EXCLUSIVO: Olavo de Carvalho está por trás de ideia do “gabinete da sombra” na Saúde sugerido por virologista a Bolsonaro

Olavo de Carvalho, Bia Kicis e Otávio Fakhoury. Foto: Reprodução/YouTube

*Colaboração de Heloísa de Carvalho

Em reunião de setembro de 2020, Bolsonaro recebeu a sugestão de criar um “gabinete das sombras” para gerenciar a resposta oficial à pandemia da Covid-19.

A proposta foi feita por um virologista medíocre chamado Paolo Zanotto, que ficou famoso após o vídeo do Metrópoles com imagens do convescote.

“Talvez fosse importante montar um grupo, e a gente poderia ajudar a montar um ‘shadow board’, como se fosse um ‘shadow cabinet’. Esses indivíduos não precisariam ser expostos à popularidade”, disse Zanotto no encontro no Palácio do Planalto.

A fala de Zanotto mostra a existência do gabinete paralelo da Saúde.

Quem está por trás da iniciativa do “shadow cabinet” é Olavo de Carvalho.

Zanotto, bem como a ampla maioria dos presentes àquele encontro, é seguidor de Olavo. Em abril do ano passado, deu entrevista ao site do guru de extrema direita cravando que “cloroquina é o remédio para vencer a epidemia”.

Um site chamado Diário Imperial publicou uma matéria em 2016 sobre a “volta da monarquia” ao Brasil.

“Talvez meia dúzia dos que frequentam o encontro monárquico anual consigam imaginar um governo imperial, mas e o povo? Não é possível exigir do povo algo que ainda é inimaginável. Seria até macabra tal exigência”, diz o texto.

“Para a segunda etapa, Olavo também já deu a dica para a casa monárquica brasileira: façam um shadow cabinet. Até o presente momento, parece que o conselho foi solenemente ignorado (ou pior: talvez sequer tenha sido repassado aos responsáveis)…”

E ele explica o que é o shadow cabinet:

“O conselho foi dado por Olavo numa teleconferência do canal Terça Livre. Shadow cabinet é um gabinete paralelo — uma espécie de ‘gabinete espelho’ do gabinete oficial — com os melhores nomes da oposição. Cada um dos seus integrantes analisa seu contraparte oficial e propõe medidas alternativas.

Desnecessário enfatizar que o shadow cabinet teria de ser um modelo próprio, e não um modelo copiado de maneira apriorística de modelos internacionais — como foi nosso modelo de República. Outra das razões de ser de um shadow cabinet é combater o discurso único imposto pelo governo“.

Entrevista de Zanotto ao site de Olavo de Carvalho

Em um post no seu blog de 9 de setembro 2015, Olavo propôs “198 métodos de ação não violenta” para ativistas antipetistas contra o governo Dilma Rousseff.

Reproduzindo um autor chamado Roberto Smera, o site de Olavo diz o seguinte:

“Intervenção política

193. Sobrecarga dos sistemas administrativos
194. Identidades/divulgação de agentes secretos
195. Encarceramento deliberado
196. Desobediência civil das leis ‘neutras’
197. Trabalhar sem colaboração
198. Dupla soberania e governo paralelo”

É um manual em 198 passos com tudo o que é praticado hoje dentro do governo Bolsonaro.

Confrontar autoridades científicas e políticas é algo frequentemente aconselhado em posts, vídeos e aulas de Olavo. Em um vídeo divulgado por Ton Martins em 3 de agosto de 2015, ele participou de uma live com o empresário Otávio Fakhoury; Danilo Amaral, um executivo que agrediu o ex-ministro Alexandre Padilha em um restaurante; e o empresário Jorge Feffer, da Suzano, que se aproximou de então militante Carla Zambelli.

Olavo diz o seguinte naquela gravação:

“Não adianta nós enxugarmos o Estado, diminuí-lo, agindo por dentro do Estado. É preciso compensar a força excessiva do Estado mediante o fortalecimento das ações populares. Isso é fundamental. O Estado brasileiro não é tão grande assim se você comparar com China, Cuba. O problema é que ele é forte demais para uma sociedade civil que ainda é fraca”.

E ele sugere ações práticas:

“Nós conseguimos intimidar essa gente, essa elite do poder, ao ponto que eles não têm mais a cara de pau de sair em público. Eles vivem escondidos. Eles não podem ir até um restaurante. Não podem ir em uma feira. Onde eles forem, serão vaiados, xingados, cuspidos. E isso não pode parar”.

No dia 14 de setembro de 2015, a então militante Bia Kicis visitou Olavo na Virgínia e ficou em sua casa nos Estados Unidos, acompanhada pelo empresário Otávio Fakhoury. Os três gravaram dois vídeos no programa “Papo que bate”.

Na primeira gravação, Olavo de Carvalho divulgou dois livros do autor Gene Sharp, próximo do governo dos EUA segundo autoridades russas: “Poder e luta” e “Os métodos da ação não violenta”. Falou de outros autores passando até pelo tema da “revolução não violenta”.

E ele diz: “O Brasil tem que aprender isso para ontem. Agora é o momento. Não adianta contar com as forças políticas e nem com as Forças Armadas”. Bia Kicis aparece no vídeo com uma camiseta e com um boneco inflado do “Lula presidiário”.

Na segunda gravação, Fakhoury pede um conselho para Olavo direcionado para a “verdadeira oposição” ao PT. Olavo de Carvalho diz o seguinte: “A iniciativa popular não pode parar. Ela tem que se intensificar, tem que fazer valer o artigo quinto da Constituição. Todo poder emana do povo. Através dos seus representantes ou diretamente. Ou diretamente é a essência da coisa. Se o povo se manifesta diretamente a sua autoridade, não há autoridade sobre ele. Nem presidente, nem STF, nem Forças Armadas, nem coisa nenhuma. Expressão direta da vontade popular é o poder soberano”.

Há também um vídeo, do próprio Olavo de Carvalho, de 22 de outubro de 2015. Na gravação, o guru diz o seguinte: “A classe política está se colocando frontalmente contra o povo, legitimando uma reeleição fraudulenta com uma presidência falsa que já deveria ter sido removida há muito tempo”.

 

A estrutura subterrânea mantém o extremismo dos apoiadores de Jair Bolsonaro, estejam ou não no poder. Otávio Fakhoury atua no setor privado, enquanto Bia Kicis e outros nomes tornaram-se congressistas.

Allan dos Santos, um dos seguidores fiéis de Olavo e criador do blog Terça Livre, está sendo investigado pela Polícia Federal por instigar ataques a governadores e prefeitos. Allan também é suspeito de ganhar dinheiro de servidores públicos.

Eles são fantoches do rei das sombras, Olavo de Carvalho. A intenção é a destruição da democracia por dentro. Contestar o resultado das urnas em 2022 será o próximo passo.

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