Fio desencapado, Carlos Bolsonaro acusa Mourão de conspiração e acabará derrubando o governo do pai. Por Kiko Nogueira

Em inglês é uma expressão consagrada: loose cannon, “canhão solto”.

Fio desencapado, numa tradução meia boca.

Toda organização, familiar ou empresarial, tem essa figura. Ou ela é contida ou ela destrói por dentro. 

Carlos Bolsonaro está levando o governo do pai Jair — com a anuência deste – à inviabilidade a passos largos.

Resolveu abrir as baterias contra o general Mourão e, por tabela, os militares.

Formou com Olavo de Carvalho — e, provavelmente, Steve Bannon — uma frente para arrebentar o vice.

No sábado, dia 20, um vídeo em que Olavo xingava os “milicos” e mandava indiretas a Mourão foi postado no canal oficial de Bolsonaro no YouTube.

Foi apagado no dia seguinte. Antes disso, Carlos havia replicado o conteúdo infame.

Tomou uma enquadrada e, enigmático, fazendo a Nana Caymmi, afirmou que começava “uma nova fase em sua vida”, reclamando de “gente estrelada”. 

Balela.

Recrudesceu a campanha. Depois de Mourão classificar o desafeto de “astrólogo”, Carlos foi curtir as postagens de Olavo agredindo o outro.

Na manhã desta terça, dia 23, foi mais longe e acusou o vice presidente de conspirar nos EUA contra o governo.

Publicou o convite de uma palestra de Mourão em Washington e acusou: “o jogo está muito claro”.

No texto do Wilson Center, o general é definido como “voz de razão e moderação” e a tragicomédia comandada por Jair é lembrada como “paralisia política, em grande parte devido às crises sucessivas geradas pelo próprio círculo interno do presidente, se não por si próprio”.

Carlos está apostando todas as fichas contra os Mourão e a ala militar. Principalmente as que não tem.

Não vai sossegar enquanto não derrubar o governo.

É uma relação de amor e, embora ele não saiba, ódio com o progenitor.

Virou vereador aos 17 anos para resolver uma pendenga de Jair com a ex-mulher, mãe do adolescente Carluxo.

Isso não sai de graça.

Ninguém que tatua o rosto do pai no braço pode ser normal.

É paradoxal: graças a essa gente o governo do capitão é, provavelmente, aquele em que as Forças Armadas estão sendo mais enxovalhadas.  

Bolsonaro tem diante de si o tipo de soldado que Napoleão categorizava como “ignorante com iniciativa”.

A diferença é que o Corso os fuzilava por causa do estrago que faziam.

Bolsonaro os promove e estimula.

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