Frente ampla não é ‘geleia geral’. Por Fernando Brito

Lula – Foto: Felipe L. Gonçalves

PUBLICADO NO TIJOLAÇO

POR FERNANDO BRITO

Não me surpreendeu – e quem leu o post que escrevi bem cedo é testemunha – a atitude de reserva manifestada por Lula ante os manifestos pró-democracia e antibolsonaristas.

Ouço, há 40 anos, que “o momento é de união”, desde que os “luas pretas” do MDB queriam que toda a oposição ao regime militar deveria ficar sob o seu “guarda-chuva”, desde que quem controlasse o cabo do guarda-chuva fossem Tancredo Neves, Thales Ramalho e Ulysses Guimarães.

Lula também ouviu, como Leonel Brizola dizia, este convite a formarmos uma “geleia geral”, como se todos fôssemos iguais e tivéssemos os mesmos caminhos para o Brasil.

Não era assim no início dos anos 80 e não é assim agora.

Formar uma frente exige definir identidades e marcar o ponto de separação. É como dizer: vamos juntos até ali, depois nos separamos.

O primeiro passo para a formação de uma frente com coerência é que dela não sejamos partes apenas individuais, mas como parte das instituições da democracia que queremos defender: partidos, sindicatos, associações, todas as representações que formam uma sociedade madura.

Os últimos movimentos “geleia geral” que tivemos foram desastrosos: as “jornadas de junho” de 2013 e o impeachment de Dilma Rousseff foram caminhos que nos levaram ao que temos hoje.

A formação de uma frente, necessária e imprescindível, jamais se fará com a perda de identidade. CUT e Globo não são iguais; Fernando Henrique e Lula não são iguais. PT e MBL não são o mesmo. João Dória e Guilherme Boulos, muito menos.

A união possível é pela preservação das liberdades democráticas e o horizonte é a normalização da vida política, que não pode ser definida pela disputa judicial-policial, mas por eleições.

É preciso que isso fique claro, ou estaremos enganando a população e apostando numa “solução” que elimine o psicopata mas mantenha a crueldade da psicopatia.

Por deixar de lado estas diferenças de identidades as “diretas-já” terminaram em José Sarney e o antisarneysismo em Fernando Collor de Mello.

A direita, como não tem mais símbolos, está ansiosa por uma “geleia geral”, porque Jair Bolsonaro lhe roubou grande parte de seu eleitorado.

A esquerda, por sua vez, pode abrir mão de tudo, menos de não aceitar uma solução que mantenha o bolsonarismo sem Bolsonaro.

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