Elcio Franco, Wizard, Cascavel…: como a posse de Pazuello reuniu os enrolados no esquema da vacina. Por Zambarda

O ministro Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro na posse na Saúde (Foto: Divulgação)

Atendendo a uma solicitação do DCM de 5 de julho de 2021, o Ministério da Saúde encaminhou a lista de convidados da pasta na posse de Pazuello no Ministério da Saúde, realizada no dia 16 de setembro de 2020.

O documento foi encaminhado no dia 26 de julho.

Alguns nomes chamam atenção pela proximidade com o ex-ministro no pior momento da pandemia do novo coronavírus, assumindo postos importantes no ministério e que se tornaram alvos da CPI da Covid.

Antonio Elcio Franco Filho 

Elcio Franco na CPI da Covid.
Reprodução/TV Senado

O coronel Antonio Elcio Franco Filho estava presente na cerimônia já como secretário-executivo do Ministério da Saúde, seu cargo que prosseguiu com Pazuello na pasta. Ele assumiu o cargo em julho de 2020 e ficou até março de 2021, quando o general caiu.

Elcio é hoje assessor especial da Casa Civil, hoje chefiada por Ciro Nogueira. O antecessor era o general Luiz Eduardo Ramos, que contribuiu para a efetivação de Pazuello no cargo.

Essa relação entre militares se revelou explicitamente nos depoimentos dados pelas testemunhas na CPI da Covid. Desde 7 de julho de 2021, Elcio Franco tornou-se o centro das investigações na comissão.

Naquela data, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM) mandou prender o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias. No depoimento, ele colocou a responsabilidade na aquisição irregular de vacinas no coronel que atuou como secretário-executivo da pasta, mostrando um envolvimento direto dos militares do governo nas acusações de corrupção.

Dias foi preso por perjúrio e falso testemunho, por causa de contradições em seu depoimento sobre a Davati e o encontro com o PM Dominghetti, mas foi solto no mesmo dia sob pagamento de fiança R$ 1,1 mil. A presença de Elcio Franco na posse de Pazuello mostra que o militar manteria seu poder dentro da pasta – atrasando na aquisição de imunizantes no momento em que a pandemia atingiu centenas de milhares de mortos.

Airton Antonio Soligo, o “Cascavel”

Pazuello em um churrasco em dezembro de 2020 na casa do governador do DF. Com Cascavel e Zezé Di Camargo. Foto: Reprodução

Na lista como “assessor especial do ministro”, Airton Cascavel não possuía cargo oficial nas atividades em conjunto com Pazuello e tinha um poder de decisão grande dentro do governo. O DCM fez um grande perfil sobre Cascavel publicado em 15 de julho de 2021.

Uma semana depois da reportagem publicada pelo Diário, a Record e a GloboNews noticiaram que a Cascavel passou a ser investigado pela PF e seus dados foram repassados para investigação na CPI da Covid pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), mas sem citar nossa reportagem e outras que já tratavam do ex-homem forte de Eduardo Pazuello.

Cascavel é um nome que conecta pontas improváveis no escândalo da Covaxin, no caos de Manaus na pandemia do novo coronavírus, passa pelo ex-ministro Eduardo Pazuello e chega até parlamentares da República. 

Ele tem 57 anos. Nasceu em 4 de maio de 1964, ano do golpe militar.

Seu apelido, Cascavel, provoca medo e intimidação em quem conhece as histórias no norte do Brasil – além das acusações de grilagem e nepotismo.

Uma das blindagens fortes de Airton Cascavel envolve a mídia. Ele tem trânsito forte nos bastidores da política do Amazonas e de Roraima. E essas amizades passam pelos meios de comunicação. Um de seus amigos era o empresário Otávio Raman Neves.

Otávio era o proprietário da TV Norte Amazonas, afiliada do SBT, e faleceu de covid no dia 6 de julho de 2021. Estava intubado e não sobreviveu aos procedimentos no hospital.

Otávio Raman Neves (Arquivo/Em Tempo/Reprodução)

Uma reportagem do DCM, dois dias antes, apontou uma conexão entre a afiliada do SBT e a Precisa Medicamentos. 

Gustavo Oliveira, representante da Precisa, é genro de Daniel Abravanel. Ele é casado com Priscila Abravanel. Daniel é um sobrinho de Senor Abravanel, Silvio Santos, o dono do SBT. Trabalha com as afiliadas da emissora e é filho de Henrique Abravanel, o irmão caçula de Silvio.

Cascavel não era chamado somente de “número 2” do ministério da Saúde. No caso das negociações envolvendo a CoronaVac, ele foi pessoalmente conversar com Dimas Covas, do Instituto Butantan, e telefonou para o governador João Doria Jr. Pazuello foi filmado tentando negociar a vacina chinesa com uma intermediária de maneira irregular. Todas essas ações tinham o dedo do articulador do ex-ministro. Era o “ministro de fato”.

Airton Cascavel saiu do Ministério da Saúde e tornou-se secretário de Saúde de Roraima. O PT, através da deputada Gleisi Hoffmann, solicita investigações envolvendo o nome dele desde dezembro de 2020. Uma nova investigação foi aberta pela PF em julho de 2021 e ele saiu do cargo de secretário, alegando que pegou covid pela segunda vez.

Nos bastidores, fala-se que Pazuello quer concorrer ao governo do Amazonas ou do Rio de Janeiro. Seu apoio nas eleições de 2022 seria o de Airton Cascavel para o Senado. Essa informação foi repercutida pela GloboNews e explica, por exemplo, a presença de Pazuello nas motociatas de Bolsonaro.

Ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o ministro Eduardo Pazuello discursa no Rio, em 23 de maio de 2021 – Reuters

Cascavel estava presente no ministério da Saúde gerido por Pazuello desde o princípio e precisa ser investigado.

Carlos Wizard Martins

Wizard e Pazuello

O empresário que ficou famoso por cursos de inglês, Carlos Wizard Martins estava presente também na posse de Pazuello. Ele estava se reunindo com Pazuello entre maio e junho de 2020. A CPI da Covid descobriu que ele era um dos nomes do chamado “Gabinete Paralelo” (ou “Gabinete das Sombras”) da Saúde, que recomendava o uso de cloroquina e de “tratamento precoce” – ineficazes contra o novo coronavírus.

A CPI solicitou uma condução coercitiva, autorizada pelo ministro Luis Roberto Barroso, para Wizard prestar esclarecimentos. Ele, que mora nos Estados Unidos, fugiu para o México. Ele prestou depoimento à CPI da Covid em 30 de junho de 2021, permanecendo em silêncio na presença do seu advogado.

A presença de Wizard na posse de Eduardo Pazuello mostra que o ex-ministro já mantinha uma agenda com figuras do gabinete das sombras. Nise Yamaguchi, defensora da cloroquina, chegou a aparecer em agenda oficial de Pazuello.

Posse de Pazuello foi “discreta”

Não há muitas imagens oficiais dos convidados na posse, que aparecem quase todos de costas nas fotos e no vídeo. Os militares do governo, inclusive o general Ramos, que estava na Casa Civil, aparecem em destaque.

Existe uma foto dos convidados que está abaixo, mas não aparecem todos eles.

Foto por: Leonardo Marques – ASCOM/MCTI
General Ramos e Paulo Guedes na posse de Pazuello. Foto: Reprodução/Igor Estrela/Metrópoles

Na cerimônia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu o uso da cloroquina contra a covid.

A presença dessas pessoas na posse do ex-ministro não se constitui como fato inédito, mas mostra como elas estavam próximas de Eduardo Pazuello no auge da crise da pandemia.

Há uma segunda lista, a de convidados do Palácio do Planalto na posse de Pazuello, que foi solicitada pelo DCM. O Ministério das Relações Exteriores e a Polícia Federal pediram mais 10 dias para enviar informações solicitadas pela reportagem.

Confira a lista de convidados da posse de Pazuello no Ministério da Saúde.