
A quitação da mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília recolocou no centro do noticiário o financiamento milionário aprovado pelo BRB quando o banco era comandado por Paulo Henrique Costa, preso nesta quinta-feira (16) na operação da Polícia Federal sobre o caso Banco Master. O senador obteve em 2021 um empréstimo de R$ 3,1 milhões para comprar o imóvel no Lago Sul e, depois, liquidou a dívida antecipadamente com pagamentos extras, após ter declarado ao banco renda mensal de R$ 56,8 mil, metade dela vinda de uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro.
A compra da mansão, avaliada em cerca de R$ 6 milhões, envolveu um financiamento em 360 meses e exigiu aval da diretoria colegiada do banco. O imóvel pertencia a Juscelino Sarkis, filho de Simão Sarkis, e a venda foi formalizada em 29 de janeiro de 2021 por meio da RVA Construções e Incorporações.
Segundo os documentos sobre o caso, Flávio informou ao BRB uma renda mensal de R$ 56.833,51. Desse total, R$ 24.934,81 vinham do salário de parlamentar, R$ 3.372,87 de aplicações financeiras e R$ 28.525,83, o equivalente a 50%, de sua participação na franquia da Kopenhagen, operada desde 2015 no Via Parque Shopping, na Barra da Tijuca, pela empresa Bolsotini Chocolates e Café Ltda. A esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, teve renda presumida de R$ 8.650, elevando a composição familiar para R$ 65.483,51. A ação movida pela deputada Erika Kokay questionava justamente se essa renda seria compatível com a concessão do crédito.

As condições do contrato também provocaram controvérsia. O financiamento foi firmado com taxas nominais entre 3,65% e 3,71% ao ano, mais IPCA, em condições vistas como incomuns para um cliente comum. Na época, a prestação consumiria parcela elevada da renda declarada do casal. Também foi apontado que a renda exigida pelo simulador do próprio BRB para uma operação desse porte superaria o que havia sido apresentado por Flávio e Fernanda ao banco.
A quitação veio bem antes do prazo original de 30 anos. O financiamento foi encerrado em 2024 após seis amortizações, em valores que foram de cerca de R$ 198 mil a R$ 997 mil. Em outra frente de defesa, Flávio alegou à Justiça que parte dos recursos usados no negócio veio de sua atuação como advogado. Esse argumento, porém, chamou atenção porque não havia processos em nome dele nas unidades da federação em que mantém inscrição válida na OAB, o Rio de Janeiro e o Distrito Federal. Ao mesmo tempo, nenhuma renda de advocacia constava na composição informada ao BRB quando o empréstimo foi contratado.
O detalhe da franquia de chocolates ganhou ainda mais peso porque a loja, que era uma peça central na investigação sobre lavagem de dinheiro no caso das “rachadinhas”, deixou de ser comandada por Flávio em fevereiro de 2021, dias após a assinatura do contrato da mansão. Na ocasião, a administração do shopping informou que a operação da unidade passou para o Grupo CRM, dono da Kopenhagen, e que a empresa Bolsotini não era mais responsável pela gestão do negócio. Mesmo assim, Flávio argumentou ter usado dinheiro da loja para ajudar a pagar o valor de entrada do imóvel.
Mais tarde, o financiamento recebeu respaldo institucional em decisões e manifestações posteriores. O Ministério Público do Distrito Federal concluiu que a operação seguiu os manuais internos do BRB e afirmou não ter identificado favorecimento ao senador. Depois, em julho de 2025, um juiz do Tribunal de Justiça do Distrito Federal julgou improcedente a ação contra Flávio, sua esposa e o banco, entendendo que o empréstimo ocorreu de acordo com as normas da instituição e que não houve violação à legalidade nem à moralidade administrativa.
Os negócios entre o banco e empresas ligadas à família Sarkis foram além da venda da mansão, incluindo contrato da Sarkis Mineração com o BRB para fornecimento de brita ao autódromo de Brasília. Agora, com a prisão do ex-presidente do banco, o caso do imóvel ganha um detalhe incômodo: a mansão financiada sob aval do ex-chefão do BRB foi quitada de forma antecipada depois de o senador ter dito ao banco que metade de sua renda vinha da franquia da Kopenhagen.