Enquanto muitos lamentam a pane no CNPq, há aqueles que preferem falar mal do Lattes. Por Luis Felipe Miguel

Divulgação Lattes explode nas redes graças ao apagão no CNPq. Foto: Divulgação

Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor

POR LUIS FELIPE MIGUEL, cientista político

Enquanto muitos lamentam a pane no servidor do CNPq e condenam a incúria que levou ao problema, fruto direto do assalto neoliberal ao Brasil, há aqueles que preferem falar mal do Currículo Lattes. O eterno arauto da “revolução brasileira”, por exemplo, aplaudiu a indisponibilidade do sistema, que permitiria descobrir que “há vida intelectual para além do Currículo Lattes”.

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Primeiro: a pane não afeta só o Lattes. Coloca em risco, por exemplo, o pagamento das bolsas. Será que isto também é bom, por mostrar que há vida intelectual para além das contas do mês?

Segundo: não é possível imaginar hoje um sistema de pesquisa e pós-graduação sem um banco público de currículos. O Lattes tornou-se uma ferramenta essencial para a identificação de pesquisadores – basta perguntar a editores de revistas científicas em busca de pareceristas.

A visão romântica do intelectual encerrado em sua torre de marfim, sozinho com suas elucubrações, nada tem de revolucionária. É, na verdade, bem reacionária…

Terceiro: todo mundo reclama que o Lattes é chato de preencher e eu sou o primeiro a concordar. É possível aprimorá-lo e simplificá-lo. Jogá-lo no lixo certamente não é a melhor opção.

Quarto: o Currículo Lattes não é culpado pelo produtivismo acéfalo que alguns tentam – e por vezes conseguem – impor à universidade brasileira. Quem deseja um ambiente de pesquisa mais crítico e socialmente referenciado deve combater este tipo de produtivismo, mas ele não é derivação obrigatória do Lattes nem depende do Lattes para se impor.

Quinto: o que um banco público de currículos faz é dar transparência às atividades dos pesquisadores. Por que ser contra isso? Ser contra o produtivismo, isto é, contra a busca de indicadores de produção como fins em si mesmos, não significa que não temos que devolver à sociedade aquilo que ela nos dá – devolver na forma de conhecimento, de formação de quadros, de ferramentas para sua transformação.

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