EUA registram mais de 5 mil casos de sarampo enquanto Trump questiona vacinas

Atualizado em 7 de novembro de 2026 às 17:11
Sarampo Estados Unidos
Cartaz com orientações sobre prevenção ao Sarampo nos Estados Unidos. Foto: Shannon Stapleton/Reuters

Os Estados Unidos registraram 5.182 casos confirmados de sarampo em 2026 até 5 de novembro, o maior número anual em 35 anos. O avanço da doença ocorre enquanto o presidente Donald Trump questiona publicamente a segurança de vacinas infantis, inclusive da tríplice viral, usada contra sarampo, caxumba e rubéola. O balanço, divulgado na sexta-feira (6) pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), já supera amplamente os 2.289 casos registrados em todo o ano passado.

O CDC contabilizou 43 surtos iniciados em 2026. Aproximadamente 96% das infecções estavam associadas a surtos, enquanto outro indicador, referente à situação vacinal, mostra que 96% dos pacientes não haviam sido vacinados ou tinham histórico de imunização desconhecido. Os dois percentuais descrevem situações diferentes e não devem ser confundidos. A circulação do vírus se intensifica em comunidades com baixa cobertura vacinal.

Em 10 de agosto, Trump assinou uma ordem executiva que alterou as recomendações federais de vacinação infantil. O texto reduziu de 18 para 11 o número de doenças com imunização recomendada universalmente e propôs separar a tríplice viral em três vacinas aplicadas em visitas distintas. Na ocasião, Trump chegou a sugerir, sem comprovação científica, que a combinação dos imunizantes poderia ser letal. A vacina tríplice viral é considerada segura e eficaz pelos órgãos de saúde.

A epidemia, porém, já estava em curso antes dessa decisão. Em julho, os EUA haviam superado o total de casos de 2025, em meio à queda da vacinação e à disseminação de informações falsas sobre imunizantes. As declarações de Trump e as mudanças promovidas por seu governo integram esse cenário de desconfiança, mas os dados não permitem atribuir a elas, isoladamente, a origem ou a dimensão atual dos surtos.

A política do governo foi criticada até por integrantes do Partido Republicano. Em setembro, o senador Bill Cassidy, médico e presidente da comissão de Saúde do Senado, responsabilizou a desinformação e as diretrizes da administração Trump por mortes evitáveis na Pensilvânia, segundo a Reuters. O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., tem histórico de declarações que associam vacinas ao autismo, hipótese refutada por estudos científicos. O governo mantém a recomendação da vacinação contra o sarampo, apesar dos questionamentos sobre a aplicação combinada.

A Pensilvânia concentra o maior número de casos relatados pelos estados: 1.487 infecções, 287 internações e seis mortes associadas à doença, segundo o departamento estadual de Saúde. Já o balanço nacional do CDC indicava quatro mortes, devido a diferenças de atualização e critérios de registro. Os totais não são diretamente comparáveis, e a agência federal ressalva que os dados permanecem sujeitos a revisão.

A cobertura da tríplice viral entre crianças que ingressam na escola caiu de 95,2% em 2019–2020 para 92,4% no ano letivo de 2025–2026, segundo o CDC. O índice está abaixo dos cerca de 95% necessários para uma proteção comunitária robusta. O sarampo é altamente contagioso, pode causar pneumonia e inflamação do cérebro, e o vírus pode permanecer infeccioso no ar por até duas horas após a saída de uma pessoa doente.

Os Estados Unidos haviam declarado a eliminação da transmissão contínua do sarampo em 2000, mas a persistência dos surtos ameaça esse status. Enquanto autoridades tentam ampliar a vacinação nas áreas afetadas, o país enfrenta simultaneamente a escalada das infecções e uma disputa política sobre recomendações de imunização que são decisivas para impedir novos casos.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!