
Francamente, eu nunca vi uma manifestação tão descarada de falta de responsabilidade com o país. A entrevista de Flávio Bolsonaro a Glenn Greenwald e Isabella Menon revela um político que perdeu a eleição e parece disposto a perder também qualquer compromisso com a coerência. Do começo ao fim, o ex-candidato atropela a lógica para não encarar o que as urnas lhe disseram.
Perguntado sobre provas de fraude, Flávio admite que não as tem. Só que essa admissão não encerra a acusação. Vira a largada para outra rodada de suspeitas, insinuações e teorias que dispensam demonstração. Ele não apresenta uma irregularidade comprovada capaz de alterar o resultado. Apresenta a própria inconformidade como se fosse evidência. Perdeu, não gostou e concluiu que alguma coisa necessariamente precisa estar errada.
Essa é a lógica do discurso golpista. Não porque contestar uma eleição seja proibido, mas porque contestação séria exige fatos verificáveis. Suspeita não é prova. Indignação não é perícia. A vontade de chegar à Presidência não dá a ninguém o direito de tratar a decisão dos eleitores como um erro que precisa ser corrigido a qualquer custo.
Flávio afirma que o Tribunal Superior Eleitoral está dominado pelo governo. Mas o presidente do TSE é Kassio Nunes Marques. O vice é André Mendonça. Ambos chegaram ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro e foram eleitos para dirigir a Justiça Eleitoral. Isso não os transforma em representantes da família Bolsonaro, evidentemente. Ministro não deve lealdade a quem o indicou. Mas torna ainda mais absurda a fantasia de um tribunal que seria simplesmente um departamento de Lula.
Que porra de domínio é esse que ele denuncia sem demonstrar como funciona? Quando alguém escolhido pelo pai não confirma a narrativa do filho, passa automaticamente a integrar uma conspiração? Se até os ministros indicados por Bolsonaro só são confiáveis enquanto concordam com os Bolsonaro, o critério não é independência judicial. É obediência familiar.
A parte matemática da entrevista é igualmente constrangedora. Flávio trata o crescimento da votação de Lula entre os turnos como se fosse inexplicável. Ora, segundo turno não é uma fotografia congelada do primeiro. Candidatos deixam a disputa. Eleitores reconsideram escolhas. Pessoas que se abstiveram podem comparecer. Quem votou em branco ou anulou pode decidir escolher um dos finalistas.
São possibilidades elementares, não uma reconstrução individual do voto de milhões de brasileiros. Mas bastam para mostrar por que o crescimento de um candidato não demonstra fraude. O próprio TSE registra que a abstenção caiu de 21,08% para 19,2%. Houve mais participação. Flávio ignora as explicações democráticas possíveis e salta diretamente para a conclusão que lhe interessa.
Lula pode ter convencido mais gente, mobilizado melhor sua base e feito uma campanha mais eficaz na reta final. Isso pode ser debatido politicamente. O que não pode é transformar a incapacidade de aceitar uma derrota em suposta impossibilidade matemática. Não entender de onde vieram os votos não significa que eles não existam.
A contradição aparece com força quando os entrevistadores confrontam Flávio com o desempenho de seu campo no primeiro turno. Em vez de enfrentar a pergunta, ele passa a levantar suspeitas até sobre aquela etapa. É uma narrativa que se protege de qualquer refutação. Se o adversário vence, houve manipulação; se os aliados vencem, ainda assim pode ter havido manipulação suficiente para impedir uma vitória maior.
Nesse raciocínio, só uma vitória completa de Flávio tornaria a eleição legítima. Ele não está cobrando transparência, mas exigindo que o resultado corresponda à sua vontade.
Trata-se de um desrespeito brutal aos milhões de brasileiros que votaram em Lula. Essas pessoas não são figurantes de uma fraude imaginada para explicar a frustração de um candidato. São cidadãos. Fizeram uma escolha. O resultado foi proclamado pelo TSE e recebeu reconhecimento internacional. Discordar desse resultado não autoriza apagar quem o produziu.
Flávio também não aceita que aliados reconheçam a derrota. Insinua que eles concordam com suas suspeitas, mas têm medo de falar. Ou seja, quando alguém discorda dele, a discordância não pode ser sincera. Precisa ser covardia, medo ou submissão. É uma maneira autoritária de lidar até com o próprio campo político.
Quanto à anunciada tentativa de cassar a chapa vencedora, a regra deve ser simples. Existe prova de abuso? Apresente à Justiça. Existe fundamento jurídico? Sustente no processo. O direito de recorrer vale para todos. Mas um recurso não é uma segunda eleição reservada ao candidato derrotado, muito menos um instrumento para manter indefinidamente a sociedade sob chantagem.
Há ainda uma contradição evidente em anunciar que buscará uma decisão judicial enquanto trabalha para desacreditar previamente as instituições que vão julgá-lo. Se ganhar, a Justiça funcionou? Se perder, estará confirmada a conspiração? Isso não é compromisso com a legalidade. É preparar uma desculpa para qualquer desfecho desfavorável.
O Brasil não precisa de mais um líder que só reconhece o eleitor quando recebe seu voto. Precisa de oposição firme, fiscalização e alternativas de governo. Não precisa de um derrotado tentando transformar ressentimento em crise institucional.
Ainda bem que Flávio perdeu. A entrevista oferece uma razão adicional para considerar acertada a escolha dos brasileiros. Aceitar a derrota não é humilhação. É o mínimo que se exige de quem pretende participar de um processo democrático.