoso quando sentou na cadeira antes da hora na eleição que perdeu para Jânio Quadros.

Por que errei com Doria

Me empolguei e bastou apenas um post nas redes para o circo pegar fogo. Meu celular não parou de tocar um só minuto. Todo mundo querendo saber a boa nova.

– Quem será o prefeito não faço a menor ideia, mas uma coisa eu garanto: se eventualmente você digitar o 45 na urna a foto que vai aparecer é de Doria.

Dali pra frente João me ligou pelo menos umas 10 vezes.

– Diga, João, eu dizia, interrompendo meu trabalho.

– Vamos ganhar, Zé Cássio, estamos trabalhando muito.

– Deus é grande, João, eu devolvia.

Fundamental contar essa história para o leitor entender a importância de Alckmin na vida do gestor.

Não fosse ele, Doria estaria até hoje fazendo o papel de Tatu da Ilha da Fantasia (lembra?), de terno branco e gravata borboleta, pagando de mestre de cerimônias em eventos de endinheirados.

Geraldo encaminhou o processo, conversou com as bases e a sua investida foi de tal modo vitoriosa que virou o Estado de ponta-cabeça: ganhou tudo que era possível e mais um pouco – sendo que Doria levou a capital já no primeiro turno.

O restante da história não é necessário detalhar.

Doria traiu São Paulo, traiu Geraldo, traiu os correligionários, traiu até o diabo e pior: destruiu o PSDB, transformando o partido numa facção de extrema-direita primeiro se aliando e após disputando o gado com Bolsonaro.

Descobriu-se também que Doria faz política com o fígado. Ele é ruim. Vingativo. Usa o poder para perseguir e oprimir.

Não por acaso virou líder dele mesmo.

Me diga qual líderança de expressão nacional está ao seu lado na corrida pela presidência da República, com exceção de Rodrigo Maia, que não é lider nem aqui nem na China, e Henrique Meirelles, ambos devidamente desfrutando das benesses de boas nomeações no Palácio dos Bandeirantes.

Agora, com a blitz em Márcio França, Doria revela nova faceta: é fascista como Bolsonaro.

Como alguém que conhece a base, eu digo: o tiro no pé Doria deu lá atrás, não agora.

Foi quando se vestiu de gari, humilhando a categoria – a ainda convenceu uns puxa-saco idiotas a fazer o mesmo -, largou a vassoura em qualquer canto e foi cumprir a sua sina: tirar de Geraldo o direito legítimo, e combinado, de disputar a presidência em 2018.

Como não conseguiu, traiu de novo e se juntou a Bolsonaro no primeiro e no segundo turno.

Venceu a eleição na bacia das almas, quando ninguém imaginava, e terceirizou a gestão do Estado ao vice, Rodrigo Garcia, para usar os quatro anos como trampolim para o sonho da presidência.

Como as coisas parece que não estão dando muito certo, resolveu apelar e jogar baixo: pos a polícia no encalço de um adversário, França, para tentar acertar outro, Alckmin, seu agora maior desafeto.

Nao é novidade para ninguém que venho da militância.

É essa minha experiência, e o repertório de histórias que vivi e tenho para contar é que paga o condomínio aqui de casa, o leite e as escolas das crianças.

Se ajudei Doria a dar seu primeiro passo na vida pública, me sinto à vontade também para dar minha opinião: É sim, traidor.

Agora com um agravante: joga sujo. Não merece nem o cargo de síndico do prédio dele.

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