Fórum na web de atiradores de Suzano foi berço da difamação da filha de Maria do Rosário. Por Zambarda

Foto: Montagem/Reprodução

O Dogolachan é um dos chans mais famosos pela propagação de ódio, de preconceito e de extrema-direita na internet brasileira.

A página era frequentada por Guilherme “1guY-55chaN” Taucci Monteiro e Luiz “luhkrcher666” Henrique de Castro, responsáveis pela tragédia com mortos na escola em Suzano. Outro famoso por ser um antro de extremistas é o 55chan.

Entre os dois, o Dogolachan foi criado em 2013 pelo hacker Marcelo Valle Silveira Mello e ele foi a primeira pessoa condenada pela justiça brasileira por crime de racismo na internet. Sua condenação ocorreu em 2009. Em 10 de maio de 2018 o criminoso foi preso durante a realização da Operação Bravata da Polícia Federal. O mesmo Marcelo ficou conhecido por perseguir a blogueira feminista Lola Aronovich.

Dos dois sites de usuários anônimos, um passou a comemorar a morte de crianças e pessoas na escola pública em Suzano. O 55chan tinha post com uma montagem dos dois atiradores e uma referência à música “Pumped Up Kicks” da banda Foster The People, cuja letra é sobre um jovem que atira nos seus colegas de escola. Comemorando, o chan colocou a mesma música para tocar automaticamente no site.

O mesmo 55chan divulgou as imagens da filha de Maria do Rosário, postadas por Hiram Galdino, um dos integrantes do esgoto bolsonarista, para atacar a deputada do PT. Difamando uma jovem e usando dados pessoais de inimigos políticos, essas pessoas em redes anônimas se sentem livres para atacar mulheres, o “politicamente correto” e figuras de esquerda. O mesmo Hiram, fora dos chans, também fez ataques contra Lola Aronovich. O procedimento deles é o mesmo.

Ao glorificar o massacre em Suzano, lembram de Columbine e das mortes de crianças em Realengo, no Rio de Janeiro.

E o que há em comum entre esses dois fóruns, frequentados pelos atiradores?

A internet, desde a sua formação comercial nos anos 90, sempre teve camadas abaixo dos buscadores digitais como o Google ou redes sociais como o Facebook. Essas camadas subterrâneas, povoadas por fóruns anônimos, é o que chamamos de Deep Web.

Nessa parte, sites e serviços digitais incluem a prática de crimes. Há vendas de drogas, contrabando e usuários despreocupados com a Justiça ou com a polícia.

O Dogolachan e o 55chan seguem a mesma formação do 4chan, um site criado pelo empreendedor digital Christopher Poole. Sua identidade foi mantida no anonimato até 2008 e desde 2016 ele trabalha no Google.

O 4chan se transformou numa referência na disseminação de memes e zoeiras, formando o que conhecemos hoje por cultura digital. No entanto, sistemas similares foram criados para fomentar ataques digitais. Os dois sites brasileiros seguem essa linha.

Mesmo com a prisão de Marcelo Valle Silveira Mello, o Dogolachan não foi retirado do ar.

Há investigações policiais envolvendo essas redes, mas boa parte desses fóruns usa criptografia e seus usuários possuem diferentes espaços que podem surgir caso uma das grandes redes caia.

Muitas pessoas que frequentam essas áreas da Deep Web possuem problemas de socialização. Por isso, antes de associar os videogames com os assassinos de Suzano, vale a pena ficar atento ao fenômeno dos “Incells”. Tratam-se de “celibatários involuntários”, que reclamam da sua falta de interatividade com mulheres e acabam se voltando para essa cultura do ódio. São pessoas que deveriam buscar ajuda psicológica profissional.

O que liga o caso de Suzano com os ataques contra Maria do Rosário é uma lógica que atua no subterrâneo da internet e chega na superfície em forma de ataques. Os autores sabem que podem ser incriminados caso sejam rastreados fazendo o que fazem.

Recorrem aos chans para fomentar esses crimes e fazer perguntas para outros anônimos. E são plenamente atendidos.

No caso da filha de Maria de Rosário, isso resultou em tuítes difamando sua reputação. No caso do crime em Suzano, jovens planejaram a morte de crianças e pessoas na Escola Estadual Professor Raul Brasil sob a teia do anonimato e realizaram o massacre.

A internet foi construída muito através da contribuição de anônimos. Sem a privacidade na rede, prevista pelo Marco Civil da Internet no Brasil, não teríamos ativistas políticos denunciando crimes de Estado, como foi o caso do WikiLeaks.

Como também foi o caso de Edward Snowden em relação aos Estados Unidos.

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